
A Embasa deu início a uma nova etapa de planejamento para ampliar e modernizar os sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário na Bahia. A companhia abriu credenciamento de empresas especializadas para elaboração de estudos e projetos básicos de engenharia, em movimento que antecipa a estruturação de um portfólio robusto de intervenções e pavimenta o caminho para novos investimentos no setor.
Com atuação em 368 dos 417 municípios baianos, a Embasa enfrenta o desafio de operar e expandir sistemas em um território marcado por grandes distâncias, diversidade climática e desigualdades regionais. A formação de uma carteira consistente de projetos executivos é considerada condição essencial para destravar recursos públicos, viabilizar financiamentos e garantir previsibilidade na execução de obras nos próximos anos.
O credenciamento terá vigência de 360 dias e abrange a contratação de serviços técnicos para elaboração de estudos de concepção, projetos básicos e demais peças de engenharia necessárias à implantação, ampliação ou melhoria de sistemas de água e esgoto. A iniciativa foi anunciada pelo governo baiano como parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento da infraestrutura de saneamento no estado.
Segundo o presidente da Embasa, Gildeone Almeida, o credenciamento é uma estratégia fundamental para ampliar a capacidade de resposta da empresa. “Estamos estruturando futuras contratações que nos permitam acelerar os investimentos e enfrentar o desafio da universalização do saneamento em um estado marcado pela diversidade e grande extensão do seu território”, destaca.
A movimentação ocorre em sintonia com as metas estabelecidas pelo Novo Marco Legal do Saneamento, que prevê a universalização do acesso à água potável até 2033 e a ampliação da cobertura de esgotamento sanitário para 90% da população no mesmo horizonte. Para estados com forte presença de municípios de pequeno porte e áreas rurais dispersas, como a Bahia, o desafio é ainda mais complexo.
Portfólio como estratégia
No setor de infraestrutura, a existência de projetos executivos maduros é requisito central para acessar linhas de crédito de bancos públicos e organismos multilaterais. Sem projetos detalhados, com estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental consolidados, os empreendimentos dificilmente avançam para a fase de captação de recursos.
Ao estruturar um banco de projetos previamente elaborados, a Embasa busca reduzir essa dependência de processos demorados e fragmentados. A ideia é que, à medida que surjam oportunidades de financiamento, seja por meio de recursos federais, operações de crédito ou parcerias, a companhia já tenha propostas tecnicamente prontas para serem apresentadas.
Especialistas em gestão pública e infraestrutura analisam que a estratégia é coerente com as exigências do novo marco regulatório, e que o marco do saneamento aumentou a pressão por metas e desempenho, exigindo planejamento de médio e longo prazo. O credenciamento para projetos de engenharia indica uma mudança de postura: sair da lógica reativa e passar a trabalhar com carteira estruturada, o que dá previsibilidade e melhora a qualidade do gasto público.
Além disso, a ausência de projetos é um dos principais desafios históricos do investimento em saneamento no Brasil. Muitos municípios e até companhias estaduais têm dificuldade em manter equipes técnicas suficientes para desenvolver estudos complexos. Ao credenciar empresas, a Embasa amplia sua capacidade operacional sem necessariamente inflar a estrutura interna.
A Bahia é o maior estado do Nordeste em extensão territorial, com realidades muito distintas entre o litoral densamente povoado, o semiárido e regiões com baixa densidade demográfica. Esse cenário impõe desafios técnicos específicos, desde a captação e tratamento de água em áreas com escassez hídrica até a implantação de redes de esgoto em cidades com crescimento urbano desordenado.
Em municípios menores, a viabilidade econômica dos sistemas também é um ponto sensível. Projetos precisam considerar soluções adaptadas à escala local, como sistemas simplificados, tecnologias alternativas de tratamento e modelos que equilibrem custo e sustentabilidade operacional.
De acordo com a Embasa, o credenciamento permitirá contemplar diferentes tipologias de projetos, adequadas às características de cada região. A expectativa é que a ampliação da carteira de estudos contribua para reduzir déficits históricos, sobretudo no esgotamento sanitário, que ainda apresenta cobertura inferior à de abastecimento de água em diversas localidades.
A corrida pela universalização
Desde a aprovação do novo marco, companhias estaduais de saneamento têm intensificado esforços para comprovar capacidade econômico-financeira e garantir investimentos compatíveis com as metas de universalização. No caso baiano, a atuação da Embasa em 368 municípios reforça o papel estratégico da empresa na coordenação das políticas públicas de saneamento.
Para alguns especialistas, a preparação de projetos também fortalece a posição da companhia em eventuais disputas por recursos. Quem apresenta projetos mais estruturados tende a ter prioridade em programas de financiamento. Além disso, projetos bem elaborados reduzem riscos de paralisações, aditivos contratuais e questionamentos de órgãos de controle.
Em um ambiente regulatório mais rigoroso, a governança e a qualidade técnica ganham peso, ou seja, não se trata apenas de investir mais, mas de investir melhor. A formação de um portfólio robusto sinaliza maturidade institucional.
Impactos esperados
A ampliação dos investimentos em água e esgoto tem efeitos diretos na saúde pública, na preservação ambiental e no desenvolvimento econômico. Estudos nacionais indicam que cada real investido em saneamento gera economia em gastos com saúde e aumenta a produtividade da população.
Na Bahia, onde parte dos municípios ainda enfrenta limitações de infraestrutura básica, o avanço de projetos pode representar salto qualitativo para comunidades urbanas e rurais. Além de reduzir doenças de veiculação hídrica, a expansão do esgotamento sanitário contribui para a despoluição de rios e áreas costeiras, com impactos positivos sobre turismo e atividades produtivas.
A abertura do credenciamento, portanto, vai além de um procedimento administrativo. Ela indica a tentativa de alinhar planejamento, regulação e financiamento em um setor historicamente marcado por defasagens. A preparação técnica é a base de qualquer política pública consistente. Se a Embasa conseguir transformar esse credenciamento em um pipeline contínuo de projetos prontos para execução, o estado poderá acelerar significativamente sua trajetória rumo à universalização.
Nos próximos meses, o andamento do credenciamento e a velocidade de contratação das empresas habilitadas serão acompanhados de perto por gestores e pelo mercado.