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9 de fevereiro de 2026 19:56

Estudo do Banco Mundial aponta caminhos para que o Nordeste transforme gargalos em alavancas econômicas

Estudo do Banco Mundial aponta caminhos para que o Nordeste transforme gargalos em alavancas econômicas

Documento propõe usar a liderança em energia limpa como base para uma nova estratégia de industrialização, emprego e inclusão social no Nordeste; especialistas avaliam que gargalos históricos podem virar ativos econômicos se houver agenda integrada de produtividade, infraestrutura e inclusão
Foto: Divulgação

O Banco Mundial colocou o Nordeste no centro de um debate que, até aqui, vinha fragmentado entre promessas sobre a nova indústria, agenda verde e urgências sociais. Para a instituição, a região pode acelerar o crescimento do país, mas só se transformar seus gargalos históricos em oportunidades estruturais, com produtividade, investimento em capital humano e infraestrutura, no lugar de depender de uma única aposta setorial.

O relatório Rotas para o Nordeste: Produtividade, Empregos e Inclusão parte de um contraste difícil de ignorar. De um lado, a região tem escala demográfica. São 54 milhões de habitantes, com 80% em idade ativa, uma janela rara em um Brasil que envelhece. De outro, carrega uma trava estrutural no mercado de trabalho. Entre 2012 e 2022, o desemprego médio foi de 12% e a informalidade chegou a 52%, acima de outras regiões. Para o Banco Mundial, criar empregos de melhor qualidade é o caminho mais seguro para reduzir a pobreza e sustentar a mobilidade social, mas isso exige elevar produtividade fora do curto-prazo do emprego precário, muito comum, por exemplo, no turismo.

“A avaliação é que o Nordeste avançou em capital humano, mas ainda não converteu esse avanço em renda no mesmo ritmo. A proporção de trabalhadores com diploma universitário quase dobrou em uma década (de 9,1% em 2012 para 17% em 2023), indicador que mostra melhora na base educacional, porém insuficiente para destravar a engrenagem produtiva urbana, onde estão manufatura e serviços e onde se decide a qualidade do emprego”, explica o economista e professor da Universidade Federal de Alagoas, Moisés Gomes.

É nesse ponto que a transição energética aparece no relatório como oportunidade, que em todo caso envolve risco. O Nordeste já é o motor renovável do país: produz 91% da energia eólica e 42% da energia solar do Brasil. O que o Banco Mundial sugere é que essa vantagem pode virar plataforma industrial, atraindo cadeias associadas, serviços de maior valor, novos empreendimentos e setores emergentes como hidrogênio verde. Mas o documento também faz um alerta implícito, e já conhecido nessa cadeia. A energia limpa não compensa sozinha restrições estruturais mais amplas; sem produtividade empresarial, mobilização de capital humano e infraestrutura conectando territórios, o potencial verde fica limitado.

Isso significa atrair fábricas de equipamentos, centros de manutenção, serviços técnicos, data centers e indústrias eletrointensivas capazes de gerar empregos urbanos de maior qualificação, além de novos setores como o hidrogênio verde. Sem esses elos, a região corre o risco de repetir um modelo primário-exportador, agora baseado em energia limpa: gera o insumo, mas não captura o valor agregado. “Por isso, o relatório é explícito ao afirmar que a expansão renovável precisa caminhar junto com políticas de produtividade empresarial, formação profissional e investimentos em logística e conectividade, sob pena de o boom verde ter impacto limitado sobre renda e inclusão”, explica Gomes.

A infraestrutura, aliás, é tratada como peça central do salto desejado para a economia da região, e igualmente como um mercado potencial. O Banco Mundial recomenda modernização de rodovias, ferrovias e redes digitais, além de melhorias em água e saneamento, combinadas com planejamento, fiscalização e um sistema mais eficiente de gestão do investimento público. A mensagem para investidores é a de que destravar a carteira de projetos requer reduzir risco regulatório e de execução e, quando bem desenhadas, PPPs e concessões podem acelerar a entrega e ampliar a escala dos investimentos.

“O relatório do Banco Mundial reforça algo que os estados do Nordeste já estão enfrentando na prática: não é mais possível sustentar uma estratégia de desenvolvimento baseada apenas em incentivos fiscais. Para ampliar investimentos em logística, saneamento, mobilidade e conectividade digital, vamos precisar estruturar projetos bem modelados, com segurança jurídica e capacidade técnica, para atrair capital privado por meio de PPPs e concessões. Isso exige planejamento de longo prazo e cooperação com o governo federal, especialmente no acesso a financiamento e na padronização de marcos regulatórios, afirma o presidente da Investe Maranhão, Cauê Aragão.

Outro eixo importante do relatório é a economia digital e a conectividade internacional. O estudo destaca que a localização geográfica do Nordeste oferece vantagens para comércio e logística e que a região atua como ponto de entrada de cabos internacionais de internet no Brasil, o que pode sustentar uma economia digital dinâmica, atraindo investimentos e inovação. “Na prática, o relatório empurra a discussão para além da infraestrutura física. Ou seja, conectividade é também produtividade, serviços exportáveis e capacidade de inserir a região em cadeias globais”, afirma o pesquisador da Universidade Federal de Alagoas, Thiago Ameni.

Talvez a mudança mais sensível esteja na forma de competir por investimentos. A instituição multilateral recomenda melhorar o ambiente de negócios, simplificando rotinas, fomentando a concorrência e reduzindo a dependência de subsídios fiscais, apontados como mecanismos que tendem a diminuir produtividade e concentrar mercados.

O tema ganha relevância no contexto da reforma tributária, que redesenha a lógica de incentivos como o ICMS. Em evento na Sudene, o economista sênior Cornelius Fleischhaker afirmou que, com o novo cenário, governos estaduais precisarão encontrar maneiras diferentes de investir em infraestrutura de forma mais estratégica.

O relatório também não joga o desafio apenas para os estados. A própria publicação reconhece que muitos problemas identificados no Nordeste abrangem todo o Brasil e, portanto, exigem coordenação federativa, com papel do governo federal em marcos regulatórios, financiamento, inovação e infraestrutura estruturante, enquanto estados e municípios executam projetos, políticas de qualificação e ambiente de negócios.

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