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9 de fevereiro de 2026 16:08

Como “Guerreiros do Sol” impulsiona o turismo histórico-cultural em Sergipe e reacende memórias do cangaço

Como “Guerreiros do Sol” impulsiona o turismo histórico-cultural em Sergipe e reacende memórias do cangaço

Com cenas gravadas no Alto Sertão sergipano, série da Globoplay fortalece a Rota do Cangaço como atrativo turístico de memória e amplia visibilidade do estado como polo de produções audiovisuais
As locações de Guerreiros do Sol foram o Vale dos Mestres, a Fazenda Mundo Novo e o Assentamento Adão Preto | Foto: Estevam Avellar – Globo

Foi no sertão sergipano, onde o cangaço deixou marcas profundas, que foram rodadas cenas da nova produção original do Globoplay, “Guerreiros do Sol”. As gravações — com locações como o Vale dos Mestres, a Fazenda Mundo Novo e o Assentamento Adão Preto — ocorreram no município de Canindé de São Francisco, no Alto Sertão, contribuindo para destacar o patrimônio histórico, cultural e turístico da região.

A secretária executiva do Turismo de Sergipe, Daniela Mesquita, acredita que a repercussão de uma obra como “Guerreiros do Sol” pode fortalecer o turismo de base cultural e histórica no estado, ampliando o olhar para além do tradicional sol e praia.

Segundo ela, a novela tem sido uma importante vitrine para despertar o interesse do público pelo patrimônio histórico e cultural sergipano, já que diversas cenas foram gravadas em locações regionais. “A Secretaria de Estado do Turismo acredita que iniciativas como essa contribuem para diversificar e qualificar nossa oferta turística, valorizando ainda mais o que temos de único: nossa história, cultura e identidade”, ressalta.

Durante dois meses, parte do elenco e da equipe técnica permaneceram no estado, fortalecendo a cadeia produtiva local e gerando expectativa para o aumento do fluxo turístico. A presença da produção reacende o interesse do público pelas paisagens, personagens e símbolos do cangaço – fenômeno histórico que moldou o imaginário do Nordeste.

A região também abriga o Cânion de Xingó, o quinto maior cânion navegável do mundo. Para Daniela Mesquita, esse conjunto de atrativos consolida o sertão sergipano como destino turístico completo e diferenciado. | Foto: Max Carlos – Setur

“O cangaço é um tema de grande interesse no Brasil e, quando abordado por uma produção de alcance nacional, desperta um novo olhar sobre o sertão sergipano, ampliando o imaginário do turista e estimulando novas experiências para além do nosso já consolidado turismo litorâneo”, afirma Daniela.

Movimentação crescente no sertão sergipano

Daniela nota que a novela já vem despertando curiosidade, especialmente entre os que desejam conhecer de perto os cenários retratados na obra. “Locais como o Vale dos Mestres e a Fazenda Mundo Novo estão sendo redescobertos sob uma nova ótica. Está havendo um aumento na procura por roteiros que envolvem história e natureza, e, com essa visibilidade, reforça o potencial da região como destino turístico com forte apelo cultural e histórico”, diz.

Esse movimento também é percebido por Genilson Ramos Aragão, da Sociedade do Cangaço, que destaca o impacto recorrente das produções audiovisuais na dinâmica turística local. Segundo ele, novelas e filmes gravados na região costumam impulsionar significativamente a visitação.

“Com relação à ‘Guerreiros do Sol’, a gente já sente o interesse, principalmente de um público numa faixa etária aí de 15 a 25 anos. A gente percebe também, no público feminino de 15 a 40 anos, um interesse crescente, já dando sinais de aumento no nosso fluxo”, aponta.

Segundo ele, é comum que esse tipo de produção desperte a curiosidade das pessoas à medida que o enredo destaca as belezas e a história do território retratado. “Ainda é discreto, mas eu acredito que na medida que a produção for se estendendo, esse fluxo vai aumentar. Foi assim com as outras novelas”, comenta.

Apesar da movimentação inicial, Aragão adota uma visão realista. Ele avalia que “Guerreiros do Sol” talvez não gere um grande volume de visitantes, por ser uma obra exibida exclusivamente em plataforma de streaming. “O acesso vai ser menor, então, eu creio que ela não vai conseguir concorrer com novelas como ‘Cordel Encantado’, ‘Velho Chico’, ‘Mar do Sertão’. Mas, com certeza, já está influenciando a nossa demanda”, aponta.

Daniela reforça que o impacto da produção vai além do turismo. Segundo ela, é visível o orgulho da população ao ver o estado retratado em uma grande obra nacional. “Essa visibilidade fortalece o sentimento de pertencimento, eleva a autoestima coletiva e gera um reconhecimento da importância cultural daquela região”, reflete.

“Além disso, promove o engajamento da comunidade local com o turismo e com a preservação das suas tradições. Ver o sertão sergipano na tela é, também, uma forma de afirmar a relevância e a riqueza da região diante do Brasil”, acrescenta a secretária.

Elenco da novela original Globoplay gravou diversas cenas no sertão sergipano | Foto: Estevam Avellar – Globo

Turismo de memória e respeito aos ancestrais

Entre os locais destacados pela produção está a Grota do Angico, situada entre os municípios de Canindé de São Francisco e Poço Redondo. O local é conhecido por ter sido o cenário do fim trágico de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, sua companheira Maria Bonita e outros nove cangaceiros, mortos em uma emboscada em 1938.

Antes de iniciar as filmagens na grota, a equipe da TV Globo realizou um ato simbólico no local, pedindo “licença” aos espíritos dos cangaceiros — um gesto de respeito à memória coletiva nordestina.

A cada 28 de julho — data que em 2025 marcará os 87 anos da morte de Lampião e Maria Bonita — é celebrada a Missa do Cangaço, cerimônia que reúne centenas de pessoas em homenagem aos integrantes do bando mortos na emboscada. A celebração é conduzida por Vera Ferreira, neta do casal, e por sua mãe, Expedita Ferreira, filha de Maria Bonita e Lampião.

Aragão detalha que, em relação à Missa do Cangaço, é interessante voltar um pouco na história e lembrar que o cangaço surge no final do século XVIII, nos arredores da região metropolitana do Recife, em Pernambuco. Ele recorda que Lampião nasce no fim do século XIX, em Serra Talhada (PE), e entra para o cangaço no início do século XX. Maria Bonita, baiana, nascida na Fazenda Malhada da Caiçara — hoje parte do município de Paulo Afonso (BA) —, junta-se posteriormente ao grupo, tornando-se a primeira mulher a integrar o cangaço.

“E eles começam a mudar, principalmente, os estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco e às vezes até na Paraíba. Às vezes eles sobem um pouquinho mais também, para o Rio Grande do Norte e para o Ceará. Mas esses quatro estados são os estados com maior incidência histórica de passagem dos cangaceiros”, relata.

“E por fim, o casal dá à luz Expedita Ferreira em terras que pertencem hoje ao município de Porto da Folha, no estado de Sergipe. E ali, com 20 dias de vida, eles entregam a filha Expedita ao casal de vaqueiros, Severo e Aurora. Onde ela foi criada com essa família e depois ela segue a conviver com o seu tio, João Ferreira, que foi o único irmão do Lampião que não entrou para o cangaço”, acrescenta.

Realizada há 28 anos, a missa vai além de um ato religioso: tornou-se símbolo de resistência cultural e de preservação da memória do cangaço. Com o tempo, a programação se expandiu, passando a incluir tributos a outras figuras históricas e visitas a locais emblemáticos ligados à trajetória dos cangaceiros.

A Rota do Cangaço é um circuito turístico que percorre locais marcantes ligados ao movimento | Foto: Max Carlos – Setur

“E a partir de um determinado momento começa também a ver a importância de colocar nessa Comitiva do Cangaço pontos históricos do cangaço em outras localidades, com outros personagens. Esse ano, por exemplo, serão homenageados os pais adotivos de Expedita Ferreira, que é Severo e Aurora. Então, esses laços, esses vínculos, trazem para o estado de Sergipe uma importância muito grande no contexto ligado ao cangaço”, comenta Aragão.

Em 2025, a Comitiva do Cangaço prestará uma homenagem especial a Severo e Aurora, casal de vaqueiros de Porto da Folha (SE), que acolheu e criou Expedita Ferreira desde seus primeiros dias de vida até os nove anos. As atividades começaram na sexta-feira (25), com uma visita à antiga Fazenda Echu, onde Lampião e Maria Bonita confiaram os cuidados da filha ao casal. No local, será realizada uma palestra para estudantes da rede pública municipal sobre a história de Severo e Aurora e sua contribuição para a preservação do legado do cangaço.

Na sequência, foi celebrada uma missa em sufrágio das almas do casal na Capela de Nossa Senhora da Conceição de Jaciobá, no povoado Mocambo — onde Expedita viveu com sua família adotiva. A programação se estendeu durante todo o fim de semana e se encerra nesta segunda-feira (28), com a tradicional Missa do Cangaço, realizada na Grota do Angico — um dos marcos mais simbólicos da história do sertão nordestino.

Daniela afirma que a Secretaria estará presente com uma equipe dedicada para produzir conteúdo promocional e jornalístico, além de uma cobertura especial nas redes sociais, a fim de destacar esse momento de grande importância histórica e cultural não apenas para Sergipe, mas para todo o Nordeste. “Aproveitaremos esse momento para reforçar a Rota do Cangaço como produto turístico estruturado, atrativo e diferenciado, promovendo o sertão como destino para quem busca experiências autênticas e conectadas com a história”, diz.

A visibilidade trazida pela produção fortalece ainda mais a Rota do Cangaço, circuito turístico que conecta história, natureza e cultura. O roteiro leva os visitantes por uma viagem de barco pelo Rio São Francisco, seguida de uma trilha que culmina na Grota do Angico.

A rota é uma das mais procuradas por turistas que buscam experiências autênticas e ligadas à memória regional. O passeio atrai desde estudantes e pesquisadores até entusiastas da história nordestina.

Sergipe no radar da teledramaturgia

Sergipe tem se consolidado como um dos destinos preferidos da Rede Globo para produções que exigem um cenário regional autêntico. Além de “Guerreiros do Sol”, o estado já foi locação de obras como “Cordel Encantado” (2011), “Velho Chico” (2016), e a minissérie “Amores Roubados” (2014). O cinema nacional também encontrou ali seu cenário ideal em filmes como “Orquestra dos Meninos”, “Senhor dos Labirintos” e “Aos Ventos que Virão”.

Segundo Daniela, a Secretaria de Turismo tem o objetivo de consolidar Sergipe como um polo de locações para produções audiovisuais. “Sergipe tem um patrimônio natural, histórico e cultural riquíssimo, que pode servir de cenário para diferentes tipos de produções. Consequentemente, já ter tido grandes produções gravadas pela Rede Globo em nosso estado facilita, pois acaba dando visibilidade aos nossos atrativos junto às produtoras”, considera.

A secretária reforça que a pasta tem atuado de forma estratégica para promover e divulgar a região, apresentando os roteiros a agentes de viagens em diversas ações de promoção do destino, realizadas nos principais mercados emissores de turistas do Brasil para Sergipe. Essas ações incluem roadshows, capacitações e participação em feiras de turismo nacionais e internacionais. “Diante disso, pretendemos, sim, ampliar esse mercado em Sergipe, fortalecendo tanto o turismo quanto a economia criativa”, confirma.

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