
O Nordeste se movimenta para capitalizar a vantagem regional de um ambiente que se adapta aos efeitos da crise climática e busca ocupar um espaço central na transição ecológica do país. O Consórcio Nordeste têm enfatizado que o território reúne vantagens naturais, como “o maior potencial brasileiro para energias renováveis”, a diversidade sociocultural e o conhecimento tradicional do semiárido. Isto transforma os biomas nordestinos, também, em um projeto político.
Neste cenário, o Consórcio assinou um memorando de cooperação com a Under2 Coalition durante a COP30. Criada em 2015, a organização compõe a maior coalizão global de governos subnacionais — estados, províncias e regiões — dedicada à ação climática. Ela reúne mais de 270 governos que representam cerca de 35% da economia mundial e tem como foco acelerar políticas de descarbonização, adaptação, financiamento climático e cooperação técnica entre territórios que enfrentam desafios semelhantes.
É a primeira parceria formal entre uma região brasileira e a rede. O consórcio afirma que, certamente, esta parceria abre espaço para a “cooperação técnica, planejamento climático e, sobretudo, maior acesso a financiamento verde”; hoje um dos maiores entraves para que estados e municípios coloquem de pé projetos de transição energética, infraestrutura resiliente e conservação de biomas. Jahzara Ona, ativista ambiental especializada em clima, afirma que, apesar do nordeste ter potencial saliente em sustentabilidade, “a falta de recursos e olhar que aborde, especificamente, questões regionais e potenciais locais” interfere no cenário de desenvolvimento.
Por que a parceria fortalece a Caatinga
A aproximação com a Under2 Coalition pode ter um impacto decisivo sobre a Caatinga, o único bioma exclusivamente brasileiro e também um dos mais vulneráveis ao avanço da crise climática. A região enfrenta secas mais severas, processos de desertificação e perda de biodiversidade; desafios que exigem recursos e soluções de longo prazo. A parceria amplia a capacidade do Nordeste de acessar fundos internacionais voltados à adaptação climática, restauração de ecossistemas e combate à desertificação, áreas em que a Caatinga é prioridade absoluta.
A proteção deste ecossistema, além de essencial para a preservação do meio ambiente nacional, é também ferramenta poderosa de estudo e capacidades de regeneração. Mesmo sendo um bioma semiárido, a Caatinga abriga mais de mil espécies endêmicas, que só existem ali. São plantas adaptadas à estiagem, animais resistentes ao calor extremo e ecossistemas que evoluíram ao longo de séculos para sobreviver em condições adversas. A perda do bioma significa extinção direta de espécies que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar.
Além disso, a flora da região têm papel fundamental na infiltração e retenção de água no solo. Mesmo em regiões de baixa chuva, elas ajudam a recarregar aquíferos, preservar nascentes e reduzir a erosão. Sem o bioma, o semiárido se torna ainda mais vulnerável a secas extremas.
A Under2 reúne governos que já desenvolvem projetos robustos de convivência com o semiárido e manejo sustentável de zonas áridas. Essa troca técnica pode acelerar experiências de reflorestamento com espécies nativas, implantação de cinturões verdes, sistemas de captação de água e tecnologias sociais criadas dentro do próprio semiárido brasileiro. Ao reforçar a credibilidade internacional do Consórcio, o memorando também ajuda a transformar a Caatinga em destino de investimentos estratégicos para a bioeconomia, agroecologia e energias limpas, setores que dependem diretamente da conservação do bioma.
O que é financiamento verde e por que ele importa ao Nordeste
Financiamento verde é o conjunto de mecanismos — crédito, fundos internacionais, títulos sustentáveis e linhas de investimento — voltados a iniciativas que reduzam emissões, ampliem energias limpas, protejam ecossistemas e fortaleçam a adaptação. Para o Nordeste, esses recursos são estratégicos, já que permitem expandir a energia solar e eólica, impulsionar a bioeconomia da Caatinga, fortalecer a economia circular, ampliar a segurança hídrica, iniciar processos de industrialização de baixo carbono e estruturar o setor de hidrogênio verde. O acordo com a Under2 também funciona como um “selo de confiança” ao atrair investidores estrangeiros, por inserir a região em uma rede que oferece capacitação, modelagem de projetos e acesso a editais multilaterais.
A COP30 e a construção de uma agenda nordestina para o clima
O memorando foi assinado no mesmo momento em que o Consórcio Nordeste lançou, em Belém, o Plano Brasil Nordeste de Transformação Ecológica (PTE-NE). O documento reúne 47 propostas e 324 ações voltadas à neoindustrialização verde, bioeconomia, expansão das renováveis, economia circular, proteção da Caatinga e segurança hídrica. A combinação desses movimentos reforça o esforço da região em se apresentar como laboratório de políticas climáticas e polo da economia verde.