
O Rio Beberibe, um dos cursos d’água mais pressionados da Região Metropolitana do Recife, volta ao centro do debate ambiental com o lançamento do Edital Águas do Beberibe, iniciativa do BNDES apresentada durante a COP30 e que destina R$ 10 milhões para a recuperação ecológica da bacia. A proposta integra o programa Floresta Viva e busca um modelo de restauração capaz de recompor áreas degradadas da Mata Atlântica, reduzir desigualdades, fortalecer comunidades ribeirinhas e, principalmente, recolocar o rio no mapa da resiliência climática urbana.
A bacia do Beberibe reúne 35 municípios e convive há décadas com poluição crônica, assoreamento, erosão de margens, ocupação desordenada e supressão quase total da vegetação nativa. A situação se agravou por estar em uma região densamente urbanizada, onde cada novo trecho degradado se transforma em risco social — enchentes, deslizamentos, contaminação da água e fragilidade estrutural para quem vive às margens. O edital chega para enfrentar esse conjunto de problemas de forma articulada, combinando restauração florestal, manejo de encostas, recuperação de matas ciliares, educação ambiental e engajamento das comunidades.
Segundo a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campelo, a iniciativa vai além do plantio de árvores. Para ela, restaurar a Mata Atlântica no Beberibe é “essencial para reduzir desigualdades, fortalecer a resiliência climática e melhorar a vida das comunidades ribeirinhas”, destacando que o banco quer integrar recuperação ambiental a inclusão produtiva e oportunidades econômicas. A fala ecoa o espírito da COP30, marcada justamente pela discussão sobre adaptação climática nas cidades, eventos extremos e a necessidade de políticas que combinem infraestrutura verde e justiça social.
As organizações interessadas em concorrer aos recursos (associações civis, fundações, institutos, cooperativas e movimentos comunitários com pelo menos dois anos de atuação) deverão apresentar propostas completas, incluindo plano de restauração com espécies nativas, manejo e monitoramento, capacitação local, estratégias de participação social e geração de renda. A intenção é formar uma rede técnica e comunitária capaz de garantir que as áreas restauradas não se tornem “ilhas verdes”, mas se conectem ao território e transformem de forma duradoura a bacia do Beberibe.

O superintendente de programas do FUNBIO, Manoel Serrão, instituição parceira do Floresta Viva, reforçou o caráter urgente da intervenção. Como lembra, o Beberibe está inserido num dos espaços urbanos mais vulneráveis da região metropolitana. “Cada trecho degradado se transforma em risco social. Recuperar a bacia é garantir segurança hídrica, qualidade ambiental e futuro para milhares de pessoas”, afirmou. A presença do FUNBIO no processo também assegura que os projetos selecionados passem por monitoramento técnico, metas objetivas e acompanhamento contínuo.
Outro ponto essencial do edital é o papel das comunidades ribeirinhas. O BNDES quer que a restauração ganhe corpo a partir da participação local, seja na manutenção das áreas recuperadas, na formação de viveiristas, no fortalecimento de cooperativas, na criação de oportunidades ligadas à bioeconomia ou em ações educativas voltadas a crianças, jovens e adultos. A lógica é simples: floresta só se sustenta quando quem vive perto dela tem motivo para defender e cuidar do território.
O modelo de matchfunding do Floresta Viva — no qual aportes privados são duplicados pelo BNDES — também ganha protagonismo. Esse mecanismo tem ampliado a escala das ações e se tornou referência para projetos de restauração em áreas urbanas e periurbanas, onde o impacto ambiental e social aparece de forma mais clara. A expectativa do banco é que o edital do Beberibe sirva de exemplo para outras bacias do Nordeste e do Brasil, especialmente em regiões marcadas por vulnerabilidade hídrica e ausência de vegetação nativa.
Com o edital aberto, o próximo passo será a submissão dos projetos, seguida pela seleção realizada pelo FUNBIO. A execução deve começar após o cronograma técnico e administrativo, mas os primeiros resultados — plantio inicial, recomposição de margens e formação de equipes locais — devem surgir nos próximos anos. A recuperação total, porém, é um processo de longo prazo, que exige manutenção constante, articulação institucional e participação da população.
O que o BNDES propõe com o Edital Águas do Beberibe é reconstruir uma relação histórica entre comunidade e natureza, devolver dignidade ambiental a uma região castigada e mostrar que restauração ecológica, quando bem planejada, também é política social. E que, em Pernambuco, essa virada pode começar pelo Beberibe.
Urgência de reconexão entre a cidade e a natureza
Muito antes de se tornar um rio marcado por poluição e assoreamento, o Beberibe foi um dos eixos fundadores da ocupação humana no litoral pernambucano. Suas margens férteis sustentaram aldeamentos indígenas, engenhos, vilas coloniais e, mais tarde, a expansão urbana que uniu Recife e Olinda. A bacia sempre funcionou como uma espécie de “costura natural” entre os municípios, garantindo água para pequenos cultivos, abastecimento doméstico e circulação de pessoas e mercadorias. Com o avanço da urbanização, porém, o rio perdeu espaço para construções irregulares, recebeu carga crescente de esgoto in natura e teve suas matas ciliares quase inteiramente removidas — um processo que o transformou de vetor de vida em canal de risco ambiental.
A geografia do Beberibe ajuda a explicar por que sua recuperação é tão urgente. A bacia atravessa áreas densamente povoadas, onde o concreto substituiu o solo permeável e criou um cenário propício a enchentes frequentes, alagamentos rápidos e deslizamentos nas épocas de chuva. As populações ribeirinhas, muitas delas vivendo em moradias precárias, são as mais expostas aos impactos. É nessas regiões que o rio deixa de ser apenas um corpo d’água e passa a ser um marcador de desigualdade urbana.

A relevância ambiental também é incontornável. O Beberibe drena uma área originalmente coberta pela Mata Atlântica, bioma dos mais ameaçados do país, e abriga fragmentos que ainda servem como corredores ecológicos para fauna e flora locais. Recuperar margens, encostas e nascentes significa reativar essas conexões naturais, aumentar a infiltração da água da chuva, reduzir erosões e melhorar a qualidade do próprio rio; efeito em cadeia que beneficia todo o território metropolitano.
Historicamente, o poder público já tentou responder ao problema por meio de obras de drenagem, projetos de macrodrenagem, requalificações urbanas e iniciativas pontuais de saneamento. Mas especialistas apontam que, sem recomposição florestal e participação comunitária contínua, o Beberibe sempre volta ao ponto de estresse ambiental. Por isso, o novo edital do BNDES surge como uma oportunidade de romper o ciclo: ele propõe restaurar a bacia a partir de base técnica, com espécies nativas, inclusão social e manejo integrado — devolvendo ao rio a função que teve por séculos, mas adaptada às necessidades de uma região metropolitana em expansão.
Restaurar o Beberibe é corrigir uma distorção histórica, devolver dignidade ambiental às populações que vivem às margens e reaproximar Recife, Olinda e os demais municípios de uma paisagem que foi determinante para sua existência.