
O avanço da transição energética no interior da Bahia começa a redesenhar não apenas a matriz elétrica do estado, mas também sua vocação econômica. No Sudoeste baiano, a combinação entre geração eólica, solar e infraestrutura digital de alta performance inaugura um novo ciclo de desenvolvimento: a implantação do primeiro data center da Renova Energia em Igaporã, projeto que marca a entrada da região no mapa nacional da economia digital.
Tradicionalmente associada à produção de energia limpa, a região agora passa a integrar um setor estratégico para o futuro, com o armazenamento, processamento e tráfego de dados em larga escala. O empreendimento é o primeiro passo de um investimento estimado em R$ 900 milhões, que prevê novas unidades em Igaporã e em Caetité, conectadas à robusta infraestrutura do complexo eólico local.
Mais do que um equipamento tecnológico, o data center simboliza uma convergência entre transição energética, conectividade e desenvolvimento regional. Ao consumir energia gerada localmente por fontes renováveis, o projeto reduz perdas no sistema, cria demanda estável para os parques eólicos e agrega valor à produção elétrica, transformando eletricidade em serviços digitais.
Energia limpa a serviço da economia digital
Data centers estão entre as infraestruturas mais intensivas em consumo de energia do mundo. Hospedam serviços em nuvem, aplicações corporativas, inteligência artificial e sistemas financeiros, exigindo fornecimento contínuo e confiável. Ao optar por instalar essas estruturas próximas à geração renovável, a estratégia baiana diminui custos logísticos e ambientais, além de tornar o estado mais competitivo na atração de empresas de tecnologia.
Classificado como Tier 1, o primeiro data center em Igaporã representa uma etapa inicial, mas estratégica. A expectativa é que a experiência abra caminho para empreendimentos mais sofisticados, de Tiers 2, 3 e 4, capazes de atrair operações de maior porte e maior densidade tecnológica.
Para viabilizar essa nova frente econômica, o Governo do Estado da Bahia estruturou uma articulação interinstitucional que envolve áreas de desenvolvimento econômico, infraestrutura e inovação. O trabalho conjunto busca reduzir barreiras regulatórias, oferecer incentivos fiscais e criar segurança jurídica para investidores.
Segundo o secretário de Desenvolvimento Econômico, Angelo Almeida, a atuação do Estado foi decisiva para que o projeto saísse do papel.
“O Governo do Estado da Bahia tem atuado de forma estratégica e interinstitucional para viabilizar o investimento da Renova Energia no Sudoeste baiano, por meio da articulação entre diferentes secretarias, diálogo permanente com a empresa, apoio junto aos órgãos reguladores e a construção de um ambiente institucional favorável à implantação do empreendimento”, afirma.
Incentivos e ambiente regulatório
No campo tributário, a Bahia utilizou instrumentos já consolidados para atrair o investimento. Entre eles, está o programa Desenvolve, que concede isenção de ICMS sobre o ativo imobilizado importado, benefício tradicionalmente aplicado a projetos de energia renovável e agora estendido aos equipamentos de data centers.
Paralelamente, o estado discute novos mecanismos, como a adoção do regime de admissão temporária de equipamentos, tema que vem sendo debatido no âmbito do Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz). A ideia é estruturar uma política específica de atração de data centers, alinhada às necessidades do setor.
Para Almeida, os efeitos extrapolam a tecnologia da informação. “O investimento estimado em cerca de R$ 900 milhões gera impactos positivos que vão além do setor de tecnologia, impulsionando a cadeia de suprimentos local e setores como construção civil, fornecedores de componentes elétricos, cabos, conexões, infraestrutura tecnológica e serviços especializados, com efeito multiplicador sobre a economia regional e estadual.”
Impactos locais e redução de desperdícios
Além do impacto econômico direto, o projeto contribui para resolver uma lacuna típica dos parques eólicos: o chamado curtailment, quando parte da energia gerada não consegue ser escoada e acaba desperdiçada por limitações do sistema elétrico. A instalação de grandes consumidores próximos à geração reduz esse problema.
De acordo com o secretário, a operação do data center pode diminuir em cerca de 25% essas perdas, fortalecendo a sustentabilidade financeira dos parques já instalados. Na prática, isso significa maior aproveitamento da energia limpa produzida na região e maior eficiência para todo o sistema.
Nos municípios, a expectativa é de dinamização do comércio, surgimento de fornecedores especializados e geração de empregos diretos e indiretos. Obras de construção, manutenção técnica, serviços de conectividade e segurança devem movimentar a economia local, tradicionalmente dependente de atividades primárias.
Outro pilar da estratégia é a qualificação profissional. A implantação de um polo tecnológico exige mão de obra especializada, capaz de operar sistemas críticos, redes de alta disponibilidade e soluções de cibersegurança.
Nesse sentido, o governo articula parcerias com centros de formação, como o Senai Cimatec, além de convênios voltados à capacitação técnica e científica. A meta é preparar profissionais locais para ocupar vagas de maior valor agregado, evitando que o desenvolvimento dependa apenas da importação de talentos.
“A partir dessa experiência, trabalhamos no aprimoramento da política de atração de data centers para viabilizar empreendimentos de maior complexidade, que demandam investimentos mais robustos e mão de obra altamente especializada, com potencial para consolidar novos polos tecnológicos no interior do estado”, explica Almeida.
A aposta no Sudoeste integra uma estratégia mais ampla de interiorização do crescimento econômico. Em vez de concentrar investimentos apenas na capital e na Região Metropolitana de Salvador, o estado busca replicar modelos que combinem vocação energética, infraestrutura disponível e potencial logístico.
Se bem-sucedido, o projeto de Igaporã pode se tornar referência para outras regiões baianas, conectando energia limpa à economia digital e promovendo um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável.