
O município de Salgueiro, no Sertão Central de Pernambuco, se prepara para assumir um protagonismo logístico sem precedentes no Nordeste. Com a retomada das obras do trecho ferroviário Salgueiro–Suape, a cidade poderá triplicar sua economia e se consolidar como um centro de distribuição regional estratégico, segundo estudo apresentado pelo professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Guilherme Magalhães, durante o seminário Conexões Transnordestina – A ferrovia que moverá Pernambuco, realizado na última quinta-feira (24).
O evento, promovido em conjunto pelo site Movimento Econômico e pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), reuniu especialistas, autoridades locais e representantes do setor logístico para discutir os impactos econômicos e sociais da Transnordestina. As projeções são otimistas: além de consolidar Salgueiro como um entroncamento multimodal – com conexões ferroviárias, rodoviárias e potencial ligação hidroviária – o município poderá sediar um porto seco e um terminal de distribuição de combustíveis que receberá 1,8 milhão de toneladas de derivados por ano via trilhos, reduzindo custos logísticos e atraindo investimentos.
Atualmente, Salgueiro já se destaca como nó rodoviário das BRs-232 e 116. No novo cenário, passará a integrar quatro ramais ferroviários estratégicos: Salgueiro–Suape, Salgueiro–Petrolina, Salgueiro–Missão Velha (CE) e Salgueiro-Eliseu Martins (PI), o que, segundo o professor da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maurício Pina, o posiciona como “centro geográfico do Nordeste”. A Transnordestina, quando finalizada, terá capacidade de escoar até 30 milhões de toneladas de cargas por ano, incluindo minério de ferro, grãos, combustíveis e insumos para construção civil, gesso, fertilizantes e açúcar.
Apesar do potencial, o trecho Salgueiro–Suape encontra-se com apenas 38% de execução e está paralisado desde 2016. No entanto, os projetos básicos e executivos estão sendo atualizados pela estatal Infra S.A., vinculada ao Ministério dos Transportes. A primeira licitação, referente ao trecho Custódia–Arcoverde, está prevista para o segundo semestre de 2025, com contratação da obra no início de 2026. O investimento estimado para toda a extensão é de R$ 3,5 bilhões, com previsão de conclusão até 2029.
A viabilidade logística de Salgueiro é reforçada por projetos complementares em andamento. Em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Sudene encomendou dois estudos: um para analisar custos e traçados para o novo ramal Salgueiro–Petrolina, com o objetivo de escoar a fruticultura do Vale do São Francisco, e outro para avaliar a retomada do transporte ferroviário de passageiros entre Recife e Caruaru, via BR-232.
Os estudos serão concluídos até o primeiro semestre de 2026 e fazem parte da estratégia do governo federal de reativar o modal ferroviário como motor de transformação econômica e social. “Nosso objetivo é ampliar a competitividade e induzir o desenvolvimento sustentável e inclusivo do Nordeste”, afirmou o superintendente da Sudene, Danilo Cabral.
A integração do trecho Salgueiro–Suape à Refinaria Abreu e Lima (Rnest), que está em expansão, também pode gerar novos ganhos econômicos. O diretor do Sindipetro PE/PB, Diego Liberalino, revelou que a Petrobras já realizou estudos técnicos para a instalação de um terminal em Salgueiro, com investimento estimado em R$ 1 bilhão e geração de 400 empregos.
Enquanto isso, as obras da Transnordestina avançam em outros trechos. No Ceará, o presidente Lula visitou recentemente o canteiro de Missão Velha, onde anunciou R$ 1,4 bilhão adicionais para a conclusão da ferrovia. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR), o trecho Eliseu Martins–Pecém já alcançou 75% de avanço físico, dentro de um projeto que soma quase R$ 15 bilhões em investimentos.
Para o professor Magalhães, a retomada da obra entre Salgueiro e Suape é vital não apenas para Pernambuco, mas para o equilíbrio competitivo dos portos do Nordeste. Sem ela, o Porto de Suape pode perder protagonismo logístico, agravando as assimetrias regionais. Já o prefeito de Salgueiro, Fábio Lisandro, defende uma mobilização política para garantir os recursos necessários e recolocar Pernambuco no centro da agenda ferroviária do país. “A nossa intenção é travar uma luta para que os investimentos venham e Pernambuco garanta os trilhos do seu desenvolvimento”, declarou.
Se os planos se concretizarem, Salgueiro deixará de ser apenas uma cidade do interior para se transformar em uma plataforma logística de alcance nacional – símbolo de uma nova fase de desenvolvimento regional baseado em conectividade, sustentabilidade e inclusão.
*Com informações da Agência Gov