Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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9 de fevereiro de 2026 13:39

Do caroço à xícara: o “café de açaí” feito em Sergipe que busca seu espaço

Do caroço à xícara: o “café de açaí” feito em Sergipe que busca seu espaço

Produzida no litoral sergipano, a bebida feita a partir do caroço do açaí chega ao mercado como alternativa funcional, sem cafeína, e quer conquistar consumidores no Brasil e no exterior

Há quem torça o nariz diante da novidade. Em uma publicação sobre o produto na plataforma do Facebook, um comentário dispara: “Querem nos enfiar cada coisa, isso aí não é café não, café é café.” Mas, para o veterinário e produtor rural Alex Monteiro Gomes Ferreira, radicado em Aracaju (SE), a proposta é outra. Não se trata de substituir o tradicional café brasileiro, arraigado na memória afetiva e no paladar nacional, e sim de oferecer uma nova opção — sustentável, funcional e, acima de tudo, inclusiva.

A bebida, feita a partir do caroço do açaí, apresenta visual semelhante ao do café comum e pode ser preparada do mesmo modo. Mas guarda uma diferença crucial: não contém cafeína. “A ideia do café de açaí é ser uma opção a mais, principalmente para quem não pode tomar café com cafeína. É um produto que traz benefícios para a saúde e que dispensa açúcar”, diz Alex.

Com sabor suave e propriedades antioxidantes, o chamado “café de açaí” se insere no crescente mercado de alimentos funcionais e produtos voltados ao bem-estar — um nicho em franca expansão no Brasil e no mundo. Ainda assim, o caminho até a consolidação é desafiador. “O desafio atual é colocá-lo no mercado, se estabelecer. Muitas pessoas ainda não conhecem, e a gente não tem a pretensão de substituir o café”, afirma o produtor.

Frutos de açaí, fonte da matéria-prima para a produção sustentável do café feito a partir dos caroços | Foto: Alex Monteiro Gomes Ferreira – Acervo pessoal

Uma ideia que nasceu do que sobra

O embrião da ideia surgiu a partir de uma lógica simples: reaproveitar tudo o que a propriedade familiar pode oferecer. Para Alex, que conduz uma produção de pequeno porte e, aproveitar integralmente os recursos disponíveis nunca foi apenas uma escolha, mas uma necessidade.

“A ideia de aproveitar o caroço de açaí sempre existiu, porque a nossa propriedade é pequena. Eu teria que tirar ao máximo o aproveitamento de tudo o que a gente tem dentro da propriedade”, explica.

Essa lógica de reaproveitamento dialoga com princípios da agroecologia e da bioeconomia, conceitos que vão muito além de modismos sustentáveis: representam um modelo de produção ancorado no equilíbrio com o ambiente, no conhecimento tradicional e na valorização da vida no campo. O coordenador de agroecologia da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro-SE)., Waltenis Braga, resume bem: a agroecologia propõe uma agricultura baseada em princípios ecológicos e sociais.

“No contexto de Sergipe, e com o Nordeste não é diferente, isso significa o uso de recursos locais, como a redução da dependência de insumos externos, como fertilizantes e agrotóxicos, conhecimento sobre manejo sustentável da terra e diversificação da produção, que evita a monocultura e fortalece a segurança alimentar, além de abrir novos mercados”, comenta Braga.

Seguindo essa lógica, considera Braga, o produtor pode diversificar sua renda, reduzir custos e se tornar mais resiliente frente às mudanças do clima e do mercado.

Onde uns veem lixo, outros enxergam oportunidade

Tanto Alex quanto o técnico da Emdagro concordam em um ponto essencial: é preciso reaprender a olhar para os resíduos. No caso do açaí, o caroço representa cerca de 80% a 90% do fruto e, na maior parte das vezes, é descartado sem tratamento.

Braga destaca que existem diversas formas de aproveitamento desse resíduo. Pode-se, por exemplo, transformá-lo em carvão vegetal ecológico, alternativa ao carvão de madeira, com menor emissão de poluentes quando produzido com técnicas adequadas. Outra possibilidade é o uso como substrato para viveiros, servindo como base para o cultivo de mudas nativas.

Para Alex, essa questão vai além da inovação: trata-se de enfrentar um problema ambiental crônico. “Então, quando você despolpa o açaí, o caroço é um problema ambiental — porque a quantidade que é despolpada por dia em Belém é mais ou menos como o coco verde aqui no Nordeste: o pessoal toma a água e fica aquele subproduto ali que não tem onde colocar e se acumula nos lixões. O caroço do açaí também, proporcionalmente, é a mesma coisa”, compara o produtor.

Ao criar o café alternativo a partir desse material abundante e subestimado, ele transforma passivo em ativo. “Dessa forma, a gente ajuda a dar destino, tira esse problema de você ter uma grande quantidade de resíduos sem nenhuma finalidade e agrega valor ao produto”, diz.

Braga reforça: transformar o que antes era descarte em um item de valor é o primeiro passo para fortalecer arranjos produtivos locais e fomentar uma nova economia, de base regenerativa.

“Ao combinar práticas agroecológicas com o aproveitamento inteligente de resíduos como o caroço de açaí, é possível transformar passivos ambientais em ativos econômicos, fortalecendo a autonomia, a renda e a dignidade dos pequenos produtores no Nordeste”, afirma o coordenador.

Caroços de açaí, normalmente descartados, que ganham nova vida na transformação em uma bebida funcional e sem cafeína | Foto: Alex Monteiro Gomes Ferreira – Acervo pessoal

O caminho da inovação é feito de tentativas

Mas tudo que é inovador carrega consigo o peso de ser, justamente, novo. Sem trilhas percorridas, sem garantias, sem manual. Alex lembra que desenvolver o café de açaí foi, de fato, um grande desafio. Quando descobriu que havia essa possibilidade, mal havia referências confiáveis, tampouco estudos prontos ou receitas a seguir.

“Foi um ano e meio de testes e a gente chegou até chegar no nosso produto hoje, que é um produto que, graças a Deus, tem uma excelência de estar tendo aprovação do mercado”.

A pesquisa foi feita a partir da experimentação direta, do diálogo com quem se dispôs a embarcar na novidade e da insistência de quem acredita no que está criando. “Como quase não havia literatura ou experiências anteriores, fomos testando, ajustando as torras e trocando ideias com algumas pessoas dispostas a nos ajudar — inclusive baristas, que se interessaram pela novidade e quiseram experimentar essa proposta diferente”, conta.

Foram muitos testes até encontrar o ponto ideal: o tempo certo de torra, o sabor equilibrado, o aroma que remete ao café sem imitá-lo. Era preciso descobrir, na prática, o caminho entre o caroço e a xícara.

O sabor da descoberta

O esforço valeu a pena. Hoje, Alex colhe não apenas os frutos, mas também se beneficia dos pacotes e das xícaras de uma bebida que entrega mais do que sabor: oferece propriedades funcionais reconhecidas pela ciência.

“Estudos realizados pela UFPA e pela UFRJ comprovaram que o caroço do açaí concentra, em grande quantidade, propriedades também encontradas na polpa — especialmente flavonoides e antioxidantes. Essas substâncias auxiliam no controle da glicemia e da pressão arterial, tornando o produto uma opção funcional para quem busca mais saúde no dia a dia”, destaca.

Apesar do nome, o café de açaí não reproduz o sabor amargo do café tradicional. Ao contrário, é naturalmente suave, o que permite o consumo sem açúcar — mais um ponto a favor da saúde.

“Ou seja, você já evita o consumo de açúcar e, por consequência, aproveita as propriedades funcionais do café de açaí, que contribuem para a saúde. Além disso, por não conter cafeína — substância que, embora tenha seus benefícios, pode causar efeitos negativos em quem consome em excesso —, a bebida se destaca justamente por esse diferencial no cuidado com o bem-estar”, diz.

Entre erros, descobertas e copos cheios de novas possibilidades, Alex prova que inovação também pode ter gosto de cuidado — com a saúde, com o ambiente e com o futuro do campo.

Um gole de futuro (e paciência)

Acreditar em um produto novo é, também, um ato de resistência. Alex sabe que o café de açaí ainda precisa conquistar paladares, derrubar desconfianças e, acima de tudo, ser conhecido. “Então, eu vejo o café de açaí com um potencial muito grande no mercado, né? O que precisa são as pessoas conhecerem o produto”. 

E o otimismo não se restringe às fronteiras do Brasil. Ele aposta que a bebida pode ir além. “E não só o mercado nacional, como o mercado internacional, já que os europeus têm um hábito muito maior que o nosso de tomar chá. E o café de açaí, a bebida, se assemelha mais ao chá do que ao café. É uma bebida mais clara, mais suave, então se assemelha muito mais ao chá”, avalia Alex.

Hoje, a produção ainda é familiar, feita em pequena escala, com estrutura enxuta. Mas o potencial de expansão é real. “Uma produção ainda pequena, com potencial de crescimento”, assim define Alex.

Embalagens do café de açaí produzido em Sergipe, símbolo de inovação e aproveitamento integral dos recursos naturais | Foto: Alex Monteiro Gomes Ferreira – Acervo pessoal

“Na nossa estrutura, a gente tem um potencial ainda de crescimento muito grande. E estamos aí esperando o mercado consumidor dar uma resposta para a gente aumentar a nossa produção”, acrescenta.

A divulgação tem sido feita de forma artesanal: participando de feiras, aceitando convites, espalhando a novidade como dá. “Esse é o grande desafio comercial do momento, que nós estamos trabalhando aí nesse sentido, para poder dar visibilidade ao produto”.

O Instagram, por meio do perfil @acairaiz20, é a principal vitrine de vendas da marca, gerenciado pela esposa de Alex, que responde pelo atendimento e pelas operações comerciais.

Quando a qualidade faz toda a diferença

Alex faz questão de destacar algo importante: ele não criou o café de açaí — a bebida já existia, mas foi apenas recentemente que sua comercialização foi liberada. E, como acontece com qualquer novidade, ainda há ruídos na percepção do consumidor.

Assim como o café tradicional, há variações de qualidade entre os produtos disponíveis no mercado. E isso, segundo o produtor, pode ser um entrave para a popularização da bebida: basta uma má experiência para que o consumidor generalize. “Como é um produto novo, a gente já se deparou com pessoas que tomaram um café de uma qualidade pior e generalizaram isso aí para o produto em si, né? E, na verdade, não é”.

O segredo, explica Alex, está no cuidado e na técnica por trás da preparação. O café de açaí exige atenção especial, sobretudo pela presença de taninos naturais na matéria-prima, que podem deixar a bebida excessivamente adstringente se o processo não for feito corretamente.

“Se ele não for bem preparado, devido à quantidade de taninos que existem na matéria-prima, ele pode ficar muito adstringente e se tornar uma bebida muito ruim, sem palatabilidade, entendeu? Então, foi por isso que a gente fez tantos testes até chegar hoje na qualidade do nosso produto”, reforça.

Foi um processo de tentativa, erro e persistência. E hoje, o que chega às mãos dos consumidores é mais do que uma bebida: é a expressão de uma ideia que acredita no futuro — e que começa a encontrar seu espaço, uma xícara de cada vez.

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