O que antes era produção dispersa de cooperativas da agricultura familiar agora ocupa vitrines em um dos principais polos comerciais do Agreste alagoano. Um modelo socioeconômico baseado na união de pessoas que buscam compreender e suprir necessidades comuns, pensando no benefício coletivo. Essa é a base do cooperativismo. Em Alagoas, um exemplo de programa tem se destacado exatamente por ter o objetivo de trabalhar a economia criativa solidária no estado.
O Programa Alagoas + Cooperativa, lançado em 2024 pelo governo de Alagoas, superou a marca de R$ 150 mil em faturamento no exercício de 2025. “Mais do que o resultado financeiro em si, trata-se de uma evidência de maturidade do modelo, validação de mercado e fortalecimento de cadeias produtivas organizadas sob a lógica do cooperativismo e do associativismo”, destaca Domício Farias, gerente de Cooperativismo e Associativismo na Secretaria de Estado do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços de Alagoas (SEDICS).

Luciana Guilherme, professora do Programa de Pós-graduação em Economia Criativa, Estratégia e Inovação da ESPM Rio, explica que o conceito de economia criativa nasce da compreensão da cultura e da criatividade como elementos centrais para a geração de valor de bens e serviços produzidos por setores culturais e criativos, sejam do campo das artes, do patrimônio, das mídias ou das criações funcionais. “É uma economia que se distingue, portanto, dos modelos produtivos tradicionais por integrar arte, cultura, criatividade e inovação dentro de articulações em redes de agentes nos territórios.”
Farias reforça que no contexto da estratégia de desenvolvimento econômico de Alagoas, o Armazém se insere como instrumento de diversificação produtiva, agregação de valor e fortalecimento do mercado interno. “O Governo do Estado tem adotado uma abordagem integrada, na qual a economia solidária e a agricultura familiar deixam de ocupar papel periférico e passam a compor a agenda estruturante de desenvolvimento, alinhada à geração de emprego, à formalização e ao fortalecimento das cadeias locais.”
Com o objetivo de tornar mais estratégico, ampliar vendas e gerar renda, em janeiro de 2025, a Secretaria ampliou e reabriu o mercado que reúne os produtos no Partage Arapiraca Shopping, um dos principais polos comerciais do Agreste. O novo espaço foi pensado para aumentar a visibilidade dos produtos, conectando as organizações coletivas e os empreendimentos da economia solidária a um público consumidor mais amplo e diversificado.
A professora aponta que iniciativas como a do Armazém Alagoas + Cooperativa são fundamentais tanto na dimensão social quanto nas dimensões cultural e econômica. “O Armazém funciona como um grande hub integrador de organizações associativas de diversas regiões do Estado, promovendo tanto a valorização e a visibilidade de produtos resultantes de saberes e fazeres tradicionais quanto a distribuição e comercialização desses produtos numa plataforma que se estabelece em espaços privilegiados e de fácil acesso para os consumidores.” A especialista da ESPM comenta que a distribuição e a comercialização de produtos artesanais e da agricultura familiar são sempre um gargalo para esses produtores e o Armazém vem preencher essa lacuna, projetando a riqueza cultural do estado simultaneamente.

“Alagoas tem dado uma aula de cooperativismo que reconhece as potencialidades produtivas – e isso tem uma relação direta com o que são as nossas tradições de produção de alimento e de saber”, é o que avalia Antonino Cardozo, líder cooperativista de destaque em Alagoas, presidente da Unicafes-AL (União das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária de Alagoas) e da Coopaiba (Cooperativa dos Agricultores Familiares e dos Empreendimentos Solidários).
O governo do estado tem articulado de forma transversal a integração de políticas públicas com economia criativa, agricultura familiar e economia solidária em um ecossistema coordenado. Farias diz que isso se materializa por meio de circuitos de feiras, espaços fixos de comercialização, capacitações técnicas, apoio à formalização, estímulo ao design de produto, inserção em novos mercados e parcerias institucionais estratégicas. “A diretriz é clara: integrar produção, gestão e mercado, garantindo escala e previsibilidade.”
Cardozo comenta que percebem um aumento na demanda. “Houve não só aumento de procura como diversificação. A gente, por exemplo, não tinha a unidade de produção de cocada, hoje tem.” O líder aponta que encontraram uma oportunidade de setorizar e especializar alguns grupos de Cooperativas. Divididas, por exemplo, por artesanato, comidas típicas, produtos segmentados.
“Em síntese, o projeto não é apenas um ponto de venda; é uma política pública estruturante que conecta organização coletiva e mercado, consolidando um modelo que combina eficiência econômica com responsabilidade social”, comenta Domício.
Para Luciana, a economia criativa só é potente e vetor de desenvolvimento se estiver integrada à sustentabilidade territorial.
Planos de expansão

A Secretaria afirma que há perspectiva concreta de interiorização e expansão do modelo, priorizando regiões com maior densidade de empreendimentos da agricultura familiar, cooperativas formalizadas e vocação produtiva consolidada. De acordo com Farias, os critérios considerados incluem organização social pré-existente, capacidade produtiva instalada, potencial de mercado, articulação territorial e aderência às cadeias estratégicas do Estado. “A lógica é expandir com responsabilidade, garantindo sustentabilidade operacional e viabilidade econômica — crescimento com lastro, não apenas ampliação geográfica.”
Atualmente, encontram-se em estágio avançado as tratativas para a abertura de uma unidade do programa no município de Delmiro Gouveia. Paralelamente, há articulação para implantação de novo espaço de comercialização em Arapiraca e diálogo institucional em curso com a Prefeitura de Coruripe, visando à ampliação estruturada do modelo.
Para Domício, os principais desafios para transformar iniciativas cooperativistas em negócios sustentáveis e escaláveis concentram-se na gestão, acesso a mercado, capital de giro, padronização de produtos e governança interna. “Muitas organizações possuem forte capital social, mas carecem de estrutura gerencial e planejamento estratégico.” O representante da SEDICS diz que o Estado atua em múltiplas frentes: oferta de capacitação em gestão e comercialização, apoio técnico continuado, articulação com instituições de fomento, estímulo ao acesso ao crédito orientado e promoção de ambientes de comercialização estruturados. “A meta é profissionalizar sem descaracterizar a identidade coletiva.”