
O desperdício de alimentos nas centrais de abastecimento do Brasil se tornou um desafio com impacto econômico e ambiental significativo. No Ceará, a Ceasa descarta mensalmente até 25 toneladas de frutas e hortaliças em aterros sanitários, gerando um custo aproximado de R$230 mil. Para transformar esse passivo em oportunidade, pesquisadores da Embrapa e da Universidade Federal do Ceará desenvolveram uma tecnologia capaz de converter esses resíduos orgânicos em energia limpa e de baixo custo. Anteriormente, a Ceasa já havia tentado enfrentar o problema com o programa Mais Nutrição, destinado a reaproveitar alimentos, mas a solução ainda não era suficiente para eliminar o desperdício.
O Sistema Integrado de Reatores Anaeróbios foi criado para aproveitar integralmente frutas e hortaliças impróprias para consumo, maximizando a produção de biogás. Além de reduzir despesas com descarte e minimizar emissões de gases de efeito estufa, a tecnologia pode suprir a demanda energética da própria central nos horários de pico, gerando uma economia de até 20% na conta de energia elétrica.
A inovação será apresentada no XV Workshop e Simpósio Latino-Americano de Digestão Anaeróbia, em Fortaleza, e tem potencial de ser replicada nas 57 Ceasas espalhadas pelo país. Segundo os pesquisadores, trata-se de uma solução que combina economia circular, sustentabilidade e eficiência energética, oferecendo uma alternativa concreta para reduzir perdas de alimentos e impactos ambientais.
Como isso funciona?
O processo que transforma frutas e hortaliças descartadas em energia limpa se baseia na digestão anaeróbia — reação natural em que microrganismos decompõem a matéria orgânica na ausência de oxigênio. O resultado são dois produtos principais: o biogás, composto por metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂), e o digestato, rico em nutrientes, que pode ser utilizado como fertilizante natural.
Conforme Oscar Aragão, engenheiro ambiental do Ceasa, no caso deste projeto específico, “o diferencial” está no Sistema Integrado de Reatores Anaeróbios, que realiza um pré-tratamento dos resíduos, separando-os em “frações líquida e sólida”. A parte líquida é encaminhada a reatores de manta de lodo de fluxo ascendente (UASB), capazes de processar grandes volumes de matéria orgânica e garantir alta produção de biogás. Já a fração sólida pode ser destinada à compostagem, gerando adubo de qualidade, ou a reatores de metanização seca, ainda em fase de testes. Essa separação maximiza o aproveitamento energético e reduz o volume de rejeitos enviados ao aterro.
Tecnologias de biogás vêm sendo aplicadas em diferentes contextos, do meio rural, onde biodigestores convertem dejetos e resíduos agrícolas em energia, a grandes centros urbanos, que processam toneladas de lixo orgânico. Além de substituir combustíveis fósseis e reduzir emissões de gases de efeito estufa, o processo gera insumos agrícolas de baixo custo, fortalecendo a economia circular. Na Ceasa-CE, a expectativa é que o sistema consiga atender até 100% da energia da central nos horários de pico e 20% em períodos de menor demanda, com potencial de replicação em todas as unidades do país.
Existe vantagem econômica?
Do ponto de vista econômico, transformar resíduos em energia limpa representa ganho concreto. A produção de biogás diminui custos com coleta, transporte e destinação de resíduos, ao mesmo tempo em que fornece energia própria para consumo local. Estima-se que na Ceasa do Ceará o biogás possa atender à demanda elétrica nos horários de maior movimento, reduzindo gastos com eletricidade e combustíveis fósseis e abrindo a possibilidade de comercialização de excedentes como biometano.
Para especialistas, o modelo vai além da energia. O professor André dos Santos, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da UFC, destaca que integrar tratamento de resíduos, produção de energia e geração de fertilizantes cria um ciclo completo de aproveitamento, transformando desperdício em oportunidade e colocando em prática os princípios da economia circular.
O impacto econômico se reflete também na geração de empregos verdes, desde a construção e operação das usinas até a logística de coleta e gestão de resíduos. Além disso, fomenta novos negócios, como empresas especializadas em gestão de resíduos e produção de biogás, fortalecendo a economia circular e ampliando o ecossistema industrial local.
Esses benefícios alcançam a sociedade como um todo. Reduzir a poluição, melhorar a qualidade do ar e cortar emissões de gases de efeito estufa contribuem para metas de Carbono Zero e consolidam a transição energética. Ao transformar materiais antes descartados em recursos valiosos, a prática promove inovação, eficiência e novas oportunidades de investimento, provando que sustentabilidade e lucro podem caminhar lado a lado.