
Enquanto a guerra comercial entre Estados Unidos e China impõe riscos ao comércio global, o Brasil aposta no fortalecimento de blocos multilaterais como o Mercosul e os BRICS, grupo de países com economias emergentes, e União Europeia, para garantir acesso a novos mercados e manter a competitividade das exportações.
Nesse campo de disputas políticas, os estados nordestinos, a partir do alinhamento do Consórcio Nordeste com governos e setor privado, podem sair na frente do restante do país. A economista-chefe da Lifetime Investimento, Marcela Kawauti, responsável por levantamento que mediu o grau de exposição dos estados brasileiros diante do “tarifaço”, afirma que agora “o mundo está fragmentado”, e que a capacidade de diálogo multilateral fará a diferença entre países e entre estados.
“A rede é mais forte quando há um consórcio de estados lidando com questões regulatórias, fazendo parcerias público-privada, melhorando questões de infraestrutura para receber os investimentos e mesmo ligando para um representante comercial de outro país. Mas é tão importante quanto que a iniciativa privada reúna uma cadeia produtiva e também negocie em bloco”, afirma Kawauti.
Os primeiros efeitos positivos
Um mês após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar seu tarifaço — e uma escalada retaliatória com a China — o Brasil começa a sentir efeitos positivos em setores como de calçados e de soja, com boas perspectivas ainda para as indústrias têxtil e moveleira.
Importadores americanos ampliaram a compra de calçados brasileiros e sondam empresários aqui para substituírem produtos chineses, de máquinas a alimentos e roupas. A China, por sua vez, está comprando mais soja do Brasil.
Principal produto da balança brasileira, o Brasil exportou 15,3 milhões de toneladas de soja em abril deste ano. Desse total, 71% tiveram como destino a China, com boa parte dessa soja vinda do Piauí. Em março, foram 14,7 milhões.
Trump começou a elevar as tarifas de importação em fevereiro, poucos dias após sua posse, com foco principalmente na China. Em abril, anunciou as chamadas tarifas recíprocas e criou uma taxa universal de 10%, que ele suspenderia depois por 90 dias. A exceção foram os produtos chineses, que ainda são tributados em até 145%.
Durante a segunda reunião do Grupo de Contato do BRICS sobre Questões Econômicas e Comerciais, realizada por videoconferência no início de abril, os países-membros expressaram fortes críticas à recente política de “tarifas recíprocas” adotada pelos Estados Unidos.
A informação foi divulgada pelo Global Times na última semana. O encontro teve como foco as tensões comerciais provocadas por medidas unilaterais de Washington, e os países do bloco defenderam uma resposta coordenada em defesa do sistema multilateral de comércio baseado em regras.
Segundo Kawauti, “os BRICS são a ponte já construída. Agora, é hora de fortalecer principalmente as relações com a União Europeia, onde o vácuo deixado pelas tarifas dos Estados Unidos terá maior impacto.”
Viagem de Lula à China
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarcou no dia 6 de maio em viagem à Rússia e à China em busca de diversificação comercial para o Brasil e fortalecimento de laços diplomáticos.
O convite veio do presidente chinês, Xi Jinping. Lula participou da cúpula entre China e países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), nos dias 12 e 13 de maio, além de fazer uma visita de Estado, com a assinatura de, pelo menos, 16 atos bilaterais, segundo informações da EBC.
“A lista de acordos é prolífica e variada”, disse o secretário de Ásia e Pacífico do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Eduardo Paes Saboia, em coletiva de imprensa. Ele contou que outros 32 atos estão em negociação e poderão se somar à lista.
O embaixador do Itamaraty Eduardo Paes Saboia reafirmou o discurso do presidente Lula de que o Brasil não quer contencioso com nenhum país e valoriza as relações sólidas com a China.
“O Brasil e a China tem uma agenda que é muito mais ampla do que as considerações de uma conjuntura, que obviamente preocupa. Acho que o Brasil preza a sua relação com os Estados Unidos e não faz da sua relação com a China algo que se contrapõe ao interesse em manter ótimas relações que, aliás, mantemos com os Estados Unidos”, disse.