
O Ceará atravessa um processo de reorganização produtiva que tem reposicionado o estado entre os polos industriais mais dinâmicos do País. O avanço de 3,54% na indústria — mais que o triplo da média nacional de 1,1% — reflete o desempenho de setores como automotivo, energias renováveis, tecnologia e infraestrutura logística. Os dados, divulgados pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), integram o resultado positivo do PIB estadual, que cresceu 3,86% no período.
Danilo Serpa, presidente da Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), afirma que essa expansão é resultado de uma estratégia clara de industrialização. “A Adece tem atuado de forma estratégica para atrair investimentos, ampliar a industrialização e consolidar o Ceará como polo competitivo no Brasil”.
Polo Automotivo impulsiona nova cadeia produtiva
Um dos marcos de 2025 é a implantação do Polo Automotivo do Ceará, no município de Horizonte, com investimento inicial de R$400 milhões. “Em 2025, comemoramos a concretização do Polo Automotivo do Ceará, localizado no município de Horizonte. O equipamento tem como empresa âncora a Planta Automotiva do Ceará (PACE), da Comexport”, comenta Serpa.
A planta é a primeira multimarcas do país. Em setembro, a General Motors confirmou a chegada ao complexo com a produção do Chevrolet Spark EUV.
Apenas via Condec e Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI), a Adece atraiu 80 empresas até outubro de 2025, que somam mais de R$10 bilhões em investimentos previstos.
“Juntas, tais companhias projetam a geração de cerca de 12 mil novos empregos para os próximos anos”, afirma Serpa. Ele acrescenta: “No que se refere às resoluções de benefícios, correspondentes a empresas que estão se instalando ou ampliando seus negócios no Estado, foram aprovados investimentos de mais de R$521 milhões em 2025. Tais empreendimentos, preveem a geração de mais de 1.800 empregos diretos”.
Arranjos produtivos, pequenos negócios e formação tecnológica
A estratégia de desenvolvimento inclui também a base produtiva local. A Adece fortalece os Arranjos Produtivos Locais (APLs) e expande o apoio a pequenos negócios por meio do projeto Cidades e Territórios Empreendedores, em parceria com o Sebrae.
Na qualificação profissional, o programa Geração Tech, com o IEL Ceará, já formou 2.700 pessoas em tecnologia, e outras 1.700 serão capacitadas até 2026.

Por que o Ceará está crescendo mais?
O especialista em inteligência competitiva da Federação das Indústrias do Estado Ceará (FIEC), David Guimarães, identifica três motores que explicam o ciclo atual:
- i) A expansão do mercado de trabalho formal;
- ii) A ampliação de programas sociais de moradia e de obras públicas;
- iii) O direcionamento de políticas setoriais específicas em TIC.
Ele destaca o papel do mercado de trabalho: dados da PNAD Contínua mostram uma taxa de desocupação de 6,4%, a menor da série iniciada em 2012. Houve aumento da formalização, da renda média e do total de rendimentos. Para Guimarães, “Isso significa um aumento do chamado ‘tamanho de mercado’, com expansão da capacidade de consumo das famílias direcionada a determinados setores, que, por sua vez, necessitam contratar mais trabalhadores para atender essa demanda, dando tração a um ciclo virtuoso no Ceará”.
Os efeitos aparecem em segmentos como alimentos e couro e calçados.
No setor de construção, o impulso vem dos novos programas de habitação. “Em 2025, observa-se uma maior demanda setorial a partir da ampliação do acesso a programas sociais, com a criação da faixa IV do ‘Programa Minha Casa, Minha Vida’ além da implementação do programa estadual de ‘Entrada Moradia’”, explica.
Somam-se a esse movimento as obras estruturantes, como o novo campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) em Fortaleza. Serpa, inclusive, destaca que o equipamento receberá R$180 milhões e oferecerá cursos de Engenharia de Sistemas e Engenharia de Energias Renováveis a partir de 2027.
Guimarães acrescenta que há “sinalizações importantes para a diversificação produtiva a partir de políticas setoriais específicas”, com destaque para o hub de TICs e os investimentos em data centers.
Segundo ele, tais projetos visam elevar a infraestrutura digital e apoiar a Indústria 4.0, incluindo Internet das Coisas e Inteligência Artificial.
Perspectivas para 2026
A Sondagem Industrial da FIEC/CNI aponta expectativa positiva para produção e emprego nos próximos seis meses, embora com menor generalização.
Guimarães, no entanto, alerta que, devido ao forte aquecimento no mercado de trabalho, espera-se um menor espaço para reduções sucessivas na taxa de desemprego em 2026.
Ele também observa que o nível elevado dos juros limitou consumo e investimento, apesar de relativa estabilidade do crédito.
Mesmo assim, resume o cenário: “O estado exibiu, assim, um bom desempenho no mercado de trabalho, um resultado exportador acima do esperado, uma tração relevante da construção civil, em linha com políticas públicas focadas no combate ao déficit habitacional, além de melhorias da infraestrutura digital cearense”.

Hidrogênio Verde integra política industrial e energética
A transição energética é uma das âncoras da estratégia de longo prazo. Serpa afirma: “O Hub de Hidrogênio Verde do Complexo do Pecém é um diferencial competitivo que coloca o Estado na vanguarda da economia de baixo carbono, atraindo investimentos e fomentando a inovação tecnológica”.
O hub já soma mais de 40 memorandos de entendimento, sete projetos avançados com pré-contratos e previsão de US$30 bilhões em investimentos no Pecém.
Segundo o presidente da Adece, a agenda energética conecta-se ao automotivo: “A indústria automotiva, ao se alinhar às fontes renováveis já consolidadas no Ceará, fortalece a cadeia produtiva local, abre espaço para novos fornecedores e amplia a geração de empregos qualificados”.
Guimarães reforça que o Ceará já possui alta competitividade em energia eólica e solar. “Tal cenário abre possibilidades produtivas e tecnológicas promissoras, como o hidrogênio verde.”
Ele enfatiza que a viabilidade do hidrogênio depende de infraestrutura: “Nesse sentido, a introdução e a garantia de viabilidade desse novo setor no estado dependem dos investimentos em infraestrutura”.
Entre os pontos críticos, destaca:
- Expansão das linhas de transmissão para evitar curtailment;
- Incentivo às eólicas offshore;
- Construção e adaptação de gasodutos;
- Aprimoramento da infraestrutura portuária.
Guimarães afirma que o setor permitirá ao estado agregar valor a cadeias como aço verde, fertilizantes e combustíveis sustentáveis, especialmente para aviação (SAF). Ele destaca que a estratégia depende da capacidade local de absorver e utilizar o hidrogênio verde.
O especialista relaciona o tema às agendas globais. “O acordo de Paris e a realização da COP 30 evidenciam não só a necessidade dos esforços para essa transição do ponto de vista global como sugerem rotas para uma mudança de paradigma de tecnologias setoriais que favoreçam a descarbonização”, pontua.
“Essa inserção permitiria encadeamentos no ecossistema inovador, com um aumento da capacidade inovadora dos atores econômicos, além da atração de capital humano, com efeitos positivos sobre empregos, salários e desenvolvimento econômico”, conclui.