
Com R$ 16 bilhões autorizados para o descomissionamento de plataformas e cerca de US$ 5 bilhões previstos no projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), Sergipe se posiciona para ampliar investimentos na cadeia de petróleo e gás. Um estudo da FGV Energia aponta que o estado reúne condições logísticas, estruturais e de localização para atrair empresas ligadas à desativação de ativos offshore e consolidar novos negócios no setor energético.
De acordo com a análise, Sergipe apresenta requisitos de infraestrutura e posicionamento geográfico que favorecem a competição entre fornecedores e a diversificação da cadeia de suprimentos necessária para as operações offshore. O estudo foi contratado pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de Sergipe (Agrese) e pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec).
O diretor da câmara técnica de gás da Agrese, Douglas Costa, afirma que o estudo identifica vantagens logísticas importantes para o estado. “A cadeia de formação de mão de obra, com instituições de formação superior e técnica com reconhecimento nacional e a presença de rios navegáveis também corrobora com esse potencial de Sergipe”, aponta.
Para que esse potencial se converta em atividade econômica, o especialista analisa a necessidade de ampliar a capacitação técnica e estruturar a cadeia produtiva associada às operações offshore.
A fim de que esse processo seja efetivamente capitalizado, Costa avalia a necessidade da aquisição de know how em ações de atividades offshore, cenário que demanda articulação administrativa eficiente, com a atração de empresas de engenharia especializadas, prestadores de serviços certificados, e o desenvolvimento de sistemas ambientais plenamente licenciados.
“A criação de tal ecossistema pode fazer de Sergipe um grande polo para etapas do descomissionamento das plataformas de sua costa e futuramente ter condições de atender a todos as etapas, podendo inclusive realizar o descomissionamento de infraestruturas da costa de outros estados”, destaca.

Desativação de plataformas cria nova fronteira de negócios
O Brasil atravessa um período de transição na indústria offshore. Em 2025, o país contabilizava 197 instalações em operação no mar, das quais 72 já estavam desativadas. Nesse contexto, o descomissionamento passou a representar uma demanda concreta da indústria.
Na Bacia Sergipe-Alagoas, 26 plataformas deverão ser desativadas nos próximos anos. A Petrobras prevê investir mais de R$ 7,4 bilhões até 2029 na retirada de ativos no estado. O investimento total autorizado para essa atividade pode chegar a R$ 16 bilhões, valor que tende a atrair empresas especializadas e novos fornecedores para a cadeia de serviços ligados ao desmonte e à remoção de estruturas offshore.
Esse processo envolve desmontagem de equipamentos, retirada de instalações, destinação de resíduos e recuperação ambiental das áreas afetadas.
O secretário de Estado do Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia, Valmor Barbosa, afirma que a desativação das plataformas representa uma oportunidade relevante para ampliar a atividade econômica local.
“Esse processo mobiliza atividades especializadas, desde a desmontagem e destinação adequada de materiais até operações logísticas e ambientais, impulsionando a economia local. Além disso, iniciativas como a revitalização do estaleiro Porto das Redes, em Santo Amaro das Brotas, tendem a ampliar ainda mais esse potencial, criando novas oportunidades industriais e consolidando Sergipe como um polo estratégico para operações offshore no país”, avalia Barbosa.
Com duração estimada de cerca de dez anos, a atividade também tende a estimular a qualificação da mão de obra, a interiorização do desenvolvimento e a atração de novos operadores e prestadores de serviço.

Estratégia energética e sinergia com o mercado de gás
O diretor-presidente da Agrese, Luiz Hamilton Santana de Oliveira, afirma que os estudos desenvolvidos pela agência buscam subsidiar políticas públicas voltadas ao desenvolvimento do setor energético.
Segundo ele, a agenda de descomissionamento pode gerar sinergia com outros projetos estruturantes em andamento no estado.
“Os estudos apontam que a agenda do descomissionamento, pela natureza da atividade, pode alcançar sinergia com o comissionamento do SEAP 1 e SEAP 2, e com outras atividades que tem grande potencial para ocorrer em Sergipe, a exemplo da possibilidade de uma segunda termelétrica”, afirma.
Ele também aponta oportunidades industriais associadas à ampliação da oferta de gás natural. “Associando essas atividades que são ativas no consumo de gás, com outras já existentes, a exemplo da planta de fertilizantes que voltou a operação, observa-se todo um contexto econômico em franco desenvolvimento”, destaca.
Costa acrescenta que a agência também tem atuado na modernização do marco regulatório do setor de gás no estado.
“Foi realizada a reformulação do Regulamento dos Serviços Locais de Gás Canalizado, tornando-o um dos mais alinhados à nova Lei do Gás nacional. Também propusemos ao Governo do Estado medidas para modernizar o contrato de concessão da distribuidora de gás, após amplo processo de participação social conduzido pela agência. Essas ações, somadas à regulamentação de novos modais e agentes do mercado, permitiram que o mercado livre de gás se tornasse realidade em Sergipe e viabilizasse empreendimentos como a termelétrica e a planta de fertilizantes”, detalha.
“Desta forma, a Agrese entende que a associação entre os estudos de descomissionamento, que apontam para a construção de um forte polo de economia do mar, e o hub de energia aqui existente contribuem para o novo marco de desenvolvimento do Estado com efeito sobre toda economia nacional”, finaliza Costa.

A Fundação Getulio Vargas também elaborou análises de viabilidade para a implantação da Universidade Estadual de Sergipe (Unese), criada por lei estadual aprovada em dezembro. A previsão é que o concurso público para docentes e servidores ocorra no segundo semestre de 2026, com a realização do primeiro vestibular até o final deste ano.
A expectativa é que a nova instituição contribua para a formação de profissionais alinhados às demandas de setores estratégicos da economia estadual, especialmente nas áreas de energia, petróleo e gás.
Como Sergipe prepara sua expansão energética
Investimento e infraestrutura de gás
Sergipe tem ampliado sua infraestrutura energética para sustentar a expansão da cadeia de petróleo e gás no estado. O projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), desenvolvido pela Petrobras, prevê investimento de aproximadamente US$ 5 bilhões e tem início de produção estimado para 2030.
Além disso, foi concluída em 2024 a conexão do terminal de GNL da Usina Termoelétrica Porto de Sergipe I à rede da Transportadora Associada de Gás (TAG). O gasoduto possui capacidade de transporte de 14 milhões de metros cúbicos de gás por dia, ampliando o potencial de abastecimento para Sergipe e outros estados do Nordeste.
Paralelamente, está em desenvolvimento o Hub de Gás de Sergipe, iniciativa que busca coordenar investimentos na cadeia do gás natural. O projeto prevê estruturas como estocagem subterrânea, planta de liquefação e possíveis investimentos em refino, com o objetivo de consolidar o estado como um polo estratégico do setor.
Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP)
O projeto Sergipe Águas Profundas representa uma nova fronteira de exploração de petróleo e gás no país. Quando estiver em operação, o sistema deverá disponibilizar ao mercado cerca de 240 mil barris de petróleo por dia e 18 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia.
Localizado na Bacia Sergipe-Alagoas, o projeto está dividido em dois módulos:
- SEAP 1: integra jazidas dos campos de Agulhinha, Agulhinha Oeste, Cavala e Palombeta;
- SEAP 2: reúne jazidas dos campos de Budião, Budião Noroeste e Budião Sudeste.
Após adiamentos, o processo de contratação das duas plataformas FPSO foi concluído no modelo BOT (build, operate and transfer). Nesse formato, a empresa vencedora constrói e opera as unidades por um período inicial antes da transferência definitiva para a Petrobras.
No fim de novembro, a Petrobras validou a proposta técnica da holandesa SBM Offshore para construir e operar os dois navios-plataforma responsáveis pela produção nos módulos SEAP 1 e SEAP 2.
A proposta foi considerada a mais competitiva entre as apresentadas na licitação, superando as empresas Shapoorji (Índia) e Modec (Japão). O projeto permanece no Plano Estratégico 2026–2030 da Petrobras, com previsão de início de produção em 2030.