
O Nordeste brasileiro vive uma encruzilhada energética e fiscal. De um lado, cidades como Mossoró (RN) ainda sustentam parte significativa de suas receitas nos royalties do petróleo — uma fonte de recursos valiosa, mas instável. De outro, municípios como Caetité (BA) se firmam na geração de energia eólica e solar, atraindo investimentos de longo prazo. O contraste revela dois caminhos distintos — e desiguais — de como o território nordestino transforma sua riqueza natural em desenvolvimento.
Mossoró: a abundância que convive com a dívida
Conhecida como a “capital do petróleo em terra”, Mossoró abriga campos explorados por grandes empresas e figura entre os principais beneficiários dos royalties da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Somente em fevereiro de 2025, o município recebeu R$ 1,26 milhão em repasses, e em 2023 esteve entre os líderes nacionais na exploração em terra. Essa receita, contudo, é volátil — depende do volume de produção e da cotação internacional do barril, sujeitando as finanças locais a ciclos de bonança e retração.
Essa dependência tem consequências diretas sobre o equilíbrio fiscal. Entre 2020 e 2024, a dívida municipal saltou de R$ 233,2 milhões para R$ 509,2 milhões, um aumento de 118%. No mesmo período, a prefeitura empenhou R$ 1,15 bilhão em despesas, mas quitou apenas R$ 778 milhões, acumulando R$ 367 milhões em restos a pagar.
O Fundo de Participação dos Municípios (FPM), uma das principais fontes de recursos federais, também caiu: de R$ 4,95 milhões em julho de 2022 para R$ 3,22 milhões no mesmo mês de 2023, agravando o cenário.
Com IDHM de 0,720, Mossoró apresenta bons indicadores de desenvolvimento em comparação à média nordestina, mas ainda enfrenta desigualdades e dificuldades para transformar o potencial energético em bem-estar social. A estrutura orçamentária baseada em receitas instáveis faz com que investimentos duradouros — em educação, saúde e inovação — fiquem sujeitos à oscilação do petróleo.
“Quando o município estrutura seu orçamento em torno de receitas extraordinárias, corre o risco de comprometer a sustentabilidade fiscal a médio prazo”, avalia o economista do Senai, Renan Laurentino. “Os royalties são importantes, mas precisam ser aplicados em áreas que gerem retorno contínuo, não apenas em custeio”.
Laurentino, reforça a leitura ao apontar que o desafio não está apenas nas receitas, mas na qualidade da gestão.
“O grande ponto aqui é o grupo gestor. Quando o prefeito e os secretários têm um olhar mais cosmopolita, eles conseguem transformar esses benefícios — como os royalties ou os incentivos à energia renovável — em desenvolvimento sustentável e duradouro”, explica.
“Mas, infelizmente, muitos municípios ainda vivem sob gestões muito fechadas, com vícios de poder e pouca compreensão sobre inovação e sustentabilidade. Sem uma gestão que respire esses conceitos, o recurso se perde no curto prazo”.
Segundo ele, a ausência de planejamento de longo prazo é um risco recorrente:
“Enquanto não houver grupos gestores que pensem em cidades inteligentes, tecnologia, educação e desenvolvimento humano, o dinheiro vai continuar sendo consumido no presente, sem poupança para o futuro”.
Caetité: a força dos ventos e da gestão de longo prazo
A 800 quilômetros dali, no sertão da Bahia, Caetité trilha um caminho diferente. A cidade foi uma das pioneiras da energia eólica no país e hoje integra o corredor de ventos que inclui Guanambi e Igaporã, responsável por impulsionar a liderança baiana na geração de energia limpa.
Complexos como os parques Caetité 2 e 3, operados pela Iberdrola/Neoenergia, somam mais de 60 MW de capacidade instalada, e novos empreendimentos solares reforçam a diversificação da matriz local.
Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), a Bahia concentra cerca de 30% da potência eólica instalada no Brasil. Diferente dos royalties do petróleo, as receitas de Caetité vêm de impostos, arrendamentos de terra e taxas de licenciamento, além do impacto indireto da movimentação econômica gerada pelos parques.
Os benefícios aparecem em indicadores como o crescimento do PIB municipal e a geração de empregos temporários e permanentes. Com IDHM de 0,625, a cidade ainda enfrenta desafios estruturais, mas a base econômica tende a se tornar mais estável à medida que novas empresas se instalam e a arrecadação se consolida.
A Lei Orçamentária de 2023, disponível no portal da Câmara Municipal, mostra que Caetité mantém as contas equilibradas, com ênfase em investimentos públicos e controle de endividamento — um contraste importante com Mossoró.
Renan Laurentino explica ainda que a diferença está na estratégia:
“Enquanto os royalties do petróleo oscilam conforme o mercado global, as energias renováveis atraem investimentos contínuos e sustentáveis. O desafio de Caetité é usar esse momento para diversificar ainda mais sua economia local”.
Laurentino complementa:
“Quando há um grupo gestor que pensa inovação e investe em educação e tecnologia, o desenvolvimento se torna natural. Eu não posso pensar em desenvolvimento econômico se ele não estiver atrelado ao desenvolvimento social. Esse é o ponto que diferencia os municípios que prosperam dos que apenas recebem recursos”.
Receitas que contam histórias diferentes
As duas cidades representam modelos opostos de receita:
- Mossoró depende de royalties do petróleo, pagos mensalmente pela produção de campos locais — receita volátil, mas expressiva;
- Caetité se beneficia de impostos e arrendamentos ligados à geração de energia eólica e solar, fontes previsíveis e com potencial de expansão.
Enquanto os royalties podem representar até 8% da receita corrente líquida de Mossoró, as receitas eólicas e solares ainda não chegam a esse patamar em Caetité, mas tendem a crescer conforme novos projetos entram em operação.
A diferença está na sustentabilidade: o petróleo tem prazo de validade; o vento e o sol, não.
De acordo com o Operador Nacional do Sistema (ONS), o Nordeste já responde por quase 90% da geração eólica do país e vem ampliando sua fatia na energia solar. Ao mesmo tempo, estados como Rio Grande do Norte e Sergipe continuam entre os maiores arrecadadores de royalties.
Essa sobreposição — do velho e do novo — coloca a região no centro da transição energética brasileira.
“Não basta gerar riqueza, é preciso transformar essa riqueza em desenvolvimento humano e social”, destaca Renan Laurentino.
“Se o município não planejar o futuro, ele volta ao ciclo de dependência. Os bons dados econômicos só fazem sentido quando melhoram a vida das pessoas”.
A escolha que molda o futuro
No fim, o dilema entre o petróleo e o vento não é apenas sobre fontes de energia, mas sobre modelos de gestão e visão de longo prazo.
Mossoró vive o paradoxo de uma cidade rica em recursos, mas pressionada por dívidas crescentes. Caetité, com indicadores mais modestos, busca consolidar uma economia sustentável baseada em energia limpa.
Ambas, porém, enfrentam o mesmo desafio: fazer com que a riqueza natural se traduza em prosperidade social duradoura — um teste de maturidade econômica para o Nordeste e para o Brasil.
Indicadores comparativos
| Município | Tipo de receita principal | Dívida pública (2024) | IDHM | Fonte de recursos | Observações |
| Mossoró (RN) | Royalties do petróleo | R$ 509,2 milhões (aumento de 118% desde 2020) | 0,720 | ANP / FPM / Receita própria | Queda de 35% no FPM entre 2022 e 2023; alta dependência de receitas voláteis |
| Caetité (BA) | Energia eólica e solar | Contas equilibradas (sem aumento expressivo de endividamento) | 0,625 | Impostos municipais / investimentos privados | Pioneira em energia limpa; expansão de parques e diversificação da economia |
Este texto integra a série especial de reportagens do Investindo Por Aí sobre as cidades mais ricas do Nordeste