
À primeira vista, São Francisco do Conde, na Bahia, parece uma cidade parada no tempo. As ruas estreitas de pedra, as igrejas barrocas e os casarões coloniais guardam uma beleza antiga, daquelas que resistem silenciosas à pressa do presente. No alto do monte, o Convento de Santo Antônio, construído em 1618 por ordem do Conde de Linhares, domina a paisagem do Recôncavo Baiano, testemunhando séculos de história. Foi ali, quarenta anos depois, que nasceu oficialmente o município, batizado em homenagem a seu padroeiro e ao conde português herdeiro das terras de Mem de Sá, o terceiro governador-geral do Brasil.
Desde o início, São Francisco do Conde fez parte do grupo de cidades que formaram o coração econômico do Recôncavo. Cercada por engenhos e canaviais, tornou-se, no século XIX, uma das potências açucareiras mais importantes do país. O açúcar que saía de lá abastecia os portos europeus e enriquecia os barões locais, enquanto milhares de africanos escravizados mantinham a economia de pé. Com a abolição e o fim do ciclo do açúcar, o município entrou em silêncio. Pouco depois, o petróleo mudou tudo.
Em 1949, a Refinaria Landulpho Alves, da Petrobras, inaugurou uma nova fase. As paisagens de engenhos deram lugar a torres metálicas e tanques de combustível. O refino de petróleo transformou São Francisco do Conde em um dos municípios mais ricos do Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) per capita já ultrapassou R$ 321 mil, quase oito vezes maior que a média nacional e catorze vezes superior à da Bahia.
No ranking elaborado pelo Investindo Por Aí, São Francisco do Conde aparece como a cidade mais rica do Nordeste. Com 38.733 habitantes, segundo o Censo de 2022, a cidade ocupa a 60ª posição em população entre os 417 municípios baianos e a 844ª no Brasil. A densidade demográfica é de 143,6 habitantes por quilômetro quadrado, em um território de 269,7 km².
O setor do petróleo segue como pilar da economia local, sustentando um PIB que a coloca entre as 20 cidades mais ricas do país. Mas essa dependência revela uma vulnerabilidade: em 2021, com oscilações na produção e refino, o município caiu do 9º para o 18º lugar no ranking nacional do PIB per capita. Mesmo assim, continua liderando o cenário baiano, com receitas brutas de mais de R$ 719 milhões em 2024 – das quais cerca de 74% vêm de transferências externas, o que reforça a dependência do poder público em relação à arrecadação do petróleo.
Os elevados ganhos gerados pela atividade petrolífera acabam compensando e, em certa medida, mascarando as desigualdades do município. Esse contraste aparece de forma clara ao considerar outros indicadores sociais – e também ajuda a equilibrar o IRAE, segundo a metodologia proposta.
A cidade apresenta bons índices educacionais. A taxa de escolarização entre crianças de 6 a 14 anos chega a 99,24%, e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) nos anos iniciais do ensino fundamental é de 4,2. Mais da metade dos domicílios (56,3%) têm esgotamento sanitário adequado, o que projeta o município acima da média nordestina de 50,1%.
Fora das planilhas, a cidade conserva o ritmo tranquilo do interior baiano. O porto de canoas ainda recebe pescadores. O cheiro de peixe fresco se mistura à maresia. As mulheres marisqueiras mantêm viva uma tradição de séculos. As palmeiras imperiais deixadas pelos portugueses ainda desenham as praças, e os casarões coloniais continuam de pé. Nas cozinhas, o mingau de milho, a tapioca e o peixe assado na folha de bananeira seguem como símbolos de uma cultura formada pela mistura entre indígenas, africanos e europeus.
Entre moradores e historiadores, há um sentimento de alerta. A cidade que tanto representa o passado do Brasil enfrenta agora o apagamento da própria memória. Arquivos desaparecem, documentos se perdem, e as novas gerações parecem crescer sem conhecer o peso histórico do lugar onde vivem. São Francisco do Conde, antes centro de poder e cultura, corre o risco de virar apenas um número — o da cidade mais rica do Nordeste, mas uma das que mais esquecem de si.
Do alto do convento, de onde se vê a Baía de Todos os Santos, o passado ainda sopra pelos corredores antigos. Talvez esteja ali o maior paradoxo franciscano: um lugar que sustentou o Brasil com açúcar e petróleo, mas que agora precisa reencontrar sua própria história para não desaparecer dentro dela.
Este texto integra a série de reportagens do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste