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9 de fevereiro de 2026 14:52

Bahia se consolida como destino global para observadores de aves e atrai ecoturismo de alto valor agregado

Bahia se consolida como destino global para observadores de aves e atrai ecoturismo de alto valor agregado

Roteiro integrado abrange mais de 50 municípios em 12 zonas turísticas e atrai visitantes nacionais e estrangeiros
Tucano do Bico Verde | Foto: Susana e Wagner Coppede

A Bahia tem se consolidado como um dos destinos mais relevantes para o turismo de observação de aves, também conhecido como birdwatching, atraindo cada vez mais visitantes nacionais e estrangeiros interessados na rica biodiversidade do estado. Com ambientes que variam entre Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga, o território baiano abriga aproximadamente 830 espécies de aves, incluindo algumas endêmicas e ameaçadas de extinção. A prática, além de promover o turismo sustentável, fortalece a conservação ambiental e impulsiona a economia local com alto valor agregado.

Entre os principais destinos do estado para observadores de aves, destacam-se a Chapada Diamantina — com especial atenção à região de Lençóis —, a Reserva Sapiranga, próxima à Praia do Forte, e as Florestas do Aruá, que se conectam com as reservas de Camurujipe e Sapiranga. Segundo o secretário estadual de Turismo, Maurício Bacelar, “mesmo com a diversidade de atrativos que a Bahia oferece, o Governo do Estado investe na diversificação de segmentos turísticos e a observação de aves é uma das novidades. Estruturamos o segmento e, em maio de 2024, lançamos um roteiro integrado, pioneiro no Brasil, que contempla mais de 50 municípios baianos em 12 zonas turísticas, que abrigam centenas de espécies de aves, sendo oito endêmicas, o que nos dá projeção internacional no segmento”.

A Secretaria de Turismo do Estado da Bahia (Setur-BA) vem promovendo esse nicho em 12 das 13 zonas turísticas do estado. Destinos como os Caminhos do Sertão e Lagos e Cânions do São Francisco têm ganhado destaque, especialmente por abrigarem a emblemática arara-azul-de-lear. Canudos, por sua vez, tornou-se referência nacional graças à mesma espécie, símbolo do esforço local em integrar conservação e ecoturismo.

Osmar Barreto Borges, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e membro do Clube de Observadores de Aves da Bahia desde 1992, reforça que “as unidades de conservação mais destacadas como destino de birdwatching na Bahia são o Parque Nacional de Boa Nova e o Refúgio de Vida Silvestre de Boa Nova. Boa Nova é o município com maior riqueza de aves na Bahia”. Ele ainda cita outros espaços relevantes, como o Parque Nacional da Chapada Diamantina, o Parque Nacional Pau Brasil, o Parque Nacional do Descobrimento e a Estação Ecológica Raso da Catarina, onde a observação é realizada em uma reserva vizinha da ONG Biodiversitas.

A estrutura para atender ao público observador de aves ainda é restrita, mas vem sendo fortalecida por iniciativas conjuntas entre poder público, ONGs e comunidades locais. “O ICMBio apoia fortemente o desenvolvimento da observação de aves dentro das unidades de conservação. Em Boa Nova, por exemplo, o Instituto apoia o festival AveNova, que vai para sua terceira edição este ano”, explicou Borges. Ele destacou também o Lajedo dos Beija-flores, uma estrutura particular voltada à observação dentro do Refúgio de Vida Silvestre de Boa Nova.

Osmar Barreto Borges, analista ambiental do ICMBio desde 2005 (inicialmente era IBAMA) e membro do Clube de Observadores de Aves da Bahia desde 1992

Embora não existam levantamentos recentes sobre o perfil e o fluxo desses visitantes nas unidades federais, há percepção de crescimento contínuo. “Infelizmente não há estimativas numéricas. Esse perfil de visitante demanda basicamente a entrada na unidade antes das 6 da manhã, lista de espécies local e trilhas de acesso a diversos ambientes. Apenas estruturas básicas já atendem à demanda”, afirmou. Diante da ausência de dados concretos, o Ministério do Turismo, em parceria com a UNESCO, lançou em abril de 2024 um edital para a elaboração de um diagnóstico sobre o Turismo de Observação de Aves no Brasil.

Do ponto de vista ambiental, a prática é vista como aliada na conservação da biodiversidade. “O ICMBio avalia positivamente o impacto da observação de aves na conservação da biodiversidade nas unidades sob sua gestão. Essa atividade tem sido vista como uma aliada na preservação ambiental, pois cria laços de pertencimento e apoio às iniciativas de conservação das espécies, com destaque para aquelas mais raras e ameaçadas de extinção”, explicou o analista.

Dentre as espécies mais procuradas por turistas e pesquisadores, destacam-se a arara-azul-de-lear, ararinha-azul, beija-flor-de-gravata-vermelha, papa-taoca-da-bahia, macuquinho-baiano, tapaculo-preto-baiano, gravatazeiro, rabo-branco-de-margarette e o crejoá. Borges ressalta que “algumas espécies em risco têm sido foco de ações conjuntas de conservação com a sociedade civil, a exemplo da arara-azul-de-lear, que conta com um programa de conservação há 40 anos com participação ativa da população local”.

O ICMBio também se articula com universidades e centros de pesquisa para ampliar os esforços de monitoramento e promover a ciência cidadã. Um dos principais instrumentos é o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (CEMAVE), que lidera os Planos de Ação para a Conservação das Aves, organizados por bioma. Esses planos contam com o apoio direto de observadores amadores e profissionais que compartilham registros valiosos para os estudos científicos. “O ICMBio mantém uma página específica para estimular a observação de aves que reúne informações para quem pratica ou se interessa pelo birdwatching”, acrescentou Borges.

Exemplar do Papa-formiga-do-Sincorá | Foto: Thalisson Ribeiro

A atuação do Instituto vai além da preservação ambiental: há também um esforço contínuo para envolver comunidades locais, promover capacitações e fortalecer iniciativas de turismo comunitário. “A atividade de birdwatching tem envolvido comunidades do entorno das UCs. Um exemplo é o programa Vem Passarinhas Cumuru, realizado com a comunidade indígena Pataxó da Aldeia Gurita no município de Prado, em parceria com o Parque Nacional do Descobrimento. Também promovemos curso de formação específico para condutores de visitantes no Parque Nacional de Boa Nova”.

O Clube de Observadores de Aves da Bahia (COA-BA), fundado em 1985, tem sido um pilar na consolidação do estado como referência em observação de aves. “A Bahia já tem uma forte tradição na prática da observação de aves. O Clube está ativo há 40 anos, sendo um dos mais antigos do país com funcionamento contínuo. Isso ajudou a desenvolver todo este movimento no estado”, afirma Borges.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA) também tem adotado medidas para ordenar o ecoturismo em áreas sensíveis. Entre elas, estão a elaboração de Planos de Uso Público para parques estaduais, a publicação de normas regulatórias e o desenvolvimento de diretrizes específicas para atividades como o camping, o uso de drones e a observação de aves. “Outro instrumento importante é o Rol de Oportunidades de Visitação em Unidades de Conservação (ROVUC), já aplicado no Parque Estadual das Sete Passagens e no Parque de Pituaçu”, destacou o órgão.

Exemplar do beija-flor-de-gravata-vermelha | Foto: Thalisson Ribeiro

Apesar das limitações de pessoal e recursos, o ICMBio está disposto a expandir a infraestrutura voltada ao birdwatching na Bahia. “Apoiamos iniciativas de ONGs e operadores turísticos locais para implantação de estruturas dentro e no entorno das unidades de conservação, muitas vezes com financiamento proveniente de editais internacionais”, afirmou Borges.

Ao final, ele pontua que “a observação de aves não é um mero segmento do turismo, é um estilo de vida de seus praticantes. É como o surf. A diferença é que tem aves em todos os lugares e dá para começar a observar só a olho nu. Muitas crianças se interessam. É divertido e educativo”.

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