
A volta de Paulo Câmara ao comando do Banco do Nordeste (BNB) não é apenas uma troca de cadeira numa instituição financeira regional. É, ao mesmo tempo, uma decisão econômica, institucional e política. O Conselho de Administração do banco referendou em 5 de março a indicação do Ministério da Fazenda para que o ex-governador de Pernambuco reassumisse a presidência da instituição, cargo que ele já havia ocupado entre março de 2023 e outubro de 2025. Na posse, em 10 de março, Câmara afirmou que sua gestão seguirá voltada à expansão do crédito, com foco na inclusão produtiva e fortalecimento da economia nordestina, sobretudo para micro e pequenos empreendedores.
O retorno era esperado nos bastidores. Quando deixou o cargo em outubro de 2025, o próprio governo já trabalhava com a possibilidade de reconduzi-lo assim que a situação legal fosse destravada. A saída ocorreu para cumprimento das exigências da Lei das Estatais. Na prática, o movimento acabou sendo apenas uma interrupção breve numa gestão que o Planalto claramente decidiu preservar.
O que explica a volta justamente em 2026 é a combinação de três fatores. O primeiro é o tamanho do instrumento em jogo. A programação do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) para 2026 projeta R$ 52,6 bilhões, alta de 11,1% sobre 2025. O segundo é a capilaridade do banco, que opera como braço de desenvolvimento em toda a região e também em áreas de Minas Gerais e Espírito Santo. O terceiro é o calendário eleitoral. Com crédito irrigando agricultura, infraestrutura urbana, saneamento, turismo, inovação, agricultura familiar e indústria, o comando do BNB ganha ainda mais peso político num ano em que alianças territoriais e presença regional contam muito.
Sob Paulo Câmara, o banco chega a 2026 em posição de força. Em 2025, o BNB registrou o melhor primeiro semestre de seus 73 anos, com R$ 34,8 bilhões em contratações, R$ 29,1 bilhões em desembolsos e R$ 1,38 bilhão de lucro líquido entre janeiro e junho. Nos nove primeiros meses de 2025, o lucro acumulado já havia alcançado R$ 2 bilhões, com avanço de 30,7% sobre igual período do ano anterior. Em 2024, o banco também havia fechado o melhor resultado de sua história até então, com R$ 2,3 bilhões de lucro líquido e desembolso recorde de R$ 60 bilhões.
Esses números ajudam a entender o que deve continuar. A nova gestão não tende a representar ruptura, mas aprofundamento de uma linha já em curso. Ou seja, mais crédito, mais capilaridade e mais protagonismo do banco como operador de políticas públicas e instrumento de dinamização econômica. Isso aparece de forma muito clara no discurso de posse, em que Câmara reforçou o apoio aos pequenos negócios, e também nos números recentes. As micro e pequenas empresas movimentaram R$ 6,3 bilhões no BNB em 2025, em mais de 44 mil operações, enquanto o Crediamigo superou R$ 13 bilhões no ano, com mais de 4 milhões de operações e 2,2 milhões de clientes ativos.

“A volta de Câmara não sugere mudança de rota, e sim reforço de prioridades já estabelecidas. O banco deve seguir apostando na inclusão financeira, no microcrédito e no apoio a micro e pequenos empreendedores, segmentos que combinam impacto econômico com forte capilaridade social”, afirma Raquel Modesto, professora de economia da Universidade Federal de Pernambuco. Esse desenho dialoga diretamente com a orientação federal para o FNE: segundo o próprio BNB, ao menos 62% dos recursos devem ir para setores prioritários, com foco em micro e pequenas empresas, microprodutores rurais e agricultores familiares.
A economista chama atenção para o fato de que 2026 adiciona uma camada nova à equação. “O FNE não é apenas volumoso; ele também está sendo reposicionado para áreas de alto valor estratégico, como infraestrutura urbana, saneamento, turismo, cultura e economia criativa, inovação, desenvolvimento territorial e agricultura familiar. Há ainda uma inflexão industrial em curso: segundo o MIDR e o BNB, o financiamento à indústria, que girava em torno de R$ 2,5 bilhões em 2022, pode ultrapassar R$ 6 bilhões em 2026, em conexão com a Nova Indústria Brasil e com agendas como energias renováveis, bioeconomia, descarbonização e data centers verdes”, explica a economista.
Isso significa que o banco volta a ser peça central não só na economia tradicional do Nordeste, mas também na disputa por investimentos da nova transição produtiva. Num momento em que o Nordeste tenta ampliar sua inserção em cadeias de energia renovável, infraestrutura logística, neoindustrialização e economia verde, o presidente do BNB passa a ter influência sobre uma agenda que vai muito além da operação bancária clássica. A presidência do banco se torna, na prática, uma posição de coordenação regional de desenvolvimento.
É aí que entra a dimensão política do retorno. Paulo Câmara não volta como um técnico neutro sem lastro partidário ou territorial. Ele retorna como ex-governador de Pernambuco, quadro com trânsito em Brasília e no Nordeste e nome de confiança direta do presidente Lula. A indicação, tratada como movimento pessoal do presidente com respaldo do Ministério da Fazenda, reforça que o governo quis manter no banco um dirigente com densidade política e capacidade de interlocução regional.
“Formalmente, o BNB é uma instituição financeira de desenvolvimento. Na prática, ele também é uma engrenagem de presença federativa no Nordeste. Sua rede de crédito, programas e relacionamento com prefeituras, governos estaduais, produtores rurais, cooperativas, comércio e microempreendedores faz do banco uma estrutura de enorme capilaridade política. Em ano eleitoral, isso naturalmente amplia o escrutínio sobre nomeações, prioridades de crédito e visibilidade institucional, mesmo que os desembolsos obedeçam a regras técnicas e programações previamente aprovadas” explica o cientista político Victor Senora.
Em favor de Câmara, pesa o fato de que sua primeira passagem coincidiu com melhora objetiva dos indicadores do banco. Houve expansão das contratações, crescimento do microcrédito, aumento dos desembolsos do FNE e reforço do papel do BNB em agendas novas, como fundos voltados a startups, mulheres empreendedoras e integração com a política industrial. Também houve busca por modernização e aproximação com investidores, como mostrou o BNB Day de 2024, quando o banco destacou ampliação de produtos, serviços, tecnologia e qualificação de pessoal.
No curto prazo, a tendência é de continuidade com aceleração seletiva. Câmara deve manter o foco em microcrédito e pequenos negócios, mas com um banco mais musculoso e com mais recursos disponíveis para agendas estruturantes. O salto do FNE para R$ 52,6 bilhões em 2026 e a nova prioridade dada a infraestrutura, inovação e indústria indicam que o BNB pode ganhar um papel ainda mais relevante na articulação entre crédito regional e estratégia nacional de desenvolvimento.