O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que deve criar a maior zona de livre comércio do mundo, tende a reduzir ou eliminar tarifas para uma ampla gama de produtos, com impacto direto sobre preços e fluxos comerciais no Brasil. Entre os efeitos mais imediatos está a possibilidade de queda nos preços de itens importados da Europa, como azeite, vinhos, champanhe e chocolates, beneficiando o consumidor final. No Ceará, porém, o cenário combina oportunidades relevantes com desafios para a indústria e o comércio locais.
Segundo o presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Wandemberg Almeida, produtos europeus consolidados podem chegar ao Estado com maior competitividade. “Pode haver um impacto positivo para o consumidor, com barateamento de vinhos e champanhes, mas isso também pode representar um obstáculo para o mercado interno, que vinha buscando espaço nesse segmento”, avalia em entrevista ao Diário do Nordeste. No curto prazo, ele aponta risco de oscilação de preços e maior pressão sobre a indústria nacional de bebidas alcoólicas.
Do ponto de vista das exportações, o Ceará tende a se beneficiar. Atualmente, os Estados Unidos são o principal destino das vendas externas do Estado, respondendo por 45,5% do total em 2025, enquanto a China lidera as importações. Dentro da União Europeia, a Itália é o maior destino das exportações cearenses, e a Alemanha, a principal origem das importações. Com o acordo, o acesso a um mercado de mais de 700 milhões de consumidores pode ampliar oportunidades para produtos nos quais o Estado já é competitivo, como aço, minério de ferro, pescados e frutas.
A redução gradual das tarifas é o principal trunfo do tratado. Além de favorecer exportações, a medida diminui custos de produção de empresas que utilizam insumos europeus, o que pode atrair investimentos, gerar empregos e elevar a renda.
O principal ponto de atenção, segundo os especialistas, está na concorrência industrial. A elevada competitividade das manufaturas europeias tende a pressionar setores locais, exigindo reorganização produtiva, ganhos de eficiência e maior sofisticação tecnológica. No comércio, o impacto deve ocorrer de forma gradual.
Nesse contexto, ganham relevância fatores como gestão, experiência de compra, atendimento e relacionamento com o cliente. Para o Ceará, o acordo Mercosul–UE se apresenta, assim, como uma janela de oportunidades, desde que acompanhado de estratégias para fortalecer a competitividade e proteger setores mais sensíveis à abertura comercial.
