
De repente, ao abrir um jornal, ver uma publicidade ou, até mesmo, assistir a uma palestra sobre economia, não se fala em outra coisa senão em ESG e medidas sustentáveis de produção. Diante deste movimento, é comum se perguntar: desde quando essas soluções se tornaram tão relevantes? E por que, justamente agora, a maioria das empresas busca se posicionar como unidades ecológicas?
Em um panorama mundial em que vastos territórios precisam “vender seu peixe” em negociações globais e participar de congressos renomados, ter uma nação, ou mesmo uma região, que funcione como um hub verde para o mundo parece ser uma das principais vantagens competitivas de 2025. Com a COP 30 se aproximando e sendo sediada justamente em uma área que ocupa cerca de 18% do território brasileiro, a oportunidade é praticamente imperdível: ser reconhecido pelas maiores economias do mundo como um ambiente sustentável.
As prioridades de negócio vêm se transformando ao longo das décadas, conforme o capitalismo passou a conviver com uma globalização cada vez mais exigente. Nos anos 1950, por exemplo, o objetivo de uma propaganda era simplesmente apresentar o produto como mais uma opção de compra entre tantas nas prateleiras. A marca não representava nada além do ato de consumo. O marketing era, basicamente, uma venda direta — o produto pelo produto.
Com o passar dos anos, discussões sobre inclusão, diversidade e sustentabilidade tornaram-se parte do pacote de vendas. Até pouco tempo atrás, atrizes famosas, conhecidas por suas maquiagens impecáveis, sequer pensavam no impacto ambiental dos produtos que usavam. Hoje, podem ser duramente criticadas nas redes sociais e perderem contratos milionários se consumirem algo que não seja cruelty free — ou seja, que tenha sido testado em animais — ou, ainda, que não seja vegano.
As empresas são forçadas a acompanhar essa transformação porque, no fim das contas, quem dita o ritmo são os consumidores.
Mas, afinal, o que é ESG?
A sigla ESG vem do inglês: Environmental, Social and Governance — em português, Ambiental, Social e Governança. Ela representa um conjunto de práticas adotadas por empresas que desejam crescer respeitando o meio ambiente, investindo em inclusão e diversidade e promovendo uma gestão ética e transparente.
O termo apareceu pela primeira vez em 2004, em uma publicação do Pacto Global da ONU em parceria com o Banco Mundial, chamada Who Cares Wins. A ideia surgiu a partir de uma provocação feita por Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, a 50 CEOs de grandes instituições financeiras: como integrar questões ambientais e sociais à lógica do mercado de capitais?
Desde então, a agenda ESG só ganhou força. Hoje, aplicar esses critérios é, mais do que uma vantagem, uma necessidade para sobreviver dentro do comércio. As empresas que seguem padrões ESG tendem a ser mais competitivas, tanto no mercado nacional quanto no internacional. Além disso, são vistas como mais confiáveis, resilientes e bem preparadas para lidar com crises e instabilidades.
Estar alinhada ao ESG é, também, uma forma de demonstrar ao mundo que a empresa se importa, com o agora e com o depois.
O que o Nordeste tem feito neste sentido?
Atualmente, mais de 76% das empresas nordestinas já adotam algum tipo de iniciativa voltada para a sustentabilidade, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A região se destaca com folga na produção de energia limpa: detém 92% da capacidade instalada de energia eólica do país e 60% da potência solar. Com isso, passou de importadora para exportadora de energia para o restante do Brasil.
O Banco do Nordeste possui linhas de crédito para projetos agroecológicos e de saneamento, e estados como Pernambuco têm investido em iniciativas como o Plano Suape Carbono Neutro. Eventos como o ESG Fórum Bahia também reforçam esse movimento, abrindo espaço para o debate e a construção de soluções regionais.
É nesse contexto que entra o Consórcio Nordeste. Segundo Vilma Freire, coordenadora da Câmara Temática do Meio Ambiente do grupo, o foco da participação na COP30 estará voltado para projetos de transição energética e para a preservação da caatinga, bioma exclusivamente brasileiro. “Apresentaremos propostas estruturadas que envolvem o uso de hidrogênio verde, energias renováveis e iniciativas de proteção aos recursos naturais da região”, afirma.
Para atrair investimentos internacionais, a estratégia é clara: mostrar resultados e potencial. Vilma afirma que o Consórcio tem articulado parcerias e construído estudos de viabilidade para apresentar projetos bancáveis. Segundo ela, os impactos esperados ultrapassam questões puramente econômicas, mas priorizam o aumento da resiliência climática.
O que ainda pode ser feito?
Apesar dos avanços, ainda há uma série de medidas estruturais que podem fortalecer o posicionamento do Nordeste como vitrine verde mundial. No campo da segurança hídrica, é essencial concluir obras estratégicas como o Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco e os ramais do Salgado e do Apodi. Essas ações ampliam o abastecimento de água, aumentam a capacidade de bombeamento e trazem estabilidade hídrica para regiões vulneráveis.
No setor de infraestrutura, a modernização de rodovias, ferrovias e portos é vital. A adequação das BRs 101, 232 e 316, por exemplo, assim como obras logísticas nos anéis viários de capitais, pode melhorar o escoamento da produção regional. A ampliação da malha ferroviária e a ativação de projetos como a Ferrovia Transnordestina integram e dinamizam os polos produtivos.
No campo da energia, o desafio é consolidar a liderança em fontes limpas. Está em curso a promoção da produção de hidrogênio verde, a ampliação da refinaria Abreu e Lima, a retomada das discussões sobre a usina nuclear de Itacuruba e o fortalecimento da cadeia de gás natural.
Desafios e contradições
Mesmo com os bons números, ainda existem gargalos. Segundo a CNI, 74% dos empresários consideram a infraestrutura da região apenas regular, ruim ou péssima. Além disso, a expansão de parques eólicos e solares precisa considerar os impactos sobre a biodiversidade e as comunidades tradicionais.
“Vejo o Nordeste como uma das regiões mais promissoras do Brasil para liderar a transição para uma economia verde e de baixo carbono, não apenas em termos de recursos naturais, mas também de inovação social e tecnologia ancestral”, afirma Mikaelle Palmares, ativista climática e estudante de engenharia de energias renováveis.
Ela aponta, ainda, que é fundamental respeitar os territórios tradicionais. “Temos muitas vezes a Convenção 169 da OIT violada. A pressa pela emergência climática não pode justificar a violação de direitos humanos”, alerta.
Para Mikaelle, programas como o Fundo Clima são importantes, mas ainda insuficientes: “Temos uma lacuna muito grande em políticas de financiamento. O fundo tem apoiado a geração distribuída no Nordeste, mas é preciso escalar essas iniciativas”.