Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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9 de fevereiro de 2026 13:39

Bioeconomia e a rota para um futuro sustentável no Nordeste

Bioeconomia e a rota para um futuro sustentável no Nordeste

Plano de Transformação Ecológica do Nordeste articula bioeconomia, agricultura familiar e inovação para atrair mais de R$ 128 bilhões em demandas de investimento, com foco na Caatinga, bioativos e cadeias produtivas sustentáveis
Glauber Piva, do Consórcio Nordeste, em intervenção no painel Biocombustíveis e Agricultura Regenerativa, no evento Diálogos do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia | Foto: Consórcio Nordeste.

A bioeconomia tem ganhado centralidade na agenda de desenvolvimento do Nordeste brasileiro. Mais do que uma política setorial, o tema passou a orientar decisões econômicas, ambientais e produtivas da região. O Relatório Anual de Gestão 2025 do Consórcio Nordeste aponta a bioeconomia como um dos pilares para reduzir desigualdades históricas, fortalecer cadeias produtivas locais e ampliar a participação do Nordeste no mercado nacional e internacional.

Esse movimento se materializa no Plano de Transformação Ecológica do Nordeste (PTE-NE), iniciativa que conecta sociobiodiversidade, ciência, tecnologia e inclusão produtiva. A proposta é transformar ativos ambientais — como a Caatinga, os manguezais e o litoral — em vetores de geração de renda, inovação e atração de investimentos.

Em entrevista exclusiva ao Investindo Por Aí, a pesquisadora e chefe de transferência de tecnologia da Embrapa Maranhão, Guilhermina Cayres, considera que a bioeconomia representa um potencial vetor de desenvolvimento do Nordeste. “A ciência se mostra como uma aliada da sustentabilidade das práticas tradicionais para uma região que, historicamente, supera desafios associados à pobreza, à miséria, à falta de direitos básicos”, afirma. 

Plano de Transformação Ecológica posiciona o Nordeste na economia verde

Apresentado na COP 30, o PTE-NE posiciona o Nordeste como protagonista da economia verde no país. O plano articula bioeconomia, transição energética, economia circular e neoindustrialização, com foco na criação de cadeias produtivas sustentáveis de base territorial.

Em intervenção no painel Biocombustíveis e Agricultura Regenerativa, no evento Diálogos do Plano Nacional de Desenvolvimento da Bioeconomia, Glauber Piva ressaltou que, para o Consórcio Nordeste, a bioeconomia extrapola a lógica tradicional de mercado.

“A bioeconomia é mais que apenas uma cadeia produtiva, é uma estratégia territorial que inclui a valorização da Caatinga, do semiárido, dos manguezais e do litoral como patrimônios vivos, sendo um caminho para reduzir dependências externas, criar empregos de base territorial e valorizar saberes tradicionais, promovendo, ao mesmo tempo, a inovação científica”, afirmou.

Segundo Piva, o plano regional está alinhado à agenda nacional e foi estruturado para traduzir diretrizes gerais em projetos adaptados à realidade econômica, social e ambiental do Nordeste.

Caatinga como ativo econômico e estratégico

A valorização da Caatinga ocupa papel central no PTE-NE. Único bioma exclusivamente brasileiro, ela concentra alto potencial para o desenvolvimento de bioativos, bioinsumos, alimentos adaptados ao semiárido e soluções baseadas na natureza.

“A bioeconomia é um dos eixos centrais do Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica. Apostamos no potencial da nossa Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro e lar de milhões de pessoas, para a gerar inovação em bioeconomia, com a construção de cadeias produtivas locais que tragam desenvolvimento sustentável e, especialmente, justiça social em nosso território”, destacou Piva.

Além da geração de renda, o plano aposta na recuperação e preservação do bioma como estratégia de resiliência climática. A Caatinga apresenta alta eficiência na retenção de carbono no solo, fator relevante para projetos de restauração ambiental e para o mercado de créditos de carbono.

Bioativos, agroecologia e agricultura familiar no centro da estratégia

O estímulo à produção de bioativos e bioinsumos voltados aos setores farmacêutico, cosmético e agrícola integra a estratégia de diversificação econômica. Essas cadeias são estruturadas a partir da agricultura familiar, cooperativas e da economia popular solidária.

O PTE-NE também prevê ações de mecanização agrícola adaptada, ampliação da agroecologia e fortalecimento de sistemas agroalimentares resilientes, conectando produção sustentável, segurança alimentar e inclusão produtiva.

Nesse contexto, Guilhermina avalia que o mercado tem aberto espaço para produtos associados à sociobiodiversidade. A pesquisadora comenta que o crescimento atual de nichos de mercado que valorizam produtos da sociobiodiversidade oferece ao Nordeste uma boa oportunidade para a ascensão de ativos com forte interação com as especificidades da região.

Apesar do potencial, ela alerta para entraves estruturais que limitam a expansão desses negócios. “Contudo, apesar desse potencial, os empreendimentos não conseguem atender às demandas, seja pelas dificuldades em manter uma escala de produção sistemática, seja pela inexistência de padrões dos produtos de acordo com a legislação vigente, em decorrência de problemas não tecnológicos que se relacionam à atividade produtiva”.

De acordo com a pesquisadora, na busca pela melhoria da renda das comunidades tradicionais e fortalecer os produtos da sociobiodiversidade, a definição de boas práticas de produção e comercialização, associados a certificações e/ou selos distintivos geram produtos em melhores condições para serem comercializados em escala contínua, e estimulam a organização coletiva para o processo produtivo.

Ela acrescenta que gerar soluções tecnológicas de boas práticas de processamento, visando estimular a melhoria da qualidade de produtos da sociobiodiversidade nordestina que sejam replicáveis para outros territórios ainda é um desafio. “Além do foco na eficiência dos procedimentos técnicos, existem empreendimentos que não atendem às exigências dos órgãos de fiscalização e controle sanitário”, diz.

Transformação ecológica como novo conceito de desenvolvimento

Durante a COP 30, Piva avaliou que o debate sobre transformação ecológica vai além da transição energética e propõe uma nova concepção de desenvolvimento para o país. Ele diferenciou os conceitos de “transição” e “transformação”, defendendo uma abordagem que considere os territórios, os recursos naturais e as dimensões sociais.

Ao abordar a desigualdade regional, Piva apresentou dados que evidenciam o desequilíbrio na alocação de recursos. “O Nordeste tem 27% da população, mas só tem 14% do PIB. E o mercado de créditos do Brasil, ano após ano, governo após governo, destina recursos para o Nordeste abaixo desses 14%. Portanto, a desigualdade regional, ela é aprofundada”.

Para enfrentar esse cenário, o Consórcio Nordeste provocou o BNDES a estabelecer um piso mínimo de destinação de crédito proporcional ao PIB regional. O resultado foi uma chamada pública de R$ 10 bilhões voltada a projetos privados alinhados ao PTE-NE, que recebeu propostas somando R$ 128,7 bilhões em demanda de crédito.

“Nós temos que falar em transformação ecológica reconhecendo os nossos potenciais”, disse Piva.

Rafael Fonteles e comitiva do Consórcio Nordeste na COP30 | Foto: Consórcio Nordeste.

Execução do plano depende de financiamento estruturado

O então presidente do Consórcio Nordeste e governador do Piauí, Rafael Fonteles, destacou que o desafio agora é garantir financiamento para executar o plano.

Ele reforçou que políticas nacionais precisam respeitar, no mínimo, a proporção de 14% de recursos destinados ao Nordeste, percentual já inferior à participação populacional da região. “Com menos que isso, teremos ampliação da desigualdade regional”.

Entre os projetos estratégicos previstos estão a criação do Fundo Caatinga, inspirado no Fundo Amazônia, e programas voltados à mecanização da agricultura familiar e à restauração ambiental.

Programas e mecanismos de fomento à bioeconomia e ao desenvolvimento sustentável

Guilhermina destaca que programas federais de fomento às atividades produtivas têm sido fundamentais para apoiar a formalização dos produtos das agroindústrias locais, a estruturação de unidades de processamento e o acesso ao e-commerce. Essas iniciativas fortalecem os circuitos curtos de comercialização e as redes de comercialização solidária, valorizando produtos com identidade social e cultural e evidenciando o potencial dos povos e dos territórios do Nordeste.

Nesse contexto, a consolidação da bioeconomia na região conta com um conjunto de programas públicos e parcerias institucionais que viabilizam crédito, impulsionam a pesquisa e atraem investimentos. O Investindo Por Aí selecionou alguns dos que mais se destacam:

Crédito e financiamento

  • Pronaf Bioeconomia: linha de crédito do Banco do Nordeste, operada com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), voltada à agricultura familiar com foco em bioeconomia, financiando tecnologias ambientais, práticas conservacionistas, sistemas agroflorestais, energias renováveis como solar, biomassa e eólica, além de biocombustíveis e produção sustentável da sociobiodiversidade, incluindo cultivos como dendê e seringueira, com prazos de carência e amortização estendidos.
  • Chamada Pública “Nova Indústria Brasil – Nordeste”: iniciativa federal que disponibiliza R$ 10 bilhões em crédito orientado à inovação e ao desenvolvimento sustentável, abrangendo áreas como bioeconomia, energias renováveis, hidrogênio verde, indústria automotiva e agrícola, data centers verdes e agricultura familiar, sendo implementada em parceria entre Banco do Nordeste, BNDES, Banco do Brasil, Caixa, Finep, Sudene e Consórcio Nordeste.

Programas de pesquisa, inovação e redes colaborativas

  • Rede Impacta Bioeconomia: programa fomentado pela Sudene em parceria com universidades, estruturado como cooperativas de pesquisa e inovação com aporte financeiro dedicado ao desenvolvimento de bioativos e bioinsumos aplicáveis à saúde e a setores produtivos, fortalecendo cadeias regionais de inovação por meio da articulação entre políticas públicas e produção científica.

Iniciativas de Fomento Financeiro e Investimentos Estruturados

 

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