Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
31 de março de 2026 09:51

Bienais literárias impulsionam cultura, economia e apontam para mercado em transformação

Bienais literárias impulsionam cultura, economia e apontam para mercado em transformação

Expansão dos eventos literários na região mostra a importância de unir políticas públicas a produções independentes
Bienal Alagoas atraiu o público com programação diversa | Foto: Renner Boldrino

O Nordeste tem se consolidado como um dos principais polos literários do Brasil. Bienais e feiras de leitura em estados como Alagoas, Pernambuco, Ceará, Bahia e Paraíba revelam um fenômeno cultural com impacto econômico claro: esses eventos não apenas fortalecem o mercado editorial local, mas também tornam mais dinâmico o ecossistema literário de todo o país.

A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, realizada entre 31 de outubro e 9 de novembro em Maceió, é um exemplo emblemático desse movimento. Organizada pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), com apoio do governo do estado, Sebrae, Fapeal, Sesc-Fecomércio, Senac, IFAL e Prefeitura de Maceió, a Bienal teve entrada gratuita e programação dedicada à diversidade cultural. O tema desta edição,  “Brasil e África ligados culturalmente nas suas raízes e ritos”, celebrou a conexão afro-brasileira, homenageando os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e promovendo um diálogo intercultural por meio de oficinas, palestras, espetáculos, seminários, contação de histórias e rodas de conversa.

Para Eraldo Ferraz, curador e coordenador da Bienal, a curadoria é feita de forma coletiva, por meio do Conselho Editorial da Editora da Ufal (Edufal), composto por docentes e técnicos da universidade. “A curadoria da Bienal de Alagoas é feita a partir das discussões realizadas pelo Conselho Editorial da Editora da UFAL (EDUFAL). Fazemos várias reuniões para discutirmos o tema, o país a ser homenageado, bem como os convidados nacionais e internacionais. Além do tema, sempre homenageamos uma personalidade da literatura local. Frisamos que toda a organização e execução é feita com docentes e técnicos-administrativos da UFAL.”

O evento também deu lugar amplo para a produção independente. Mais de 340 escritores nordestinos foram inscritos por meio de chamada pública para lançamentos, vindos de todos os estados da região. Além disso, editoras locais ganharam visibilidade. “Destinamos um espaço próprio para os autores independentes lançarem seus livros durante toda a Bienal. Abrimos uma Chamada Pública e obtivemos mais de 340 escritores inscritos, vindos de todos os Estados do Nordeste. Também, tivemos uma editora Performance, da cidade de Arapiraca, com estande próprio e que lançou mais de 120 livros de literatura de autores de várias regiões de Alagoas.”, afirma Ferraz.

O impacto local foi reforçado pela diversidade econômica do evento. Segundo ele, “tivemos sucesso de vendas em todas as áreas. Todos os estandes tiveram vendas acima do esperado. Tendo sido realizado num período de pleno sol, os turistas tiveram uma atividade noturna para frequentarem a Bienal, além do turismo das praias. O comércio foi bastante diversificado porque além dos livros tivemos gastronomia bem diversificada, inclusive com uma área dedicada aos moradores das grotas que tiveram uma formação de empreendedorismo e puderam comercializar seus produtos durante o evento. O sucesso de vendas foi tão grande que os participantes dos estandes já deixaram reservados para a próxima edição de 2027.”

Esse tipo de mobilização requer financiamento, e Ferraz não esconde a importância do apoio público. “Nesta edição de 2025 tivemos o grande apoio do governo do estado de Alagoas, que, acreditando ser o maior evento cultural e literário de Alagoas, contribuiu significativamente com recursos financeiros para a realização da Bienal. Também, tivemos o apoio de entidades e órgãos públicos, sem o qual seria impossível a realização do evento, que é a única realizada por uma instituição pública federal e totalmente gratuita.”

Eraldo Ferraz destacou que a 11ª edição do evento teve sucesso de vendas | Foto: Marcelo Alves / Ascom Secdef

Panorama nacional: mercado do livro em transformação

Enquanto eventos literários como a Bienal de Alagoas florescem, o mercado editorial brasileiro enfrenta paradoxo: crescimento nominal, mas desafios reais. Segundo a Pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro de 2024, organizada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro) e pelo SNEL, com dados da Nielsen BookData, as vendas ao mercado cresceram 3,7% em termos nominais, alcançando R$ 4,2 bilhões. No entanto, descontada a inflação (IPCA de 4,83%), isso representa uma queda real de 1,1%.

No volume de títulos, contudo, há sinais de diversificação. A pesquisa de 2024 registrou 44 mil títulos produzidos, sendo 23% lançamentos, e um total de 366 milhões de exemplares movimentados. Essa diversificação se reflete também nos gêneros vendidos: pela primeira vez a pesquisa divulgou dados por categoria — como Não Ficção Adulto (28,5% do faturamento) e livros religiosos, que lideraram em exemplares vendidos (29,5%). 

Um dos destaques mais animadores é o crescimento do digital. O segmento de conteúdo digital subiu 21,6% em faturamento em 2024 em termos nominais, segundo a mesma pesquisa. Em valor real, o crescimento foi de 16%. Apesar disso, os conteúdos digitais ainda representam apenas 9% do faturamento total das editoras. Nesse segmento, a maior parte da receita vem de bibliotecas virtuais, que responderam por 44% da receita digital e cresceram 47,6% no período, com uma participação crescente dos sites das próprias editoras e marketplaces.

Para Sevani Matos, presidente da CBL, o crescimento das bienais literárias nordestinas dialoga diretamente com esses números e oferece uma oportunidade estratégica para reverter tendências negativas. “O crescimento das feiras e bienais do Nordeste tem sido decisivo para a descentralização do circuito literário brasileiro. Esses eventos ampliam público, fortalecem a cadeia do livro e criam novos polos de leitura e de produção cultural no país. Os investimentos regionais em cultura e políticas de incentivo à leitura já aparecem nos indicadores nacionais, com maior formação de leitores, mais circulação de autores e editoras e um mercado mais aquecido. Além disso, as feiras nordestinas têm dado grande visibilidade às editoras independentes e aos coletivos literários da região, enriquecendo a bibliodiversidade brasileira e mostrando a força de um Brasil literário que vai muito além do eixo Sul-Sudeste.”

No plano de mercado, Jefferson Marques, superintendente comercial da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), vê nas bienais do Nordeste um cenário de renovação: “É um momento de renovação, com muita produção independente. A cadeia editorial segue forte com muitos profissionais envolvidos: diagramadores, gráficos, revisores, designers gráficos e novos autores com muita qualidade.”

A força das Bienais nordestinas

A Bienal de Alagoas não está isolada. Eventos literários como a Bienal de Pernambuco, do Ceará e da Paraíba, a Feira Literária de Salvador (FLIPELÔ) e a Fliporto (Olinda) reforçam um circuito cultural integrado. Esses encontros têm o poder de atrair turismo, movimentar a economia local e oferecer plataformas para editoras regionais e autores independentes ganharem destaque nacional.

No caso de Alagoas, a Bienal gerou turismo noturno durante os dias do evento, estimulou empreendedores locais a venderem seus produtos e atraiu expositores que já garantiram presença para a próxima edição, em 2027. O evento é também uma aposta estratégica para o futuro: mais leitores, mais produção literária e uma cadeia do livro mais robusta e conectada com a identidade cultural da região.

Mesmo em um momento em que o mercado editorial brasileiro enfrenta retrações reais duradouras, o crescimento das feiras literárias no Nordeste oferece um traço de esperança: há uma via concreta de fomento à leitura, à cultura e à economia por meio da descentralização. E essa via conecta o Brasil ao seu próprio passado, valorizando heranças africanas e nordestinas, enquanto projeta um horizonte diverso, inclusivo e produtivo para a literatura nacional.

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

Ufal 1
Agro
Porto deItaqui
IMG-20231016-WA0037
marinha mercante
Justiça do trabalho
Documento mapa
China e Sudene
Expo sabores
Paulo dantas 2

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }