
Pernambuco entrou de vez na rota dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Entre 2023 e 2025, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) ampliou significativamente sua atuação no estado, com recursos que já ultrapassam R$ 400 milhões em contratos firmados até o momento.
O volume representa um salto expressivo em relação aos anos anteriores e levanta uma questão central: o estado está consolidando um ecossistema de inovação sustentável ou vivendo um momento pontual impulsionado pelo aumento do orçamento federal?
Ao todo, 48 projetos foram contemplados, envolvendo Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação (ICTs), startups e empresas. Desse total, 20 são destinados a ICTs, 14 correspondem a contratos de subvenção econômica e 14 a operações de crédito.
Para a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), o avanço reflete uma mudança estrutural na política nacional de ciência, tecnologia e inovação, com maior direcionamento de recursos para regiões historicamente menos atendidas. “A ampliação dos recursos da Finep tem permitido maior previsibilidade e continuidade nos investimentos, o que é essencial para projetos de inovação, que possuem maturação de médio e longo prazo”, afirma o gerente de Política Industrial da Fiepe, Maurício Laranjeira.
Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) reforçam esse cenário: nos últimos três anos, Pernambuco concentrou cerca de R$ 1,1 bilhão em investimentos na área, mais que o triplo do registrado entre 2019 e 2022.
Do ponto de vista industrial, os impactos são diretos. Segundo Laranjeira, o financiamento reduz riscos, estimula a modernização produtiva e amplia a competitividade das empresas, especialmente em um contexto de transformação digital e reindustrialização. Os aportes seguem diretrizes da política Nova Indústria Brasil, com foco em áreas estratégicas como transformação digital, bioeconomia, transição energética, saúde e infraestrutura de pesquisa.
Esse direcionamento dialoga com as vocações locais. Pernambuco já conta com um ecossistema consolidado em tecnologia da informação, além de uma base industrial diversificada, com presença nos setores químico, alimentício, automotivo e de energias renováveis.
Para Pierre Lucena, presidente do Porto Digital, o aumento dos investimentos é resultado de um ambiente que vem sendo estruturado ao longo dos anos. “Esses recursos são consequência de um ecossistema que amadureceu, com governança, densidade empresarial e capacidade de execução”, afirma.

Ele avalia que Pernambuco vive um momento de transição, em que o apoio público ainda é essencial, mas já convive com sinais de autonomia crescente, como o avanço de startups, o fortalecimento da inovação aberta e a maior integração entre universidades e empresas. “O objetivo é que o ecossistema se torne cada vez mais autônomo e competitivo”, destaca.
Entre os projetos recentes, está a criação do NERD, novo centro de empreendedorismo em construção no bairro do Recife, com apoio da Finep.
Mais do que o volume de recursos, Lucena ressalta a importância estratégica dos investimentos. “O que importa é a capacidade de destravar projetos estruturantes, especialmente aqueles que conectam empresas, universidades e startups.”
O reconhecimento nacional também acompanha esse movimento. Em março, o Porto Digital e o Governo de Pernambuco receberam o Prêmio Finep de Inovação 2025, na categoria Ambiente de Inovação, pelo projeto Armazém da Criatividade, em Caruaru.
A iniciativa integra a estratégia de interiorização da inovação e tem como objetivo expandir oportunidades em tecnologia, design e economia criativa para o Agreste pernambucano. “Ele se tornou um catalisador de talentos, negócios e investimentos, transformando Caruaru em referência nacional fora dos grandes centros”, afirma Lucena.
Além da expansão territorial, a formação de talentos é apontada como um dos pilares do ecossistema, com iniciativas voltadas à qualificação e inserção de jovens no mercado de tecnologia.
Na avaliação de especialistas, Pernambuco reúne condições favoráveis para consolidar esse ambiente, ao combinar capital humano qualificado, instituições científicas relevantes e uma base produtiva capaz de absorver inovação. O resultado é a formação de um ciclo virtuoso: mais investimentos impulsionam a inovação, que aumenta a produtividade, atrai novos aportes e fortalece a competitividade da economia local.