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12 de agosto de 2026 12:55

Fernando de Noronha mede felicidade e revela os limites de um modelo baseado em exclusividade e alto custo

Fernando de Noronha mede felicidade e revela os limites de um modelo baseado em exclusividade e alto custo

Fernando de Noronha sempre esteve associado a controle e exclusividade, mas há mais para entender em relação à ilha
Foto: Thayanne Magalhães

Fernando de Noronha, arquipélago tropical localizado no litoral de Pernambuco, voltou ao centro do debate nacional ao ser anunciado como o primeiro território do Brasil a medir a Felicidade Interna Bruta (FIB). Criado no Butão na década de 1970, o indicador propõe uma leitura ampliada de desenvolvimento, incorporando bem-estar psicológico, governança, meio ambiente, cultura e padrão de vida, em contraste com a lógica estritamente econômica do Produto Interno Bruto (PIB).

A escolha de Noronha como laboratório brasileiro do FIB não é apenas técnica ou simbólica. Ela dialoga diretamente com um imaginário consolidado ao longo de décadas, que associa a ilha a riqueza, exclusividade e acesso restrito. Medir felicidade nesse território é, também, colocar em xeque o clichê do paraíso onde todos vivem bem.

A pesquisa foi realizada a partir de entrevistas com moradores do arquipélago, com metodologia adaptada da experiência internacional, e apresentada publicamente em eventos institucionais ligados à sustentabilidade e ao turismo. Segundo Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambiental, uma das organizações responsáveis pelo estudo, o índice permite enxergar o território para além dos indicadores tradicionais. “O FIB nos ajuda a entender como a população realmente vive aqui, quais são suas expectativas e limitações, abrindo espaço para políticas públicas mais alinhadas com a felicidade e não apenas com o crescimento econômico”, afirmou em apresentação oficial.

Caio Queiroz, CEO da Aguama Ambiental, em evento institucional sobre turismo sustentável | Foto: Arquivo pessoal

Queiroz defende que o arquipélago reúne condições únicas para esse tipo de experimento. “Fernando de Noronha tem potencial para se tornar referência mundial em bem-estar e sustentabilidade, justamente por já operar sob fortes restrições ambientais e institucionais”, disse.

Historicamente, Fernando de Noronha sempre esteve associado a controle e exclusividade. Descoberto no início do século XVI, o arquipélago foi ocupado como ponto estratégico militar e, durante séculos, funcionou como presídio. Ao longo do século XX, permaneceu sob administração das Forças Armadas até ser reintegrado ao Estado de Pernambuco com a Constituição de 1988. Hoje, Noronha é um Distrito Estadual, com autonomia administrativa e financeira, funcionando, na prática, como um município, embora sem o mesmo arranjo político.

A governança do território é compartilhada. A Administração Distrital de Fernando de Noronha é responsável pelos serviços urbanos, ordenamento e gestão local, enquanto o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) administra o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, que protege grande parte da área terrestre e marítima. Esse modelo institucional, oficialmente voltado à preservação ambiental, também impõe limites severos à ocupação, à moradia e à circulação de pessoas.

Foi a partir da consolidação do turismo, sobretudo nos anos 2000, que a imagem de Noronha como destino de luxo ganhou força. A combinação entre natureza preservada, controle de visitantes, cobrança da Taxa de Preservação Ambiental (TPA) e preços elevados transformou a ilha em um símbolo de status. “Para muitos brasileiros, Fernando de Noronha é o destino dos sonhos não apenas pela natureza, mas porque simboliza um estilo de vida aspiracional ao qual poucos têm acesso”, analisa Maria Cecília Gomes, professora de turismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que pesquisa a economia do arquipélago.

Segundo ela, a exclusividade passou a fazer parte do próprio produto turístico. “A ilha foi sendo construída como um lugar onde o alto custo não é um efeito colateral, mas um elemento estruturante da experiência”, afirma.

Foto: Thayanne Magalhães

Essa percepção é reforçada por análises econômicas. Para o economista pernambucano Ricardo Duarte, especializado em turismo de alto padrão, a associação entre Noronha e riqueza é resultado de escolhas históricas. “Há uma dicotomia forte entre preservação ambiental e exclusividade financeira. Os preços elevados não são apenas consequência do isolamento, mas parte da construção simbólica do destino”, explica. “Noronha não pertence só aos moradores. Ela também pertence a um grupo econômico e turístico que enxerga a ilha como marca de prestígio”.

Para quem vive no arquipélago, esse discurso tem efeitos concretos. A empresária local Naná Diniz disse em conversa com o Investindo Por Aí, que a fama de ilha dos ricos não reflete a realidade da maior parte da população. “Vou falar por mim. Eu sinto que rico só gera para rico. Existe uma ilusão nessa visão. Parece que todo mundo aqui ganha dinheiro fácil e mora no paraíso, mas não é assim”, diz.

Ela relata que a felicidade cotidiana está distante da imagem vendida ao restante do país. “A gente trabalha muito, no sol quente, quatro graus abaixo da linha do Equador, com índice alto de câncer de pele, para ainda ouvir que vive no paraíso. Existe uma diferença enorme entre expectativa e realidade”, contou a moradora da ilha.

A empresária e moradora de Fernando de Noronha, Naná Diniz | Foto: Arquivo Pessoal

A vendedora Lua Dino Barros compartilha da mesma percepção. Para ela, a imagem de riqueza se sustenta nos preços e no perfil de quem consegue consumir sem restrições. “A maioria dos visitantes é de classe alta. Isso fica claro no trabalho, porque são turistas que compram sem questionar valores”, relata. “Só quem consegue vir e fazer tudo sem sentir no bolso são os ricos. Até nós, moradores, sentimos no bolso qualquer coisa”.

Lua reconhece que o contato com a natureza impacta positivamente o bem-estar. “Aqui tem menos poluição, menos trânsito, mais calmaria. Isso realmente traz felicidade”, diz. Mas pondera que outros fatores essenciais não acompanham essa sensação. “Financeiro, saúde, educação, moradia e diversidade de lazer deixam a desejar. Isso não condiz com o que se espera de uma ilha que arrecada tanto com turismo e com a TPA”, continuou.

Entre os principais desafios apontados pelos moradores estão o alto custo de vida, a precariedade da infraestrutura urbana, limitações no atendimento de saúde, dificuldade de acesso à educação superior e a crise habitacional, agravada pela escassez de terrenos e pelo valor elevado dos aluguéis.

Naná Diniz define a experiência de viver em Noronha como uma convivência constante com paradoxos. “É uma terra limitada, cercada por um horizonte infinito. A gente vive entre liberdade e limitação. Ser ouvido, valorizado e não subjugado também é um desafio diário”, afirma.

Lua Barros também mora em Noronha | Foto: Arquivo Pessoal

É justamente esse conjunto de contradições que a Felicidade Interna Bruta pretende tornar visível. Ao ouvir os moradores e sistematizar dados sobre bem-estar, o índice desloca o debate da paisagem para a vida cotidiana. Em vez de reforçar o clichê da riqueza, a experiência em Noronha revela que desenvolvimento, mesmo em territórios altamente valorizados, não é automático nem homogêneo.

Ao medir felicidade, Fernando de Noronha inaugura um novo capítulo em sua história institucional. Resta saber se os resultados do levantamento serão incorporados de forma efetiva às políticas públicas, ajudando a transformar um símbolo de exclusividade em um território onde preservação ambiental, turismo e qualidade de vida caminhem juntos também para quem mora na ilha.

 

Este texto integra a série de reportagens do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste

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