
Na Bahia, dois modelos distintos e complementares de produção de cacau apontam para o reposicionamento do Brasil no mercado global da commodity: de um lado, a maior fazenda de cacau do mundo, de outro, a agricultura familiar com apoio tecnológico e acesso a mudas melhoradas.
De um lado está o fazendeiro Moisés Schmidt, conhecido como “rei do cacau”, que está implantando uma fazenda de cacau em escala industrial em uma área maior que a ilha de Manhattan, em uma região baiana até então não reconhecida pela produção da amêndoa.
Projeto bilionário aposta em escala e alta tecnologia
O investimento de US$300 milhões visa cultivar cacaueiros de alto rendimento, com 100% de irrigação e fertilização controlada. Segundo Schmidt, serão plantadas 1.600 árvores por hectare — número cinco vezes maior que o observado em fazendas convencionais.
“Acredito que o Brasil vai se tornar uma importante região para o cacau no mundo”, afirmou Schmidt à Reuters.
Com o projeto, Schmidt estima que o Brasil pode alcançar até 500 mil hectares de cacau de alta produtividade nos próximos dez anos, o que representaria uma produção de 1,6 milhão de toneladas anuais. Hoje, o Brasil produz cerca de 200 mil toneladas, frente às 2 milhões de toneladas da Costa do Marfim e às 700 mil de Gana, os dois maiores produtores globais.
A crise de oferta global, causada por doenças nas plantações, envelhecimento das lavouras e mudanças climáticas, elevou os preços da tonelada de cacau a um recorde de US$12.931 em dezembro de 2024. Embora tenha recuado para US$8.200, o valor continua muito acima da média histórica, impulsionando o interesse de grandes grupos agrícolas.
Agricultura familiar busca produtividade com apoio das biofábricas
No outro extremo, a agricultura familiar aposta em uma “revolução silenciosa” para melhorar a produtividade com tecnologia acessível. A Biofábrica da Bahia tem fornecido mudas geneticamente melhoradas, mais resistentes a doenças e adaptadas ao clima local.
Em nota exclusiva ao Investindo Por Aí, a Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb) destaca: “A biofábrica é um equipamento fundamental para o desenvolvimento da cacauicultura na Bahia, sobretudo a familiar, porque o fornecimento de muda é um desafio enorme que a gente tem”.
O uso dessas mudas possibilita o adensamento das lavouras — que hoje têm baixo número de plantas por hectare — além de viabilizar a expansão para novas áreas produtivas.
Segundo a Faeb, o fornecimento de mudas de qualidade hoje vem de três fontes: a própria Biofábrica, viveiristas privados e uma grande processadora de cacau que também comercializa mudas subsidiadas. “Hoje, o fornecimento de muda na região, seja para todo tipo de produtor, mas sobretudo para o pequeno e para o familiar, vem da biofábrica, de viveiristas particulares e de uma grande moageira”, informou a entidade.
Na região oeste da Bahia, por exemplo, um viveirista de grande porte atua como principal fornecedor, atendendo também produtores de outros estados.
Pequenos produtores sustentam a base da produção baiana
A Faeb ressalta que a cacauicultura é majoritariamente formada por pequenos e médios produtores, com uso intensivo de mão de obra e potencial de alta rentabilidade.
“É uma cultura que a pessoa não precisa de grandes extensões diárias para ser viável. Agora, o que ela precisa é de uma boa produtividade”, afirma a entidade.
Mesmo com propriedades de apenas cinco ou dez hectares, a viabilidade econômica é alcançável desde que o produtor adote o pacote tecnológico completo, investindo em insumos e práticas modernas.
“O que todo mundo tem que ter, inclusive da agricultura familiar, é aplicar o pacote tecnológico, fazer uso intensivo de capital para isso, porque com isso você consegue altas produtividades”.