
Em 2025, o Nordeste registrou um ritmo de expansão econômica acima da média nacional. Impulsionados pelo Agronegócio e pela Indústria de Transformação, alguns estados da região estão entre os que mais crescem no país, como Maranhão, Bahia e Rio Grande do Norte. Os investimentos de empresas privadas em energias renováveis e transição energética também são responsáveis pelo momento de destaque para a região.
Em comum, economistas ouvidos pelo Investindo Por Aí concordam que a onda de investimentos em hidrogênio verde, minerais críticos, data centers e energia limpa representa um novo ciclo econômico.
Para Fábio Leão, economista e doutor em Sociedade, Tecnologia e Políticas Públicas da Sotepp/Afya, é fundamental fazer uma ponderação estratégica sobre os anúncios de negócios no cenário local. “Embora a injeção de capital e a criação de empregos sejam inegavelmente positivas, a chegada massiva de empresas, especialmente nas áreas de minerais críticos, hidrogênio verde (H2V) e obras estruturantes, traz desafios sociais, ambientais e de infraestrutura que devem ser mitigados para garantir um desenvolvimento verdadeiramente sustentável e inclusivo.”
Isadora Osterno, doutora em Economia e pesquisadora do Centro para o Desenvolvimento Econômico do Nordeste do FGV Ibre, concorda com Fábio e reforça que a chegada de novos empreendimentos é essencial para o avanço econômico local, mas pondera que é preciso ter uma visão crítica. “Crescimento econômico não significa automaticamente desenvolvimento social. Projetos em mineração, hidrogênio verde e infraestrutura têm grande potencial, mas só trarão benefícios duradouros se vierem acompanhados de planejamento urbano, infraestrutura para superar gargalos estruturais de transporte e logística, políticas de capacitação da mão de obra e respeito ao meio ambiente.”
Para 2025, a projeção de crescimento do PIB brasileiro está em 2,1%, sendo que o crescimento do nordestino mostra uma tendência acima da média nacional, projetado em 2,3% no mesmo período. “Esse resultado está sendo impulsionado principalmente, pelos investimentos em energias renováveis, setor de serviços, indústria e agropecuária. O destaque ficou para os estados de Alagoas, Paraíba e Maranhão”, aponta a economista Ana Célia de Oliveira Prado.
O economista vice-presidente da Academia Cearense de Economia, Célio Fernando Bezerra Melo, também lembra que a expansão das apostas em energia renovável, infraestrutura e serviços é fruto de uma combinação de visão de futuro, de uma capacidade de sonhar os estados nordestinos como protagonistas da transição energética, com planejamento, regulação e políticas que foram amadurecendo ao longo do tempo. Para Célio, o ano de 2025 não é um ponto de chegada, mas um marco de transição em que sonhos antigos se aproximam da realidade graças à persistência de políticas e à compreensão de que crescimento exige continuidade, cooperação e responsabilidade entre gerações. “Em 2025, o Nordeste colheu resultados que não nasceram de uma única gestão, nem de decisões isoladas, mas de um processo contínuo construído ao longo de muitos anos e com a participação de diversos atores públicos e privados.”
A Reforma Tributária – e o impacto para o NE – foi outro tema bastante debatido ao longo de 2025 e que gera uma mistura de cautela e de otimismo entre os economistas. Ecio Costa, professor titular de Economia da UFPE, demonstra preocupação ao falar sobre o assunto quando pensa nas indústrias que estão presentes na região. Para o professor, a reforma tributária substitui um sistema de guerra fiscal e muitas indústrias estão ali por conta de incentivos fiscais. Para Ecio, com a Reforma, a região passa a ter uma concorrência muito forte da zona franca de Manaus, onde vai continuar um incentivo. “E isso pode fazer com que algumas indústrias daqui, mais tradicionais, terminem se deslocando para lá e outras indústrias possam retornar também à sua origem, do Sudeste.”
A pesquisadora Isadora Osterno analisa o cenário da Reforma Tributária como positivo, de forma geral. “Há espaço para crescimento, inovação e fortalecimento das cadeias produtivas. Mas é preciso agir com estratégia, pensando sempre na realidade local.” Para Isadora, a reforma traz oportunidades importantes, já que o Nordeste é um grande mercado consumidor, — ela simplifica o sistema e reduz distorções entre estados — mas também exige que as empresas se planejem de forma cuidadosa para se adaptar às novas regras. Fábio Leão aponta certa complexidade da transição da Reforma Tributária. O economista diz que, para 2026, as perspectivas dependem da capacidade dos estados nordestinos de executar uma nova estratégia de desenvolvimento baseada em fundamentos mais sólidos do que a “guerra fiscal”.
No entanto, Fábio destaca a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) como um dos maiores trunfos da Reforma para o cenário local. “O FNDR fornecerá recursos para financiar projetos estruturantes e de infraestrutura, e deve receber uma fatia significativa dos recursos destinados a reduzir as desigualdades regionais. O sucesso dependerá da capacidade de planejamento dos estados para montar projetos robustos e eficientes que realmente aumentem a produtividade e a competitividade a longo prazo, e não apenas o consumo de curto prazo.”
Ana Célia de Oliveira Prado, acredita que a reforma tributária gera uma grande transformação regional, exigindo mudança estratégica de crescimento, deixando de depender dos incentivos fiscais e programas sociais e apostando no direcionamento do foco em infraestrutura, energia limpa e qualificação profissional; elementos essenciais para aumentar a competitividade local no médio e longo prazo. A economista faz questão pontuar que apesar do dinamismo econômico regional, com crescimento do PIB acima da média nacional, a renda per capita nordestina segue a menor do país.
Crescimento econômico X desenvolvimento social
Os economistas reforçam a preocupação com o risco socioambiental, uma vez que os estados nordestinos possuem grande potencial para uso de energias renováveis e transição energética. Apesar do cenário favorável, um ponto que preocupa é a elevada incidência de pobreza local, de acordo com Ana Célia. “O Nordeste, embora seja a região mais populosa do Brasil, ainda concentra alguns dos principais indicadores de vulnerabilidade socioeconômica. Nesse contexto, investir na geração de empregos de maior valor agregado é fundamental para reduzir a dependência de programas de transferência de renda e estimular a inclusão produtiva.”
Fábio Leão acredita que os estados têm a chance de liderar o mercado de energia limpa no Brasil e que os grandes projetos podem criar “ilhas de prosperidade” com mão de obra altamente especializada, sem que a riqueza se distribua para as comunidades do entorno. Mas defende que a região precisa garantir que os empregos gerados sejam preenchidos por talentos locais. “Se não investir rapidamente na formação técnica especializada em eólica offshore, eletrólise ou mineração de alta tecnologia, haverá um alto índice de importação de mão de obra de outras regiões, limitando o impacto local na renda”, diz. “O Nordeste é um hub natural de energia eólica e solar, e a captação de investimentos, inclusive para o Hidrogênio Verde, está em pleno vapor, com projetos aprovados em 2025/2026.”
A pesquisadora do FGV Ibre, Isadora Osterno, pontua que o desenvolvimento sustentável depende de ações que combinem rentabilidade com inclusão social e preservação ambiental.
Os economistas, apesar de diferentes leituras, concordam com o mesmo ponto: o Nordeste vive um momento raro, em que sua vocação energética, combinada a investimentos estruturantes e uma base crescente de serviços e indústria, coloca a região à frente do crescimento nacional. O desafio é garantir que essa onda gere desenvolvimento distribuído, com infraestrutura, qualificação e governança.
