Quando Sebastiana fala sobre a vida antes do crédito, a memória vem acompanhada do esforço físico. “Era tudo manual. A gente trabalhava na enxada, sem recurso nenhum”, conta a agricultora familiar. O cenário começou a mudar quando ela acessou o financiamento do Agroamigo, programa de microcrédito rural do Banco do Nordeste. Vieram o pequeno trator, a ampliação da irrigação e a compra de mais insumos orgânicos. “O trabalho ficou mais fácil, a produção melhorou e a renda da minha família aumentou.”

Histórias como a de Sebastiana ajudam a traduzir em experiência concreta o que os números de 2025 já indicam: o microcrédito produtivo e orientado vive um momento de consolidação no Nordeste. Operados pelo Banco do Nordeste (BNB), os programas Crediamigo e Agroamigo alcançaram resultados recordes neste ano, ampliando o acesso ao crédito, fortalecendo pequenos negócios urbanos e sustentando a agricultura familiar em um cenário ainda marcado pela informalidade e pela vulnerabilidade econômica.
Mais do que crescimento financeiro, os dados apontam para uma mudança de escala e de função do microcrédito. Em 2025, ele deixa de ser apenas uma resposta emergencial e se afirma como política pública estruturante, com impacto direto sobre geração de renda, formalização, inclusão financeira e dinamização das economias locais.
Ponte para a cidadania econômica
Para o Banco do Nordeste, o papel do microcrédito urbano vai além da concessão de recursos. “O Crediamigo é uma ferramenta estratégica de política pública para inclusão produtiva, combate à pobreza e estímulo à formalização em um cenário de alta informalidade no Nordeste”, afirma Heberth Caires, porta-voz da instituição.
Segundo ele, o programa atua justamente onde o sistema financeiro tradicional não alcança. “O Crediamigo tem a missão explícita de incluir financeiramente trabalhadores informais e microempreendedores que não têm acesso ao crédito bancário por falta de garantias reais ou histórico financeiro”, explica. Nesse contexto, o microcrédito funciona como “porta de entrada” para a cidadania financeira.
A metodologia rompe com a lógica bancária convencional. Em vez de exigir bens como garantia, o programa aposta no chamado aval solidário, baseado no compromisso coletivo de grupos de empreendedores. “Essa confiança mútua facilita imensamente o acesso ao crédito para quem não possui patrimônio”, destaca Caires.
O diferencial, no entanto, está no modelo de crédito produtivo e orientado. Os recursos são destinados exclusivamente à atividade econômica — comércio, serviços ou produção — e acompanhados de perto por agentes de microcrédito que visitam os empreendedores em seus locais de trabalho. “A orientação financeira garante a aplicação correta do capital e aumenta significativamente a taxa de sucesso dos negócios”, afirma.
Orientação que reduz risco e gera sustentabilidade
Na avaliação do banco, o acompanhamento permanente transforma o perfil de risco dos clientes. “A orientação financeira e empresarial oferecida pelos agentes tem impacto direto no uso eficiente dos recursos”, explica Heberth Caires. “Ela funciona como mecanismo de mitigação de risco e transforma um público percebido como de alto risco pelo mercado tradicional em clientes viáveis e sustentáveis.”
Além das visitas presenciais, o Banco do Nordeste ampliou o acesso à capacitação por meio da Escola de Negócios, disponível no aplicativo do cliente Crediamigo. A plataforma oferece cursos gratuitos voltados ao empreendedorismo, desenvolvidos pela Universidade Corporativa do BNB em parceria com a Fundação Dom Cabral.
“O crédito sozinho não resolve. É a combinação entre recurso, orientação e educação financeira que garante o sucesso social e financeiro da operação”, resume o porta-voz.
Alagoas cresce acima da média nacional
Em Alagoas, os resultados de 2025 ajudam a dimensionar esse impacto. Até 30 de novembro, o Crediamigo desembolsou R$ 464,6 milhões no estado, crescimento de 8% em relação ao mesmo período de 2024. O desempenho é mais de duas vezes superior ao crescimento nacional registrado anteriormente pelo programa e supera em mais de três vezes a projeção de crescimento do PIB brasileiro para 2025.

De acordo com o Banco do Nordeste, esse avanço é resultado de uma combinação de fatores. Um deles é a expansão da rede de atendimento. Em 2025, o banco iniciou um plano para mais que dobrar o número de unidades do Crediamigo — incluindo lojas, contêineres e pontos de apoio —, passando de cerca de 500 para aproximadamente 1.000 unidades em toda a área de atuação.
Outro fator é o aumento da demanda por crédito, impulsionado pelo crescimento do empreendedorismo urbano e por setores específicos, como o turismo alagoano, que demandou mais financiamento para novos negócios. A ampliação do orçamento do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), com aumento de 18,5% para 2025, também elevou a capacidade de investimento no estado.
O perfil dos clientes reforça o caráter inclusivo do programa: 68% são mulheres; 62% têm entre 18 e 45 anos; 82% acessaram créditos de até R$ 5 mil; e 75% vivem com renda familiar mensal de até R$ 3 mil. “Os dados mostram que estamos alcançando exatamente o público que mais precisa desse tipo de política”, observa Caires.
“Começou em um quarto da minha casa”
Em Penedo, no Baixo São Francisco, o impacto do microcrédito urbano se materializa na trajetória de Wagnner de Andrade. Hoje proprietário da Wago Barbearia, ele lembra que o negócio nasceu de uma necessidade. “As despesas de casa estavam crescendo, meu antigo trabalho já não era suficiente. No começo, nem imaginava que um dia seria barbeiro”, conta.
Sem conseguir vaga em barbearias da cidade, decidiu investir no próprio negócio, mesmo sem estrutura. O empreendimento começou em um dos quartos da casa, sem nome e com poucos equipamentos. Foi por meio de um cliente que Wagnner conheceu o Crediamigo.
Com o financiamento, ele conseguiu implantar a barbearia em um ponto comercial próprio, estruturar o espaço e formalizar quatro empregos. “O apoio do Banco do Nordeste foi fundamental tanto para o meu crescimento pessoal quanto para o sucesso do negócio”, afirma.
A partir do crédito e da orientação recebida, o empreendedor passou a investir em capacitação, participou de cursos com profissionais reconhecidos nacionalmente e trouxe esse conhecimento para a cidade. “Hoje recebemos cerca de 200 clientes por semana”, relata.
Inspirado em modelos inovadores do setor, criou o Wago’s Club, um plano de assinatura que fideliza clientes e promove encontros com profissionais e pessoas interessadas em empreender. Desde a contratação do financiamento, a barbearia registrou aumento de 35% no número de clientes.
“Hoje, a Wago Barbearia é muito mais que um negócio. É uma missão de vida. É a prova de que dá para sair do zero e construir algo sólido”, diz.

Crédito que sustenta o campo e fixa o produtor
No meio rural, o impacto do microcrédito é ainda mais estrutural. Criado há 20 anos, o Agroamigo se consolidou como principal política de financiamento da agricultura familiar no Nordeste. Em Alagoas, a carteira ativa do programa saltou de pouco mais de R$ 170 milhões em 2020 para mais de R$ 840 milhões em 2025.
“O Agroamigo foi criado justamente para atender o agricultor familiar que acabava competindo com outros perfis de crédito dentro das agências”, explica Russana Melo, representante do Banco do Nordeste. “Criamos uma área específica, com metodologia própria de crédito produtivo, orientado e acompanhado”.
Atualmente, mais de 87 mil agricultores mantêm operações ativas no estado, com crescimento médio anual de 15% no número de clientes. O acompanhamento técnico no campo é apontado como fator-chave para a redução da inadimplência, o aumento da produtividade e a fidelização dos produtores.
“Não fazemos apenas crédito. Fazemos educação financeira, acompanhamento do empreendimento e levamos inovação para o campo”, afirma Russana. Segundo ela, o olhar técnico do agente permite identificar melhorias, adaptar tecnologias à realidade local e fortalecer cadeias produtivas sustentáveis.
“A visita do agente faz toda a diferença”
Para Sebastiana, esse acompanhamento é tão importante quanto o recurso financeiro. “A visita dos agentes é muito importante. Não deixa a gente esquecer de pagar em dia e perder o bônus que temos direito”, diz.
Produtora de hortaliças orgânicas, ela conta que a escolha pela agroecologia veio antes do crédito, mas só se consolidou depois. “No começo foi difícil, sem recurso. Depois do crédito, a coisa melhorou bastante.”
Com mais segurança produtiva, Sebastiana agora pensa no futuro. “Quero ampliar a horta, abrir novos pontos de venda e melhorar ainda mais a renda da minha família”, projeta.

Escala, mulheres e jovens: o desafio de 2026
Para 2026, o Banco do Nordeste projeta consolidar a expansão das unidades de atendimento, garantindo que o crédito orientado chegue fisicamente às periferias urbanas e às comunidades rurais antes desassistidas. A digitalização, por meio do aplicativo Crediamigo, também é vista como vetor estratégico, embora o banco reconheça os desafios da exclusão digital.
As mulheres seguem como público prioritário. “Elas têm papel central na economia informal e rural”, afirma Heberth Caires. O banco aposta na expansão do Crediamigo Delas, linha exclusiva para empreendedoras.
Entre os jovens, o desafio é a falta de histórico de crédito. A expectativa é ampliar a integração com o programa federal Acredita no Primeiro Passo, facilitando o acesso ao primeiro financiamento. No campo, iniciativas como o Agroamigo Jovem, o Agroamigo Agroecologia e linhas voltadas à sustentabilidade seguem como prioridade.
“O desafio é crescer mantendo a qualidade da orientação, que é o pilar do programa”, resume Caires.
Agroamigo e Crediamigo em números
Criados como políticas de inclusão financeira do Banco do Nordeste, os programas Crediamigo e Agroamigo formam hoje a maior rede de microcrédito produtivo e orientado da América Latina.
O Crediamigo é o maior programa de microcrédito urbano do Brasil, com foco em pequenos empreendedores formais e informais. Opera com metodologia baseada em crédito produtivo, orientação financeira e acompanhamento presencial, apresentando baixos índices de inadimplência e forte impacto na geração de renda e formalização.
O Agroamigo, criado em 2005, chega aos 20 anos como o maior programa de microcrédito rural da América do Sul. Em duas décadas, já financiou mais de R$ 44 bilhões em operações voltadas à agricultura familiar, com índices de adimplência próximos de 98%. O programa atende agricultores familiares enquadrados no Pronaf, com prioridade para mulheres, jovens rurais e cadeias produtivas sustentáveis, como a agroecologia.
Juntos, Crediamigo e Agroamigo consolidam o microcrédito como política pública estruturante, capaz de transformar números em desenvolvimento real, fortalecer territórios e reposicionar o Nordeste como referência nacional em inclusão produtiva.


