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31 de março de 2026 06:04

Agro cria empregos em ritmo recorde, mas avanço das dívidas revela fragilidade estrutural no Nordeste

Agro cria empregos em ritmo recorde, mas avanço das dívidas revela fragilidade estrutural no Nordeste

Setor reúne 28,6 milhões de trabalhadores, amplia crédito a R$ 400,5 bilhões e registra alta de 111,5% nas recuperações judiciais, expondo desigualdade de renda, informalidade e risco financeiro concentrados na região
Foto: Reprodução/Internet

O agronegócio brasileiro chegou a 28,6 milhões de trabalhadores no terceiro trimestre de 2025, maior nível da série histórica, com crescimento de 2% em relação ao mesmo período do ano anterior, o equivalente à incorporação de mais de 568 mil pessoas ao setor.

No mesmo intervalo, os pedidos de recuperação judicial por produtores rurais cresceram 111,5%, enquanto as renegociações extrajudiciais avançaram cerca de 45% no último biênio. A leitura isolada desses dados poderia sugerir trajetórias desconectadas. Quando observados em conjunto, indicam uma dinâmica mais complexa, em que o crescimento do emprego ocorre simultaneamente à deterioração das condições financeiras de parte relevante dos produtores.

No Nordeste, onde se concentram cerca de 8,2 milhões desses trabalhadores, esse descompasso se intensifica. A renda média de R$ 1.850 representa uma defasagem de aproximadamente 40% em relação à média nacional de R$ 3.100, enquanto a informalidade pode atingir 78% em determinadas microrregiões.

A simultaneidade entre expansão da ocupação e avanço da insolvência sugere que o crescimento recente do agronegócio não se apoia exclusivamente em ganhos de produtividade ou aumento de renda, mas também na ampliação da base de trabalho e no uso intensivo de crédito. O setor cresce, mas o faz sob maior exposição a risco, o que altera a qualidade desse crescimento. Em vez de um ciclo linear de prosperidade, o que se observa é um processo de expansão com tensões acumuladas, especialmente em regiões onde os mecanismos de proteção econômica são mais frágeis.

Para onde anda a empregabilidade?

No Nordeste, apenas cerca de 22% dos trabalhadores do agronegócio possuem vínculo formal, frente a aproximadamente 40% no conjunto do país. Isso significa que, a cada dez trabalhadores rurais na região, quase oito estão inseridos em relações de trabalho sem proteção previdenciária, sem seguro-desemprego e com baixa estabilidade de renda. Esse padrão altera a leitura do crescimento. O aumento da ocupação passa a refletir mais a absorção de mão de obra em condições precárias do que a consolidação de empregos estruturados.

A diferença de rendimento reforça essa interpretação. A renda mais baixa, combinada à informalidade elevada, limita a resiliência econômica dos trabalhadores e das famílias rurais, tornando-os mais vulneráveis a oscilações de preço, clima ou crédito. O crescimento do emprego, nesse contexto, não elimina a desigualdade estrutural. Em muitos casos, a reproduz em escala maior.

Esse padrão sugere que a expansão do agronegócio está sendo sustentada por uma base mais ampla, porém mais frágil. O aumento da ocupação não implica necessariamente em melhoria das condições de vida, mas em maior participação de trabalhadores em atividades de baixa remuneração e alta instabilidade. O setor cresce em volume de pessoas, mas não necessariamente em qualidade de inserção econômica.

Crédito que aperta

A ampliação do crédito rural é um dos principais vetores dessa expansão e, ao mesmo tempo, um dos principais fatores de pressão. O Plano Safra 2024/2025 destinou R$ 400,5 bilhões ao setor, um aumento expressivo em relação aos ciclos anteriores e o maior volume já registrado. A expansão do crédito ampliou a capacidade de investimento e produção, mas também elevou o grau de alavancagem dos produtores em um cenário de juros mais elevados e margens mais comprimidas.

As taxas de financiamento variam de 3% a 6% ao ano para pequenos produtores e alcançam entre 8% e 12,5% para médios e grandes. Em um contexto de queda nos preços de commodities e aumento nos custos de produção, o serviço da dívida passa a consumir parcela crescente da renda operacional. Em algumas estimativas de mercado, o custo financeiro pode representar até 20% da margem bruta do produtor médio, o que reduz significativamente sua capacidade de absorver perdas ou reinvestir na produção.

Os dados oficiais de inadimplência, que variam entre 1,8% e 2,5%, indicam estabilidade apenas aparente. Esse percentual é influenciado por mecanismos de prorrogação de dívidas e renegociações incentivadas, que evitam a classificação formal do crédito como inadimplente. O aumento de 45% nas recuperações extrajudiciais reforça essa leitura ao indicar que parte relevante da pressão financeira está sendo administrada fora dos canais tradicionais de registro.

Quando observadas regiões de expansão mais recente, como áreas de fronteira agrícola, estimativas apontam que a inadimplência efetiva pode superar 8%. Esse dado sugere que o crescimento do crédito ocorreu em ritmo superior ao crescimento da capacidade de pagamento, criando um descompasso que se traduz em aumento de risco financeiro ao longo do tempo.

Fora do radar

A dinâmica do crédito se torna ainda mais desigual quando considerada a exclusão financeira de parte significativa dos produtores. Cerca de 30% dos agricultores do semiárido operam fora do sistema bancário tradicional, recorrendo a crédito informal ou intermediários comerciais. Essas operações costumam ter custos mais elevados e menor previsibilidade, ampliando a vulnerabilidade econômica desses produtores.

A ausência desse grupo nas estatísticas formais gera uma distorção relevante na leitura do setor. Os dados de inadimplência e recuperação judicial capturam predominantemente produtores integrados ao sistema financeiro. Já os pequenos agricultores excluídos desse sistema não aparecem nos indicadores, mesmo quando enfrentam dificuldades severas.

Nesses casos, a insolvência não se traduz em processos judiciais ou renegociações estruturadas. Ela se manifesta por meio da redução da produção, da venda de ativos ou do abandono da atividade. Trata-se de uma retração econômica silenciosa, que não deixa registros institucionais, mas impacta diretamente a dinâmica produtiva local.

A elevada informalidade no mercado de trabalho amplia esse efeito. Em regiões onde até 78% dos trabalhadores estão fora do sistema formal, os mecanismos tradicionais de mensuração deixam de capturar a totalidade da crise. O resultado é um cenário em que os indicadores agregados sugerem estabilidade, enquanto sinais de fragilidade se acumulam nas margens do sistema produtivo.

A análise integrada dos dados revela um padrão consistente. O crescimento do emprego ocorre de forma concentrada em segmentos de baixa renda e alta informalidade. A expansão do crédito amplia a produção, mas também o endividamento. O aumento das recuperações judiciais indica dificuldade crescente de sustentar esse modelo.

No Nordeste, os vetores narrados ao decorrer deste texto se combinam de forma mais intensa. A região concentra uma parcela expressiva da força de trabalho do agronegócio, mas permanece com participação limitada nos ganhos econômicos do setor. A base se expande, o crédito cresce e a produção avança. Ainda assim, a renda permanece comprimida e o risco financeiro se amplia. O crescimento ocorre, mas revela, ao mesmo tempo, os limites da sua própria sustentação.

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