
A história do Ceará pode ser lida como um esforço persistente e por vezes desesperado de domesticar dois elementos indomáveis que são a escassez da água e a abundância do sol e do vento. O que antes era uma luta pela sobrevivência biológica marcada pelas tragédias dos campos de concentração de flagelados em 1915 e 1932 transmutou-se neste início de 2026 em uma sofisticada engenharia de desenvolvimento econômico. O estado que outrora exportava retirantes agora se posiciona para exportar o combustível do futuro por meio do hidrogênio verde ancorado em uma malha de infraestrutura que tenta resolver o atavismo da seca por meio da técnica e do capital.
O conceito de civilização hidráulica nasceu da necessidade imperiosa de converter o regime intermitente dos rios em uma reserva perene capaz de sustentar a vida e a economia. Desde o final do século XIX quando a seca de 1877 dizimou quase metade da população de Fortaleza e criou o fatídico dia dos mil mortos o poder público mergulhou em uma política obsessiva de açudagem. Esse capital hidráulico acumulado ao longo de mais de um século resultou em uma rede densa de mais de sete mil reservatórios espalhados pelo território cearense. O açude Castanhão com seus seis bilhões de metros cúbicos tornou-se o coração desse sistema e garantiu que mesmo em secas severas como a que castigou o estado entre 2012 e 2017 o colapso urbano fosse evitado na capital e em seu entorno industrial.
Entretanto a abundância nos grandes centros esconde um paradoxo rural persistente que desafia os gestores públicos. Enquanto a Região Metropolitana de Fortaleza e o Complexo do Pecém são supridos por complexos sistemas de transposição as comunidades mais remotas ainda dependem de uma logística rudimentar de carros-pipa. O governo tenta quebrar essa dicotomia histórica com o projeto Malha D’Água que consiste em uma rede de 688 quilômetros de adutoras para levar água ultrafiltrada diretamente das fontes profundas para as sedes municipais e distritais. Em outubro de 2025 o investimento de R$ 31 milhões na subestação elétrica de Banabuiú marcou um passo decisivo para esse projeto e evidenciou que a segurança hídrica no semiárido é antes de tudo um problema de energia. Sem eletricidade confiável para bombear e tratar o líquido o açude permanece apenas como uma miragem inalcançável no horizonte sertanejo.
A metamorfose renovável e a nova geometria da energia
Se a água foi o limite histórico do Ceará o vento e o sol tornaram-se suas novas fronteiras de expansão nas últimas décadas. A matriz energética cearense passou por uma metamorfose radical e o estado que antes dependia da importação de energia e de termelétricas poluentes viu seus ventos passarem a responder por quase metade da geração elétrica local. Esse excedente renovável permitiu a criação do Hub de Hidrogênio Verde no Porto do Pecém que já soma mais de trinta memorandos de entendimento com gigantes globais interessadas na descarbonização das suas economias.
Para viabilizar esse salto industrial o governo anunciou em dezembro de 2025 o início das obras de mais de 1.400 quilômetros de novas linhas de transmissão com um investimento projetado de R$ 3,6 bilhões. Essa obra colossal visa resolver o gargalo da exportação de energia e permitir que o vigor dos parques eólicos e solares do interior chegue com potência total ao litoral onde as usinas de eletrólise começam a tomar forma. Além disso o Ceará utiliza sua infraestrutura energética para atrair setores de tecnologia de ponta como o primeiro data center do TikTok na América Latina que iniciou suas obras em janeiro de 2026 aproveitando a energia limpa e barata da região.
O peso do desenvolvimento na estrutura econômica estadual
A importância estratégica dessas obras reflete-se diretamente no Produto Interno Bruto estadual e na estabilidade social da população. Estudos de insumo-produto demonstram que a continuidade do desenvolvimento cearense está umbilicalmente ligada à disponibilidade desses dois insumos essenciais que são a água e a eletricidade. Setores-chave como a indústria têxtil e a produção de alimentos possuem uma dependência crítica do custo e da estabilidade do fornecimento energético para manterem sua competitividade no mercado nacional e internacional. Um choque na oferta de eletricidade ou uma restrição severa no uso da água não provoca apenas um desaquecimento produtivo mas uma retração imediata nos níveis de emprego e renda das camadas mais vulneráveis da sociedade.
O Ceará de 2026 tenta se desvencilhar definitivamente da imagem da indústria da seca que durante décadas descreveu o uso político da miséria humana. A nova fase de obras busca a sofisticação tecnológica com usinas de dessalinização para converter a água do mar em potável e parques eólicos offshore que exploram a força dos ventos marinhos. É uma tentativa de redesenhar a geografia do estado onde o Porto do Pecém funciona como o portal para o mercado europeu e o interior deixa de ser apenas o lugar da espera passiva pela chuva para se tornar o canteiro de obras da transição energética global. O desafio permanece sendo a distribuição justa desse bônus tecnológico para garantir que a civilização hidráulica e energética alcance o sertanejo que ainda olha para o céu à espera de um futuro menos árido.