
A presença da China na economia nordestina ganhou um novo capítulo em 2025. Dados recentes do Conselho Empresarial Brasil–China (CEBC) e análises de mercado mostram que o Nordeste deixou de ser um destino periférico e passou a ocupar papel de destaque no mapa estratégico de investimentos chineses no Brasil, especialmente nas áreas de energia limpa, infraestrutura e reindustrialização.
Desde 2007, a China confirmou 58 projetos na região, com aportes estimados entre R$ 11,9 bilhões e R$ 13,2 bilhões, o equivalente a 15% de todo o investimento chinês no Brasil. Mas foi neste ano de 2025 que essa presença se consolidou e ganhou novos contornos.
A onda recente de investimentos chineses no Brasil se concentrou em energia, e o Nordeste foi um dos principais beneficiados. Em 2025, o setor elétrico liderou o destino de capital chinês no país, atraindo US$ 1,43 bilhão (34% do total). Na região, um dos marcos mais visíveis dessa expansão foi a inauguração do Complexo Solar Lagoinha, em Russas (CE), da CGN Brasil, com 165 MW de capacidade instalada.
O economista Paulo Bresser explica que as empresas chinesas têm buscado projetos descentralizados, mais ágeis e conectados à transição energética, um tipo de vocação que o Nordeste tem acumulado nos últimos anos, com parques eólicos, solares e infraestrutura de transmissão.
Bresser avalia ainda que a retirada de sobretaxas impostas pela China a produtos brasileiros, como frango congelado, ajudou a reaquecer o ambiente de trocas e investimentos bilaterais, fortalecendo o canal de investimentos diretos.
Infraestrutura e indústria entram no radar
Energia renovável não é o único campo de interesse. A China aprofundou sua presença em infraestrutura pesada no Nordeste, uma tendência que se expressa com projetos como a Ponte Salvador–Itaparica, obra da qual empresas chinesas têm participação relevante.
“Em paralelo, investidores chineses têm observado oportunidades de reindustrialização, logística e mobilidade urbana na região. A ampliação de portos, rodovias, zonas industriais e sistemas de transporte aparece como um dos vetores mais prováveis para a próxima onda de investimentos”, afirma Bresser.
Ano da virada
O ano de 2025 marcou uma virada importante. O Brasil se tornou o país emergente que mais atraiu capital chinês no ano, ocupando a terceira posição global na lista de destinos de investimentos.
Dentro desse movimento, o Nordeste ganha protagonismo. A mudança no perfil dos aportes antes concentrados em megaprojetos no Sudeste, agora se espalha pelo país, com forte expansão regional.
“Empresas chinesas vêm preferindo projetos menores, mais flexíveis e estrategicamente alinhados com as pautas de inovação e energia renovável. Esse padrão favorece estados nordestinos, que oferecem sol, vento, território amplo, mão de obra competitiva e capilaridade logística crescente”, afirma o economista.
Projeções divulgadas por agências de promoção de investimentos indicam que empresas chinesas planejam destinar R$ 27 bilhões ao Brasil até 2032, com foco em energia renovável, mobilidade e transporte, tecnologia e digitalização, manufatura avançada e mineração e insumos industriais
E, novamente, o Nordeste aparece como área prioritária. A combinação de potencial energético, efeitos do Novo PAC, crescimento de portos estratégicos (como Suape, Pecém e Itaqui) e políticas estaduais agressivas de atração de investimentos coloca a região em posição privilegiada para captar parte expressiva desses recursos.
O que chega em 2026
Dois projetos em especial, uma mega obra de infraestrutura e um complexo industrial de alta tecnologia, começam a transformar o cenário econômico baiano e, por extensão, o da região.
O mais simbólico deles é a Ponte Salvador–Itaparica, executada por um consórcio das gigantes chinesas CCECC e CCCC. Com custo estimado em R$ 11 bilhões e 12,4 km de extensão, ela será a maior ponte sobre o mar da América Latina. O contrato foi fechado em 2025 e a previsão oficial é de início das obras em junho de 2026, gerando milhares de empregos e reorganizando fluxos de transporte, logística e turismo na Bahia.
Na indústria, o movimento mais decisivo é a instalação da fábrica de carros elétricos da BYD em Camaçari, que representa um investimento de R$ 5,5 bilhões. A planta, já inaugurada, deve estar totalmente operacional até o final de 2026, com capacidade inicial para produzir 150 mil veículos por ano e potencial para chegar a 600 mil. Esses dois empreendimentos formam a base de um novo ciclo de presença chinesa na região, combinando infraestrutura de grande porte e industrialização verde.
