
Levantamento do Investindo Por Aí revela as cidades mais ricas do Nordeste a partir de três perspectivas: o PIB Total, o PIB per capita e o IRAE — Índice de Riqueza Ajustado por Equidade, metodologia própria do portal. Com base nos dados mais recentes do IBGE (2021), a análise considera não apenas o tamanho das economias municipais, mas também como a riqueza é distribuída entre seus habitantes, destacando os polos que mais crescem e aqueles em que o desenvolvimento chega de forma mais equilibrada à população.
O PIB Total representa o volume absoluto da produção econômica de cada município — isto é, quanto se produz em bens e serviços dentro de suas fronteiras. Já o PIB per capita divide esse valor pela população local, revelando o quanto, em média, cada habitante contribui para a geração de riqueza.
O terceiro indicador, o IRAE, foi delineado na primeira reportagem da série e volta a ser aplicado nesta nova etapa do levantamento. O índice combina três dimensões: renda média (PIB per capita), qualidade de vida (IDHM) e distribuição de renda (Equidade = 1 − Gini). A proposta é medir o equilíbrio entre crescimento econômico e justiça social, mostrando onde a prosperidade chega de forma mais ampla à população.
As maiores economias do Nordeste pelo PIB Total
| Posição | Cidade | Estado | PIB Total (R$ milhões) |
| 1 | Fortaleza | CE | 73.436,1 |
| 2 | Salvador | BA | 62.954,5 |
| 3 | Recife | PE | 54.970,3 |
| 4 | São Luís | MA | 36.535,2 |
| 5 | Camaçari | BA | 33.971,7 |
| 6 | Maceió | AL | 27.484,0 |
| 7 | Natal | RN | 24.186,3 |
| 8 | Teresina | PI | 23.895,2 |
| 9 | João Pessoa | PB | 22.244,3 |
| 10 | Aracaju | SE | 18.405,7 |
As capitais seguem como as maiores economias do Nordeste, sustentadas principalmente pelos setores de serviços, comércio e turismo. Entre as não capitais, Camaçari (BA) se destaca pela força da indústria petroquímica e automotiva, consolidando-se como o principal polo industrial baiano.
Ao Investindo Por Aí, a Prefeitura de Fortaleza, cidade que lidera o ranking, destacou que o fato de liderar o volume absoluto de riqueza no Nordeste, sem figurar entre os municípios com maior PIB per capita, evidencia a complexidade da desigualdade socioeconômica urbana — um desafio estrutural compartilhado por grandes centros metropolitanos no Brasil.
“Fortaleza concentra polos econômicos relevantes, com destaque para os setores de comércio, serviços, tecnologia e turismo. No entanto, essa dinâmica econômica robusta ainda convive com disparidades significativas no acesso a oportunidades e renda”, afirma a Prefeitura.
Segundo a administração municipal, para enfrentar essa realidade, a gestão tem direcionado esforços para promover um desenvolvimento mais equilibrado e justo. Entre as principais iniciativas, destacam-se os investimentos estratégicos planejados para as áreas com maior vulnerabilidade social, com foco em habitação, urbanização, educação integral, segurança alimentar, saúde e acesso à cultura.
“A Prefeitura também segue comprometida com o monitoramento constante dos indicadores sociais, utilizando ferramentas de gestão orientadas por dados para garantir que as políticas públicas estejam sendo aplicadas com eficácia e impacto nos territórios que mais precisam”, confirma o município.
Fortaleza reconhece que o avanço é contínuo e requer persistência. “O desafio agora é transformar crescimento em equidade, e essa é uma prioridade central da atual gestão”, reforça a Prefeitura.
Já Salvador, embora detenha o segundo maior PIB do Nordeste, enfrenta altos níveis de desigualdade, informalidade e precarização do trabalho, ou seja, a riqueza é gerada, mas não é redistribuída de forma equitativa. Quem aponta essa situação é José Cláudio Rocha, professor pleno da Universidade do Estado da Bahia, pesquisador público e coordenador do CRDH/UNEB, economista, advogado e analista e desenvolvedor de sistemas:
“Os problemas de Salvador passam pela falta de indução do desenvolvimento por parte da Prefeitura, que precisa investir mais na mudança desse cenário. É uma cidade com grande concentração de renda e históricas desigualdades sociais”.
Segundo o economista, é necessário que o poder público implemente políticas mais decisivas, focadas não apenas no crescimento econômico, mas no desenvolvimento humano, social, cultural e territorial sustentável.
A partir dessa leitura, Rocha destaca que as políticas públicas para Salvador e região metropolitana devem integrar a economia de serviços da capital com cidades industriais próximas, incentivar a inovação e novas economias (solidária, criativa e de impacto socioambiental), investir em educação de qualidade, habitação, mobilidade e inclusão produtiva das periferias, além de adotar métricas de avaliação baseadas em equidade e bem-estar, como o IRAE, o IDH local e o índice de pobreza multidimensional.
“É preciso investir em uma maior diversidade econômica, apoiar a culinária baiana que cresce de forma orgânica e fortalecer o empreendedorismo de vanguarda, a qualidade na educação e a cultura da inovação inclusiva”, considera Rocha.
Cidades pequenas puxam a renda per capita
| Posição | Cidade | Estado | PIB per capita (R$) |
| 1 | São Francisco do Conde | BA | 321.810,96 |
| 2 | Tasso Fragoso | MA | 272.095,76 |
| 3 | Godofredo Viana | MA | 219.655,83 |
| 4 | Santo Antônio dos Lopes | MA | 210.498,16 |
| 5 | Camaçari | BA | 109.866,84 |
| 6 | Uruçuí | PI | 129.458,67 |
| 7 | Lagoa do Barro do Piauí | PI | 114.788,12 |
| 8 | Santa Filomena | PI | 98.463,36 |
| 9 | Luís Eduardo Magalhães | BA | 95.182,40 |
| 10 | Maracanaú | CE | 53.410,24 |
O ranking por PIB per capita mostra que municípios com forte presença industrial ou agrícola lideram em renda média. São Francisco do Conde (BA) mantém a dianteira graças ao refino de petróleo, enquanto Tasso Fragoso (MA) e Uruçuí (PI) refletem a expansão do agronegócio de grãos.
No entanto, é preciso contextualizar esses números: cidades com população pequena tendem a apresentar valores de PIB per capita mais elevados, mesmo que o volume total de riqueza não seja tão grande. São Francisco do Conde, por exemplo, tem 38.733 habitantes, Tasso Fragoso cerca de 8.455 e Uruçuí 25.203, de acordo com o Censo 2022 do IBGE.
Isso significa que a alta renda média reflete, em parte, o efeito da divisão do PIB por um número reduzido de habitantes, e não necessariamente um retorno econômico amplo para toda a população.
Rocha afirma que a economia baiana apresenta heterogeneidade estrutural típica dos territórios brasileiros. “Salvador, como metrópole regional, concentra serviços avançados, administração pública, comércio e consumo, mas apresenta uma baixa densidade industrial e uma forte dependência de transferências e consumo interno, o que limita o crescimento do PIB per capita”.
Ele acrescenta que outro fator que restringe o aumento do PIB per capita é o índice de complexidade econômica: a Bahia e Salvador, assim como o Brasil, possuem setores industriais reduzidos, o que impacta diretamente no desempenho médio de renda.
“Já municípios como Camaçari e São Francisco do Conde são economias com clusters industriais, fortemente integradas a cadeias produtivas globais – sobretudo petróleo, energia e petroquímica – mas com baixo multiplicador local, ou seja, produzem muito, mas geram poucas oportunidades de trabalho, emprego, renda, inclusão produtiva e social”, analisa o economista.
“É como os economistas dizem: todos esses investimentos que estão acontecendo, não estão gerando externalidades positivas, apesar da comunicação oficial dizer o contrário. É preciso, inclusive, investir na melhora da percepção da população sobre a gestão pública”, complementa.
Rocha destaca que o contraste entre Salvador, Camaçari e São Francisco do Conde evidencia um padrão de dualidade econômica: enquanto a capital é densa em população e serviços, porém vulnerável em produtividade (associada à tecnologia e cultura empresarial mais do que ao tempo trabalhado), as cidades industriais apresentam alta produtividade, mas pouca integração social ao entorno.
“A concentração de renda e as desigualdades sociais dificultam o desenvolvimento sustentável da região”, reforça.
IRAE mostra onde a riqueza é melhor distribuída
| Posição | Cidade | Estado | IRAE |
| 1 | São Francisco do Conde | BA | 0,401 |
| 2 | Fernando de Noronha | PE | 0,327 |
| 3 | Godofredo Viana | MA | 0,284 |
| 4 | São Gonçalo do Amarante | CE | 0,283 |
| 5 | Tasso Fragoso | MA | 0,268 |
| 6 | Alhandra | PB | 0,248 |
| 7 | Camaçari | BA | 0,240 |
| 8 | Maracanaú | CE | 0,239 |
| 9 | Várzea | PB | 0,234 |
| 10 | Ipojuca | PE | 0,232 |
O IRAE (Índice de Riqueza Ajustado por Equidade), criado pelo Investindo Por Aí, vai além da simples medição do tamanho da economia, avaliando também a capacidade de cada município de transformar riqueza em bem-estar para sua população.
No ranking do IRAE, São Francisco do Conde (BA) lidera ao reunir alto PIB per capita, indicadores sociais acima da média regional e menor desigualdade, mostrando que a prosperidade local se traduz em benefícios concretos para a população.
“O desempenho de São Francisco do Conde no IRAE indica que, mesmo com uma base econômica concentrada na indústria de petróleo, o município tem conseguido traduzir parte de sua renda em melhores indicadores sociais e distributivos – em função de políticas públicas municipais mais focadas em educação, saúde e programas sociais”, conclui Rocha.
Fernando de Noronha (PE) e Várzea (PB) também se destacam, principalmente por apresentarem boa distribuição de renda e altos níveis de qualidade de vida, ainda que seus PIBs totais sejam mais modestos.
Por outro lado, as capitais ficaram fora do top 10 tanto do PIB per capita quanto do IRAE, reflexo da maior concentração de renda e das desigualdades urbanas que marcam grandes centros metropolitanos.
A análise conjunta dos três rankings indica um movimento de interiorização da riqueza no Nordeste.
O que as cidades mais ricas têm em comum?
- Setores industriais ou agrícolas de alto valor agregado;
- Infraestrutura logística consolidada (portos, rodovias, ferrovias, aeroportos);
- Incentivos fiscais e programas de atração de investimentos;
- Autonomia econômica, ou seja, baixa dependência do setor público na geração de renda;
- Apoio a novas economias e diversificação produtiva.
Este texto integra a série de reportagens do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste
