
O estudo do FGV Ibre sobre os efeitos regionais do acordo Mercosul–União Europeia é direto no diagnóstico: abre-se oportunidades, mas o resultado final tende a depender menos do corte de tarifas em si e mais da capacidade produtiva, financeira e institucional de cada região para cumprir requisitos, ganhar escala e segurar competitividade. É por isso que, embora o Centro-Oeste apareça como maior beneficiário em ganhos absolutos, o Nordeste entra como um beneficiário relevante em cadeias específicas, principalmente frutas, açúcar e tabaco, onde já existe base exportadora e demanda europeia, mas também gargalos que podem transformar potencial em frustração se não houver investimento coordenado, afirmam os pesquisadores da FGV.
“O acordo pode ampliar acesso e diversificar compradores, porém, Europa não é só tarifa, é padrão. E o padrão europeu, no agro, é rastreabilidade, conformidade sanitária e consistência logística (qualidade chegando igual toda semana, com documentação impecável)”, explica Thiago de Araújo Freitas, um dos responsáveis pela pesquisa.
Fruticultura de exportação: o ganho rápido se o padrão estiver na fazenda e no porto
Entre as cadeias citadas como promissoras para o Nordeste, frutas costumam ser as que respondem mais rapidamente, porque boa parte do ajuste não é uma nova planta industrial, mas governança de qualidade, certificação, rastreabilidade e logística fria.
A Abrafrutas aponta que, para a Europa, as exportações brasileiras de frutas como manga, melão, limão, melancia, uva e mamão cresceram em 2025 em valor e volume, sinal de demanda e espaço para consolidar mercado. No lado europeu, um dos pontos críticos é resíduo de defensivos; UE define Limites Máximos de Resíduos (MRLs) e atualiza regras constantemente, com base em segurança alimentar.
“A fruticultura irrigada, como no Vale do São Francisco, Mossoró, litoral do Ceará e Rio Grande do Norte, é forte, mas o risco reputacional também é alto. Situações como uma sequência de cargas barradas por resíduo acima do permitido, falhas de documentação ou quebra de cadeia fria tendem a fechar as portas rapidamente, e a reabertura custa ainda mais caro”, afirma Freitas.
Açúcar e (em parte) etanol: oportunidade existe, mas depende de quota, custo logístico e eficiência
No açúcar, o acordo traz parâmetros objetivos: o governo brasileiro e entidades do agro detalham cotas e cronogramas, incluindo quota de açúcar com tarifa zero na entrada em vigor (180 mil toneladas para o Mercosul, segundo o factsheet oficial).
Para o Nordeste, isso conversa com a base sucroenergética de estados como Pernambuco e Alagoas, mas a captura do ganho não é automática, segundo o relatório. A UE opera com regimes de quotas e tarifas e o prêmio pode ficar com quem entrega com menor custo total.

“Açúcar é volume, tem margem apertada e dependência do porto. Se o Nordeste quer transformar quota em ganho efetivo, precisa reduzir custo logístico e elevar produtividade industrial e energética nas usinas, além de reforçar comprovações ambientais para compradores europeus (que, mesmo quando não são obrigação legal específica, viram exigência comercial)”, sinaliza o pesquisador.
O tabaco aparece como um dos itens com potencial, mas com cronogramas de desgravação e dinâmica competitiva própria (inclui disputa com origens que já têm preferências). Reportagens setoriais destacam que a redução tarifária pode melhorar a posição do produto brasileiro, porém isso vem junto de exigências crescentes de rastreabilidade e compliance para cadeias sensíveis.
Quem plantar, vai colher
O estudo do FGV Ibre sugere que os ganhos regionais dependem menos do acesso ao mercado e mais da capacidade local de adaptação e inserção externa, caso contrário, acordos comerciais tendem a reforçar especializações existentes sem elevar o valor capturado. No caso do Nordeste, isso significa que a competitividade passa por investimentos estruturantes que permitam transformar potencial exportador em vantagem duradoura, e não apenas em maior volume de vendas.
Esses investimentos se concentram na melhoria da infraestrutura logística e da cadeia fria, com modernização de terminais, maior eficiência nos embarques de produtos perecíveis, integração modal quando for necessário e redução de custos e tempos nos portos. Ao mesmo tempo, exigem o fortalecimento do sistema sanitário e de conformidade do campo ao embarque, com laboratórios, monitoramento de resíduos, padronização em packing houses e capacitação focada em rastreabilidade, auditorias e padrões internacionais.
Há ainda a necessidade de avançar na rastreabilidade digital e na governança de dados, registrando origem, insumos e rotas para reduzir riscos comerciais e ampliar o poder de barganha dos produtores. Na outra ponta, a agregação de valor não precisa passar por grandes fábricas no curto prazo, mas por etapas como classificação, calibração, processamento mínimo, embalagens, certificações e construção de marcas ou indicações geográficas, formas de industrialização leve que o mercado europeu tende a remunerar quando a qualidade é consistente Apesar do acordo ser desafiador, o Brasil já possui empresas e parceiros capazes de dar conta do recado, garantem os especialistas.