
O Brasil registrou rendimento domiciliar per capita de R$ 2.316 por mês em 2025, o maior patamar da série recente, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgados pelo IBGE. O crescimento nominal de 11,9% em relação a 2024 reflete um mercado de trabalho aquecido, a taxa de desemprego fechou o ano em 5,6%, a menor da história da série, iniciada em 2012, mas esconde uma realidade mais complexa: dentro do Nordeste, estados vizinhos trilham caminhos opostos.
Sergipe e Piauí figuram entre os destaques positivos da região. O estado sergipano registrou o maior avanço percentual do Nordeste, com crescimento de 15,2% na renda domiciliar per capita, que saltou de R$ 1.473 em 2024 para R$ 1.697 em 2025, posicionando Sergipe como o segundo maior rendimento da região. Para Michele Doria, gerente de Estudos Socioeconômicos do Observatório de Sergipe, o resultado é animador. Ela avalia que o crescimento indica melhora na renda média das famílias sergipanas e reflete um cenário de aquecimento econômico no estado, com impactos positivos no consumo e nas atividades locais — ainda que os valores sejam nominais e não considerem os efeitos da inflação.
O Piauí também surpreendeu. Com alta de 14,5%, a renda domiciliar per capita piauiense passou de R$ 1.350 para R$ 1.546, permitindo ao estado superar cinco unidades do Nordeste e três do Norte no ranking nacional. O governador Rafael Fonteles comemorou o resultado e reafirmou o compromisso com ações nas áreas de educação, qualificação profissional e atração de investimentos. “Vamos continuar trabalhando forte, em conjunto com o setor produtivo, para melhorar a renda do nosso povo e superar a média nacional em poucos anos”, afirmou.
O desempenho de ambos os estados contrasta com o da Bahia, maior economia do Nordeste e que, paradoxalmente, apresentou um dos piores desempenhos relativos do país em 2025. O rendimento domiciliar per capita baiano cresceu apenas 7,2% no período, passando de R$ 1.366 para R$ 1.465 — um acréscimo nominal de R$ 99, abaixo do salário mínimo vigente de R$ 1.518. Como consequência, a Bahia recuou duas posições no ranking nacional, passando do 20º para o 22º lugar, e perdeu terreno também dentro do Nordeste, caindo da 5ª para a 6ª posição regional, justamente em razão do avanço mais acelerado do Piauí.
O crescimento baiano de 7,2% colocou o estado na 23ª posição entre todas as unidades da Federação em termos de variação percentual — entre os cinco menores crescimentos do país. Em valores absolutos, o acréscimo de R$ 99 ficou acima apenas de Mato Grosso, Pará e Alagoas. A distância em relação à média nacional também se ampliou: enquanto o Brasil cresceu 11,9%, a Bahia avançou pouco mais da metade desse ritmo.
O cenário reforça uma característica histórica do Brasil: a persistência de desigualdades regionais profundas, mesmo em anos de expansão econômica generalizada. Em 2025, todas as 27 unidades da Federação registraram crescimento nominal da renda domiciliar per capita, mas o ritmo desigual fez com que os mais lentos perdessem posição relativa. No extremo superior do ranking, o Distrito Federal lidera com R$ 4.538 mensais per capita, seguido por São Paulo (R$ 2.965) e Rio Grande do Sul (R$ 2.839). Na outra ponta, o Maranhão registra o menor rendimento do país, R$ 1.219, seguido por Ceará (R$ 1.390) e Acre (R$ 1.392).
Os dados da Pnad Contínua têm também relevância institucional direta: são enviados pelo IBGE ao Tribunal de Contas da União e utilizados como critério para a distribuição do Fundo de Participação dos Estados (FPE), principal mecanismo de transferência de recursos da União para os governos estaduais.
O que os números de 2025 deixam evidente é que crescer não é suficiente. É preciso crescer mais rápido do que os demais. No Nordeste, enquanto Sergipe e Piauí mostram que é possível avançar de forma acelerada mesmo em contextos desafiadores, a Bahia serve de alerta: em um cenário em que todos sobem, quem sobe menos acaba ficando para trás.