Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
31 de março de 2026 09:51

Cultura, controvérsias e clima extremo marcam a COP no coração da Amazônia

Cultura, controvérsias e clima extremo marcam a COP no coração da Amazônia

Entre ativações de marcas, debates sobre justiça climática e episódios que expuseram vulnerabilidades da cidade-sede, a COP que levou o mundo à Amazônia deixou um saldo complexo, e um Brasil mais protagonista na agenda ESG global
O presidente Lula na COP30 | Foto: Bruno Peres/Agência Brasil

A COP30 chegou a Belém como um acontecimento histórico antes mesmo de começar. Não era apenas mais uma Conferência do Clima, mas a primeira realizada no coração da Amazônia, território simbólico e estratégico na luta mundial contra o aquecimento global. Com delegações de todos os continentes, chefes de Estado, ativistas, cientistas, marcas e movimentos sociais, a cidade paraense se transformou por duas semanas em uma vitrine global e também em espelho de suas próprias contradições.

Desde o desembarque no aeroporto de Val-de-Cans, os sinais de que esta COP seria diferente estavam por toda parte. No voo rumo a Belém, participantes receberam cremes hidratantes da Natura, que protagonizou uma das ativações de marca mais comentadas da conferência. Na Green Zone, a empresa reforçou sua imagem alinhada à biodiversidade amazônica com experiências e distribuição de produtos, como protetores solares. A presença ativa de patrocinadores, antes vista com mais cautela em edições anteriores, refletiu um novo momento: a aproximação estratégica entre grandes companhias e ESG em um evento global que, cada vez mais, transborda os limites do multilateralismo. 

Mas se as marcas vieram com força, a sociedade civil também. Logo nos primeiros dias, um dos episódios mais marcantes da COP30 colocou o foco nos povos originários. Em protesto contra retrocessos ambientais e exigindo centralidade na tomada de decisões sobre suas terras, indígenas de diversas etnias, manifestantes carregando bandeiras de coletivos estudantis e faixas de protesto contra a exploração de petróleo invadiram a Blue Zone (área de negociações oficiais). A cena virou símbolo da tensão entre diplomacia e urgências socioambientais. Para lideranças indígenas, não bastava sediar a conferência na Amazônia, era preciso ouvi-la. 

A Marcha Global Saúde e Clima também foi destaque. Cerca de 3 mil pessoas participaram da caminhada em um percurso de 1,5 km. A Marcha teve início na Avenida Duque de Caxias e seguiu até a sede da COP30. Médicos, enfermeiros, estudantes, lideranças indígenas e representantes de movimentos sociais pediam políticas de saúde pública.

Nos pavilhões e áreas temáticas, a experiência da COP30 ganhou cores e sons locais. Quem circulava pelos corredores encontrava uma mistura rara entre conferência internacional e festival cultural. Havia painéis sobre descarbonização, bioeconomia, restauração florestal e adaptação climática; estandes com produtos típicos do Pará, do açaí à farinha de Bragança; oficinas, rodas de conversa e apresentações de Carimbó que atraíam desde diplomatas a jovens ativistas. A Amazônia, pela primeira vez, parecia não ser apenas objeto de discussão, era anfitriã, narradora e protagonista.

Ponto de virada

O evento consolidou também uma virada importante para o Brasil. Em seus discursos, o país se apresentou como líder disposto a assumir papel ativo na agenda ESG global. Governadores da Amazônia Legal, ministérios, empresas e organizações aproveitaram a vitrine para lançar compromissos, firmar parcerias e reforçar a ambição climática. Nos bastidores, diplomatas avaliaram que o país saiu do evento como um dos articuladores centrais de uma coalizão “verde” do Sul Global.

Ainda assim, o brilho da conferência dividiu espaço com episódios que expuseram as fragilidades da cidade-sede, e da própria organização do evento. Um dos temas mais comentados durante a COP não veio dos discursos, mas do céu. Na maioria dos dias, o calor extremo durante todo o dia fazia a população usar leques, guarda-chuva para se proteger do sol e muita água para se hidratar. No entanto, geralmente no período da tarde, chuvas intensas transformavam ruas em rios, derrubavam estruturas provisórias e obrigavam participantes a buscar abrigo. As enxurradas inundaram trechos do evento e geraram um debate imediato: como realizar uma conferência sobre clima em um território vulnerável às mudanças climáticas sem considerar a própria resiliência urbana?

O episódio mais grave ocorreu no penúltimo dia da conferência, quando um incêndio atingiu parte da Blue Zone. Embora controlado rapidamente, o incidente provocou correria, evacuação temporária e uma onda de preocupações sobre a segurança das estruturas. Nas redes sociais, vídeos mostravam fumaça densa e participantes deixando o local em ritmo acelerado. A organização minimizou os danos, afirmando que a situação estava sob controle, mas o evento alimentou críticas de parte da imprensa e das delegações quanto aos preparativos para receber uma conferência dessa magnitude.

Mesmo com os percalços, a sensação predominante ao fim da COP30 foi a de que algo inédito havia acontecido. A experiência amazônica trouxe potência, estética, diversidade e, principalmente, urgência às negociações climáticas. A presença expressiva de juventudes amazônicas, quilombolas, ribeirinhos e cientistas regionais ampliou o debate sobre justiça climática e sobre quem deve liderar a transição para um futuro sustentável.

A cidade de Belém, apesar das dificuldades, saiu maior do que entrou. A hospitalidade local, a forte presença cultural e a forma como a população abraçou o evento fizeram da COP30 mais do que uma conferência: fizeram dela uma experiência viva da Amazônia profunda. Hotéis lotados, restaurantes cheios na Estação das Docas, ruas pulsantes, passeios na Ilha do Combú – por alguns dias, a capital paraense se tornou centro do mundo, em uma mistura improvável de diplomatas, ativistas, empresários e turistas encantados com o Norte brasileiro.

Ao se despedir da COP, Belém deixa lições importantes. De um lado, mostrou ao planeta a força cultural e ambiental da Amazônia, seu protagonismo estratégico e seu potencial para liderar novas economias sustentáveis. De outro, expôs vulnerabilidades que exigem planejamento urbano, investimentos e políticas públicas compatíveis com o desafio climático já em curso. A conferência terminou, mas o recado permanece: a Amazônia não é apenas palco, é personagem essencial da história climática do século.

A COP30, enfim, não foi perfeita. Mas foi intensa, simbólica, diversa e, sobretudo, reveladora. E talvez seja justamente isso que fará esta edição entrar para a memória coletiva, não apenas pelos acordos firmados, mas pela forma como colocou o mundo dentro da Amazônia, e a Amazônia dentro do mundo.

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

Ufal 1
Agro
Porto deItaqui
IMG-20231016-WA0037
marinha mercante
Justiça do trabalho
Documento mapa
China e Sudene
Expo sabores
Paulo dantas 2

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }