
O Nordeste brasileiro vive uma transformação energética de proporções históricas. Impulsionada por ventos constantes, uma matriz solar privilegiada e um volume crescente de investimentos públicos e privados, a região se consolidou como o principal polo de energia renovável do país e projeta expansão ainda maior nos próximos anos. Os números são expressivos: mais de 90% de toda a energia eólica gerada no Brasil vem do Nordeste, e o volume de projetos outorgados, mas ainda não iniciados, soma R$ 130 bilhões e 18 mil megawatts de capacidade instalada.
O governo federal tem papel central nessa equação. O Ministério de Minas e Energia planeja investir R$ 225 bilhões no setor elétrico nacional até o fim do ano, com a maior fatia direcionada a projetos eólicos e solares na região. Segundo o ministro Alexandre Silveira, os leilões de transmissão realizados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) devem destravar entre R$ 180 bilhões e R$ 200 bilhões especificamente em energia eólica e solar no Nordeste. Só o leilão de transmissão de março de 2023 arrecadou R$ 15,7 bilhões em investimentos para a construção de 6.184 quilômetros de linhas e 400 MVA em subestações, com foco principal no escoamento da energia produzida na região para o Sudeste, onde está a maior demanda do país.
Uma matriz que já impressiona
O Brasil ocupa hoje a quinta posição mundial em potencial de energia eólica instalada, com cerca de 33,7 gigawatts onshore no início de 2025. A fonte eólica representa aproximadamente 15% de toda a capacidade instalada no país e é a segunda maior da matriz elétrica nacional, que já tem quase metade de sua geração proveniente de fontes renováveis — uma das mais limpas entre os países do G20.
Os estados nordestinos lideram esse ranking. A Bahia responde por 34% da potência instalada nacional, com 533 parques eólicos em operação. O Rio Grande do Norte vem em seguida, com 30,7% e 368 parques. Piauí, Ceará e Pernambuco completam o grupo de protagonistas regionais. Em 2024, o Brasil atingiu uma média de 23.699 megawatts de produção eólica, configurando um recorde histórico que evidencia o ritmo de expansão do setor.
Emblema desse crescimento, o Complexo Eólico Lagoa dos Ventos, no Piauí, é o maior em operação na América do Sul. Gerido pela Enel Green Power, o empreendimento conta com mais de 1,5 gigawatt de capacidade instalada, 372 aerogeradores e geração média superior a 6,7 terawatts-hora por ano — o equivalente a evitar a emissão de 3,6 milhões de toneladas de gás carbônico anualmente. Na Bahia, o Complexo Campo Largo, operado pela Engie Brasil, soma 687 megawatts distribuídos em duas fases e 121 aerogeradores.
Mais recente na lista, o Complexo Eólico Serra do Tigre, localizado entre Rio Grande do Norte e Paraíba, entrou em operação comercial em fevereiro deste ano com dez de suas onze usinas ativas. Com 684 megawatts de capacidade instalada e 152 unidades geradoras, o empreendimento integra o Novo PAC e tem capacidade de abastecer mais de um milhão de residências. A última usina do complexo deve entrar em operação até dezembro de 2027.
Crédito e financiamento como alavanca
O Banco do Nordeste (BNB) tem sido peça fundamental nessa expansão. Entre 2019 e 2022, a instituição aplicou mais de R$ 25 bilhões em projetos eólicos e solares em sua área de atuação. O crédito para energia solar cresceu 304% no período, saltando de R$ 948 milhões para R$ 3,8 bilhões. Só no Ceará, o BNB destinou R$ 3,6 bilhões para renováveis nos mesmos quatro anos, financiando desde pequenos painéis residenciais até megausinas. “Atuamos para oferecer estrutura de atração a novos negócios ao mesmo tempo que contribuímos para o país ter uma geração de energia mais limpa”, afirmou José Gomes da Costa, presidente do banco.
O impacto econômico vai além da geração de energia. Segundo boletim da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), cada R$ 1 investido em parques eólicos eleva o PIB brasileiro em cerca de R$ 2,90. Entre 2011 e 2020, o setor gerou mais de 190 mil postos de trabalho no país — uma média de 10,7 empregos por megawatt instalado. O ministro Silveira estima que apenas o leilão de transmissão de 2026 deve gerar 60 mil empregos diretos e indiretos no Nordeste.
A fronteira do hidrogênio verde
A ambição da região vai além do eólico e do solar convencionais. O Rio Grande do Norte projeta R$ 127 bilhões em investimentos em hidrogênio verde, incluindo US$ 20 bilhões em aportes diretos. Bahia, Ceará e Piauí também disputam protagonismo nessa corrida, com projetos em diferentes estágios de desenvolvimento. O hidrogênio verde, produzido a partir de energia renovável e que já foi tema de série de reportagens no Investindo Por Aí, é visto como uma das apostas centrais da transição energética global, e o Nordeste, com seu potencial solar e eólico ímpar, está bem posicionado para ocupar um papel relevante nesse mercado.
A projeção de crescimento econômico da região entre 2026 e 2034 é de 3,1%, puxada justamente pelas renováveis. Os investimentos totais previstos para o Nordeste, somando eólica, petróleo, aeroportos e infraestrutura, podem alcançar R$ 750 bilhões.

Desafios à vista
Apesar do cenário favorável, especialistas apontam gargalos que podem comprometer o ritmo de expansão. A capacidade de escoar o excedente de energia renovável ao Sudeste depende da execução integral dos projetos de transmissão previstos — obras sujeitas a prazos regulatórios e condições de mercado que nem sempre se cumprem no tempo esperado. Os R$ 130 bilhões em projetos eólicos outorgados, mas ainda não iniciados, são prova de que entre a concessão e a operação há um caminho longo e incerto.
Todas as projeções estão igualmente sujeitas a variações de inflação, câmbio e mudanças no ambiente regulatório. O cenário é promissor, mas a consolidação do Nordeste como potência energética renovável dependerá tanto da execução dos projetos em carteira quanto da capacidade do país de transformar geração de energia em desenvolvimento econômico duradouro para os 60 milhões de habitantes da região.