Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
11 de fevereiro de 2026 09:44

Acordo Mercosul–UE abre portas ao Nordeste, mas cobra padrão europeu do campo ao porto

Acordo Mercosul–UE abre portas ao Nordeste, mas cobra padrão europeu do campo ao porto

Estudo do FGV Ibre mostra que frutas, açúcar e tabaco podem ganhar espaço na Europa, desde que a região invista em logística fria, rastreabilidade, conformidade sanitária e agregação de valor, sob o risco do potencial virar frustração
Foto: Reprodução/Internet

O estudo do FGV Ibre sobre os efeitos regionais do acordo Mercosul–União Europeia é direto no diagnóstico: abre-se oportunidades, mas o resultado final tende a depender menos do corte de tarifas em si e mais da capacidade produtiva, financeira e institucional de cada região para cumprir requisitos, ganhar escala e segurar competitividade. É por isso que, embora o Centro-Oeste apareça como maior beneficiário em ganhos absolutos, o Nordeste entra como um beneficiário relevante em cadeias específicas, principalmente frutas, açúcar e tabaco, onde já existe base exportadora e demanda europeia, mas também gargalos que podem transformar potencial em frustração se não houver investimento coordenado, afirmam os pesquisadores da FGV. 

“O acordo pode ampliar acesso e diversificar compradores, porém, Europa não é só tarifa, é padrão. E o padrão europeu, no agro, é rastreabilidade, conformidade sanitária e consistência logística (qualidade chegando igual toda semana, com documentação impecável)”, explica  Thiago de Araújo Freitas, um dos responsáveis pela pesquisa. 

Fruticultura de exportação: o ganho rápido se o padrão estiver na fazenda e no porto

Entre as cadeias citadas como promissoras para o Nordeste, frutas costumam ser as que respondem mais rapidamente, porque boa parte do ajuste não é uma nova planta industrial, mas governança de qualidade, certificação, rastreabilidade e logística fria.

A Abrafrutas aponta que, para a Europa, as exportações brasileiras de frutas como manga, melão, limão, melancia, uva e mamão cresceram em 2025 em valor e volume, sinal de demanda e espaço para consolidar mercado. No lado europeu, um dos pontos críticos é resíduo de defensivos; UE define Limites Máximos de Resíduos (MRLs) e atualiza regras constantemente, com base em segurança alimentar.

A fruticultura irrigada, como no Vale do São Francisco, Mossoró, litoral do Ceará e Rio Grande do Norte, é forte, mas o risco reputacional também é alto. Situações como uma sequência de cargas barradas por resíduo acima do permitido, falhas de documentação ou quebra de cadeia fria tendem a fechar as portas rapidamente, e a reabertura custa ainda mais caro”, afirma Freitas. 

Açúcar e (em parte) etanol: oportunidade existe, mas depende de quota, custo logístico e eficiência

No açúcar, o acordo traz parâmetros objetivos: o governo brasileiro e entidades do agro detalham cotas e cronogramas, incluindo quota de açúcar com tarifa zero na entrada em vigor (180 mil toneladas para o Mercosul, segundo o factsheet oficial).

Para o Nordeste, isso conversa com a base sucroenergética de estados como Pernambuco e Alagoas, mas a captura do ganho não é automática, segundo o relatório. A UE opera com regimes de quotas e tarifas e o prêmio pode ficar com quem entrega com menor custo total.

Foto: Divulgação


Açúcar é volume, tem margem apertada e dependência do porto. Se o Nordeste quer transformar quota em ganho efetivo, precisa reduzir custo logístico e elevar produtividade industrial e energética nas usinas, além de reforçar comprovações ambientais para compradores europeus (que, mesmo quando não são obrigação legal específica, viram exigência comercial)”, sinaliza o pesquisador. 

O tabaco aparece como um dos itens com potencial, mas com cronogramas de desgravação e dinâmica competitiva própria (inclui disputa com origens que já têm preferências). Reportagens setoriais destacam que a redução tarifária pode melhorar a posição do produto brasileiro, porém isso vem junto de exigências crescentes de rastreabilidade e compliance para cadeias sensíveis.

Quem plantar, vai colher

O estudo do FGV Ibre sugere que os ganhos regionais dependem menos do acesso ao mercado e mais da capacidade local de adaptação e inserção externa, caso contrário, acordos comerciais tendem a reforçar especializações existentes sem elevar o valor capturado. No caso do Nordeste, isso significa que a competitividade passa por investimentos estruturantes que permitam transformar potencial exportador em vantagem duradoura, e não apenas em maior volume de vendas.

Esses investimentos se concentram na melhoria da infraestrutura logística e da cadeia fria, com modernização de terminais, maior eficiência nos embarques de produtos perecíveis, integração modal quando for necessário e redução de custos e tempos nos portos. Ao mesmo tempo, exigem o fortalecimento do sistema sanitário e de conformidade do campo ao embarque, com laboratórios, monitoramento de resíduos, padronização em packing houses e capacitação focada em rastreabilidade, auditorias e padrões internacionais.

Há ainda a necessidade de avançar na rastreabilidade digital e na governança de dados, registrando origem, insumos e rotas para reduzir riscos comerciais e ampliar o poder de barganha dos produtores. Na outra ponta, a agregação de valor não precisa passar por grandes fábricas no curto prazo, mas por etapas como classificação, calibração, processamento mínimo, embalagens, certificações e construção de marcas ou indicações geográficas, formas de industrialização leve que o mercado europeu tende a remunerar quando a qualidade é consistente Apesar do acordo ser desafiador, o Brasil já possui empresas e parceiros capazes de dar conta do recado, garantem os especialistas. 

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

Embasa
20190916145630801217i
Reprodução Freepik
valorização imobiliária
Aprimora mais
e88191cb33acbe843d70ee6b60f835c9
Água
fruticultura
Prédios em João Pessoa 2
IBS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }