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9 de fevereiro de 2026 14:08

Como Pernambuco prepara o saneamento para o capital privado

Como Pernambuco prepara o saneamento para o capital privado

Financiamento da Agência Francesa de Desenvolvimento fortalece a produção de água e pode reduzir perdas no momento em que o estado separa a Compesa da distribuição, criando um cenário mais previsível para investidores
Foto: Wikipedia

A Compesa, estatal de saneamento de Pernambuco, acaba de contratar um financiamento de 200 milhões de euros (cerca de R$ 1,2 bilhão) com a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD). Oficialmente, o objetivo é ampliar e modernizar a oferta de água para cerca de 5 milhões de pessoas no estado.

O contexto em que o dinheiro chega é estratégico para o governo de Pernambuco, que está redesenhando o modelo de operação do saneamento. A Compesa deixa de atuar como operadora ponta a ponta e passa, agora, a se concentrar na produção e no tratamento da água (o chamado upstream), enquanto a distribuição e os serviços de esgotamento sanitário (conhecido como downstream) ficarão a cargo de concessionárias privadas, contratadas por meio de concessões regionais.

Segundo analistas do setor, na prática, o investimento público com financiamento internacional entra para reduzir os riscos técnicos e operacionais do trecho que continua sob controle estatal, tornando o restante da cadeia mais previsível e financeiramente atrativo para o investidor privado.

O financiamento está estruturado dentro do programa +Água Pernambuco, que reúne 23 subprojetos organizados em três grandes frentes: ampliação da oferta de água, com modernização de sistemas produtores, captações, adutoras e estações de tratamento; redução de perdas e eficiência operacional, com telemetria, automação, setorização de redes, controle de pressão e eficiência energética; e fortalecimento institucional, centrando nos estudos, auditorias, assistência técnica e melhorias de governança.

“Esse último eixo, menos visível para a população, é especialmente relevante para o mercado. Governança, planejamento e capacidade de execução pesam diretamente na avaliação de risco feita por investidores e financiadores de projetos de infraestrutura”, explica o professor de Políticas Públicas da Universidade Federal do ABC, Erik Góes.

Água morro abaixo, negócios mais baratos

Pernambuco convive com índices elevados de perdas de água na distribuição, acima de 40% em parte dos sistemas. Em termos econômicos, isso se traduz em mais custo de energia e insumos para produzir água que não gera receita, maior pressão por reajustes tarifários e mais instabilidade operacional, explica o professor. “Para concessionárias privadas, perdas altas comprometem a capacidade de gerar caixa e elevam o custo de capital, já que bancos e fundos passam a exigir mais garantias.”

Foto: Divulgação

Por outro lado, quando a estatal investe antes em telemetria, automação e setorização, ela cria as condições para que as concessionárias consigam, mais rapidamente, reduzir a chamada água não faturada (NRW), um dos indicadores mais monitorados em contratos de saneamento.

A ideia, de acordo com a estatal, é que as melhorias deem mais previsibilidade de receita, cumprimento de metas contratuais, e aumente o valor econômico da concessão. No novo modelo, a Compesa permanecerá responsável pela captação, adução, tratamento, entrega de água em volume e qualidade adequados às redes de distribuição.

Para quem vai assumir o downstream, isso funciona quase como uma garantia operacional indireta. Ou seja, sem oferta estável de água, não há como cumprir metas de universalização nem manter a saúde financeira do contrato.

“Ao reforçar sistemas produtores e reduzir gargalos estruturais, o financiamento da AFD atua exatamente onde o risco sistêmico é maior, e onde falhas impactariam diretamente os contratos privados”, afirma Góes.

Quanto maior o investimento, menor o risco

O modelo de concessões regionais em Pernambuco prevê contratos de longo prazo, com divisão do estado em blocos. As concessionárias ficam responsáveis pela expansão das redes, ligações domiciliares, coleta e tratamento de esgoto, e atendimento direto ao usuário.

Segundo dados divulgados pelo próprio governo estadual e pela Compesa após o leilão, os contratos preveem cerca de R$ 19 bilhões em investimentos privados ao longo do período de concessão, além de pagamento de outorgas ao estado.

O caso de Pernambuco ilustra uma dinâmica cada vez mais comum no saneamento brasileiro após o novo marco legal: o Estado investe pesado na infraestrutura básica e na redução de riscos, enquanto o setor privado entra na fase de operação, expansão comercial e universalização.

Do ponto de vista dos investidores, trata-se de um modelo mais confortável, com menos risco hidrológico e estrutural, mais foco em eficiência operacional e escala.

Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o saneamento, historicamente visto como um setor de retorno lento e alto risco político, vem ganhando espaço nas carteiras de grandes operadores, fundos de infraestrutura e bancos de desenvolvimento.

Em Pernambuco, o investimento público de R$ 1,2 bilhão funciona, na prática, como uma etapa de preparação do ativo antes da consolidação do novo mercado de concessões.

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