
O Nordeste brasileiro começa a viver um momento que pode mudar sua história econômica e industrial. Com a chegada de gigantes chinesas do setor automotivo, como a BYD, que inaugurou em outubro sua megafábrica em Camaçari (BA), e a Leapmotor, em parceria com a Stellantis, que prepara um projeto em Pernambuco, a região se consolida como novo epicentro da mobilidade elétrica no País. Essa movimentação pode não apenas descentralizar a indústria automotiva tradicionalmente concentrada no Sudeste, mas também impulsionar inovação tecnológica, qualificação profissional e uma nova fase de desenvolvimento regional.
A BYD escolheu o Nordeste para abrigar o maior complexo industrial da companhia fora da Ásia: um investimento de R$ 5,5 bilhões que promete transformar Camaçari, na Bahia, em referência mundial em tecnologia e sustentabilidade. “A escolha de Camaçari reflete a importância da região para o país e para a companhia”, afirmou a BYD. A cidade já possuía experiência no setor automotivo, mão de obra qualificada e infraestrutura pronta, fatores que pesaram na decisão.
Instalada em uma área de mais de 4,6 milhões de m², o equivalente a 645 campos de futebol, a planta conta com a estrutura fabril mais moderna das Américas. A primeira fábrica foi construída em apenas 15 meses, um feito que a empresa celebra como símbolo da eficiência de sua operação global. A capacidade inicial é de 150 mil veículos por ano, com previsão de dobrar para 300 mil na segunda fase e atingir 600 mil unidades anuais em plena operação.
Entre os modelos produzidos estão o Dolphin Mini, carro elétrico mais vendido do Brasil, o SUV Song Pro e o sedã King. Só em outubro, 363 unidades do Dolphin Mini deixaram a fábrica rumo a concessionárias em todas as regiões do país. A partir deste mês, o modelo King também entra na linha de produção.
Transferência de tecnologia e mão de obra local
Mais do que uma operação fabril, a BYD aposta em um ecossistema de inovação. Em Camaçari, a empresa mantém uma equipe de pesquisadores que já desenvolveu um motor flex adaptado para uso de etanol e gasolina em uma arquitetura híbrida plug-in, uma tecnologia inédita, projetada especialmente para o mercado brasileiro. “É o início de uma nova fase da engenharia automotiva nacional”, destaca a vice-presidente-executiva global da BYD, Stella Li, que enxerga o polo baiano como “o futuro Vale do Silício da América do Sul”.
Essa transferência de conhecimento também se reflete na formação de profissionais. Mais de 70 colaboradores da unidade já passaram por treinamentos de imersão na China, e novas turmas seguem o mesmo caminho. Além disso, a empresa firmou parceria com o Senai-Cimatec, centro de referência em pesquisa e inovação na Bahia, para desenvolver cursos técnicos e projetos de cooperação científica.
O uso de energia renovável é outro trunfo da operação baiana. Todo o consumo elétrico da planta é certificado pela I-REC (International Rec Standard), que garante origem 100% eólica. Essa prática evitou a emissão de 470 toneladas de CO₂ entre outubro de 2023 e agosto de 2024, o equivalente ao plantio de 3.300 árvores. “A iniciativa está em consonância com a missão da companhia de resfriar a Terra em 1°C”, informa a empresa.
Além da produção automotiva, a BYD investe em infraestrutura energética, estruturando uma das maiores redes privadas de recarga pública do país. Já são mais de 50 eletropostos instalados em cidades como Salvador, São Paulo, Brasília e Florianópolis, com a meta de chegar a 150 até o fim de 2025.
Pernambuco e o avanço da Leapmotor
Em paralelo, o polo automotivo de Goiana (PE), onde a Stellantis mantém operação, começa a se preparar para receber a chinesa Leapmotor, parceira do grupo europeu. A joint venture prevê a produção local de veículos híbridos e elétricos voltados ao mercado interno e à exportação, reforçando o papel estratégico do Nordeste como centro da nova indústria verde.
Segundo o professor Murilo Moreno, da ESPM, a instalação dessas montadoras chinesas representa um marco na redistribuição geográfica da produção automotiva brasileira. “Essas novas marcas mostram que a visão das novatas é mais ampla do que só considerar o mercado do Sudeste como o grande mercado brasileiro”, afirma. Ele ressalta que cada empresa “arrasta consigo uma série de fornecedores”, o que tende a gerar um efeito multiplicador sobre a economia regional.
Os atrativos do Nordeste vão além dos incentivos fiscais. A região oferece um conjunto competitivo de fatores: energia limpa e abundante, mão de obra crescente, custos operacionais menores e proximidade de portos estratégicos para exportação. Para Moreno, essas vantagens podem fazer da região “um novo polo exportador de veículos elétricos e híbridos, desde que haja uma política comercial estável e de longo prazo”.
O impacto local também é expressivo. A BYD estima gerar até 20 mil empregos diretos e indiretos nos próximos cinco anos, contribuindo para a formação de mão de obra, fortalecimento da cadeia produtiva e dinamização da economia baiana. O professor da ESPM lembra que o exemplo de Betim (MG), que se transformou após a instalação da Fiat, pode se repetir.
Mas o avanço chinês também acende o alerta das montadoras tradicionais. A Stellantis, Volkswagen e outras já anunciaram planos de eletrificação para não perder espaço no novo mercado. “Esse é um setor muito sensível a incentivos. Os carros elétricos, por enquanto, foram pouco beneficiados por eles, considerando o que outros países já fizeram. De toda forma, nossa solução local, o Flex, é pedra fundamental nesse tabuleiro”, avalia Moreno.
O Nordeste no centro da transformação
A ascensão do Nordeste na rota da indústria automotiva elétrica reflete um movimento global e, ao mesmo tempo, um realinhamento interno. A combinação de investimento estrangeiro, tecnologia de ponta e vocação sustentável pode transformar a região em símbolo da transição energética e industrial brasileira.
Como resume a vice-presidente global da BYD, Stella Li: “Queremos transformar Camaçari no Vale do Silício da América do Sul”. A frase resume a ambição de um projeto que vai muito além de fabricar carros, é a promessa de um futuro em que o Nordeste deixa de ser coadjuvante para ocupar o centro da revolução verde da indústria automotiva nacional.