
O hidrogênio tem sido considerado, ao longo do tempo, uma das alternativas mais promissoras para o futuro energético, especialmente por sua capacidade de gerar energia limpa. No entanto, o hidrogênio tradicional, produzido a partir de fontes fósseis — como o hidrogênio cinza e o azul —, gera grande impacto ambiental, liberando altas quantidades de gases de efeito estufa que agravam a crise climática global. Por isso, a transição para o hidrogênio verde, produzido exclusivamente por fontes renováveis, surge como uma solução fundamental para mitigar os danos ambientais e promover uma matriz energética mais sustentável.
A região Nordeste do Brasil, com seu vasto potencial em fontes renováveis como solar e eólica, destaca-se como líder natural na produção de hidrogênio verde. Em 2023, o Nordeste concentrou 82,6% da capacidade instalada dessas fontes no país, e novas iniciativas visam ampliar ainda mais esse potencial nas próximas décadas. Além disso, a região conta com uma infraestrutura logística portuária de excelência, essencial para viabilizar a exportação, sobretudo para mercados internacionais, como a União Europeia, que investe fortemente na transição energética.
A vantagem competitiva do Nordeste
A combinação do enorme potencial em energias renováveis com a infraestrutura portuária do Nordeste coloca a região em posição privilegiada para a produção e exportação do hidrogênio verde, com destaque para o Porto de Suape. Esse complexo portuário está se preparando para se tornar um hub global, aproveitando sua localização estratégica próxima a rotas marítimas e grandes mercados consumidores.
Ao Investindo Por Aí, o Consórcio Nordeste, bloco que defende e promove interesses econômicos e sociais da região, destacou que a entidade tem atuado “de forma bastante articulada para transformar o hidrogênio verde em uma agenda estratégica de desenvolvimento regional”. Segundo o consórcio, o Nordeste possui “um potencial extraordinário em fontes renováveis, especialmente solar e eólica”, e as ações promovidas buscam transformar esse potencial em “oportunidades concretas de geração de emprego, renda e inovação”. Ao fortalecer a integração dos projetos, políticas públicas e infraestrutura, o Consórcio potencializa a competitividade da região no cenário global.
O Consórcio informa que sete plantas de hidrogênio verde estão em desenvolvimento nos estados nordestinos, com capacidade para gerar até 11 milhões de toneladas por ano. “Nosso papel é criar condições para que esses projetos não atuem isoladamente, mas componham uma estratégia regional integrada, colocando o Nordeste como protagonista da transição energética nacional e internacional.”
Estados como Ceará, Pernambuco e Piauí já despontam com projetos promissores. No Ceará, o primeiro hub de hidrogênio verde do Complexo do Pecém, lançado em 2021, envolve parcerias internacionais bilionárias como Fortescue e Linde. Pernambuco, por sua vez, atrai investimentos estratégicos para o Porto de Suape, com projetos para eletrolisadores com capacidade superior a 6 GW até 2030, como o acordo com a francesa Qair Brasil. No Piauí, o Green Energy Park, investido pela Solatio, prevê produção de 2,8 milhões de toneladas por ano, fomentando exportações para a Europa.
Além da produção em larga escala, o Nordeste vem se consolidando também como polo de inovação tecnológica, atraindo startups, centros de pesquisa e desenvolvimento voltados para as tecnologias do hidrogênio e seus derivados. Essa dinâmica fortalece um ecossistema de conhecimento que amplia as oportunidades econômicas e sociais na região.
Infraestrutura, parcerias estratégicas e políticas
As Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) desempenham papel fundamental nesse processo, oferecendo regimes fiscais atrativos e infraestrutura aduaneira para investimentos em grande escala. “Ao unir o vasto potencial renovável do Nordeste às ZPEs, criamos plataformas eficientes para a exportação de hidrogênio verde e seus derivados”, afirmam representantes do Consórcio.
O bloco econômico também articula parcerias com organismos internacionais, como o Banco Mundial, para viabilizar financiamentos, capacitação técnica e soluções estruturantes em setores essenciais, incluindo energia, água e saneamento. Essa estratégia busca garantir que os benefícios econômicos e sociais da cadeia produtiva do hidrogênio verde sejam distribuídos de forma justa, especialmente nos estados mais periféricos.
Na esfera política, o Consórcio promove a harmonização das políticas estaduais com o novo marco regulatório do setor energético, fomentando debates entre governadores e articulação com o governo federal para fortalecer a competitividade regional. A Câmara Temática de Energia do Consórcio é o espaço privilegiado para discutir marcos regulatórios, soluções logísticas e infraestrutura.
Oportunidades e desafios
Jahzara Ona, ativista climática e participante de três COPs, ressalta que “o Nordeste é referência em energia solar e eólica, e é fundamental aproveitar esse potencial para colocar a região na liderança da transição energética no Brasil e globalmente”. Ela destaca ainda a importância de investimentos em formação técnica e mecanismos de participação social para garantir um impacto socialmente justo.
O Consórcio Nordeste projeta um futuro promissor: “Com investimentos na casa das dezenas de bilhões de reais e projetos de grande escala, o Nordeste tem tudo para se tornar um hub global do hidrogênio verde e seus derivados, como a amônia verde, gerando empregos qualificados, atraindo capital estrangeiro e fomentando cadeias produtivas alinhadas às metas climáticas.”
Superar os desafios técnicos existentes — como armazenamento, transporte e expansão das linhas de transmissão — será fundamental para consolidar essa liderança. Mas o potencial do Nordeste é claro, e a união entre inovação, políticas públicas e parcerias estratégicas promete garantir um futuro energético mais limpo, sustentável e inclusivo para o Brasil e o mundo.
