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30 de março de 2026 12:38

Fruticultura irrigada coloca Petrolina no topo do agronegócio brasileiro

Fruticultura irrigada coloca Petrolina no topo do agronegócio brasileiro

Município lidera levantamento da Urban Systems ao combinar fruticultura irrigada, uso intensivo de mão de obra, infraestrutura logística e políticas públicas de longo prazo
Foto: Divulgação/Prefeitura de Petrolina

Liderar o ranking Melhores Cidades para Fazer Negócios no Agronegócio, divulgado pela Urban Systems, não é resultado de uma safra específica nem de um fator isolado. Em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, a fruticultura irrigada deu origem a um ecossistema econômico que articula produção intensiva, exportações, serviços, indústria e políticas públicas, consolidando o município como o polo mais dinâmico do agro nordestino.

A cidade ocupa o primeiro lugar nacional no segmento do agronegócio no levantamento da Urban Systems, que avalia indicadores como dinamismo econômico, infraestrutura, capital humano e ambiente de negócios. O desempenho está diretamente ligado ao modelo produtivo baseado em frutas de alto valor agregado, como manga e uva, e ao uso intensivo de mão de obra; uma diferença estrutural em relação a cadeias tradicionais, como soja e milho.

Para o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Pedro Abel Vieira Junior, o protagonismo de Petrolina não pode mais ser explicado apenas pelas condições naturais do Vale do São Francisco. Em entrevista ao Investindo Por Aí, ele explica que, clima, disponibilidade de água e características ambientais foram determinantes no início da ocupação agrícola, mas se tornaram insuficientes para justificar o atual nível de desempenho econômico.

De acordo com Abel, o diferencial está na continuidade de políticas públicas ao longo de mais de um século. Ele lembra que os primeiros investimentos remontam ao período imperial, com incentivos do governo de Dom Pedro II, e ganharam escala ao longo do tempo com a atuação de instituições como a antiga Codevasf. Esse histórico, segundo o pesquisador, permitiu a formação de uma base produtiva sólida, aliada a logística favorável, localização estratégica e articulação política local capaz de atrair recursos federais.

Um dos principais elementos que distinguem Petrolina de outros polos agrícolas é o perfil da produção. A fruticultura irrigada demanda mais trabalhadores por hectare do que culturas extensivas, o que amplia o impacto sobre o emprego e a renda locais. Esse fator ajuda a explicar por que o agronegócio se tornou um eixo estruturante da economia municipal, com efeitos que vão além do campo.

Ao mesmo tempo, o uso intensivo de mão de obra tem se tornado um desafio. Abel aponta que a escassez de trabalhadores já afeta o setor e tende a se agravar. Para ele, a saída passa pela mecanização e pela automação, áreas em que a fruticultura brasileira avançou mais lentamente do que cadeias como soja e carnes.

Logística, mercados e riscos externos

Outro gargalo destacado pelo pesquisador é a logística. Ele cita a hidrovia do São Francisco como uma alternativa ainda subutilizada e defende investimentos em rotas mais eficientes de escoamento. Abel também ressalta a necessidade de diversificação produtiva, já que o polo permanece fortemente concentrado em manga e uva, o que aumenta a exposição a riscos de mercado.

Pedro Abel Vieira Junior | Foto: Arquivo pessoal

Na avaliação do pesquisador, o maior grau de incerteza está no cenário internacional. Tarifas, disputas geopolíticas e mudanças na configuração dos blocos econômicos podem afetar diretamente as exportações. Segundo ele, produtores isoladamente não têm condições de enfrentar esse tipo de risco, o que torna necessária uma atuação coordenada entre setor público e privado para garantir acesso e permanência nos mercados externos.

As mudanças climáticas já impactam o dia a dia da produção no Vale do São Francisco. Abel afirma que períodos de chuva fora de época se tornaram mais frequentes, afetando culturas sensíveis, como a uva. Para reduzir perdas, produtores têm adotado soluções como coberturas plásticas sobre os parreirais, que ajudam a evitar doenças e danos à produção.

Apesar dos desafios, o pesquisador avalia que a região dispõe de tecnologia para mitigar impactos, especialmente nas áreas de irrigação, drenagem e manejo. Segundo ele, o Vale chegou ao limite de expansão baseado apenas nos recursos naturais, e o avanço futuro dependerá de inovação, economia de água, diversificação produtiva e foco em cultivos de maior valor agregado.

O crescimento da fruticultura também impulsionou outros segmentos. Abel observa a expansão de indústrias de embalagens, máquinas e sistemas de irrigação instaladas no entorno do polo agrícola. Esse movimento, segundo ele, amplia o potencial de geração de emprego e renda e reforça o papel de Petrolina como um centro regional de serviços e tecnologia ligados ao agro.

A atuação do poder público

Do ponto de vista da gestão municipal, o secretário de Desenvolvimento Rural de Petrolina, Darcilio Almeida, afirmou em entrevista ao portal, que a prefeitura estruturou políticas voltadas a dar suporte ao agronegócio em diferentes frentes. Segundo ele, ações de manutenção de vilas, limpeza urbana, conservação de prédios públicos, drenagem e espaços comunitários fazem parte da estratégia de garantir condições adequadas para quem vive e trabalha nas áreas irrigadas.

Almeida destaca que Petrolina possui a maior cobertura de ensino do estado, o que contribui para que crianças permaneçam em escolas de tempo integral enquanto os responsáveis atuam no mercado de trabalho. Ele também cita o anúncio de reformas e construções de quatro unidades básicas de saúde em comunidades que atendem moradores da área irrigada.

Na infraestrutura viária, o secretário informa que o município anunciou um pacote de investimentos que inclui a pavimentação e o recapeamento de 137 ruas em áreas periféricas e distritos de irrigação, facilitando a circulação e o escoamento da produção agrícola. Na zona rural, apenas em 2025, foram realizados serviços de patrolamento e tapa-buracos em cerca de 2.300 quilômetros de estradas, beneficiando aproximadamente 120 localidades.

Para garantir segurança hídrica, Almeida explica que a Secretaria de Desenvolvimento Rural desenvolve ações como limpeza de barreiros e barragens e perfuração de poços, levando água a comunidades distantes do rio São Francisco. O uso da água nos canais de irrigação é administrado pelo Distrito de Irrigação Nilo Coelho (DINC), uma associação civil sem fins lucrativos gerida pelos próprios produtores. Já o abastecimento de água e esgoto residencial é de responsabilidade da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).

Segundo o secretário, a prefeitura também investe na construção de adutoras para ampliar o acesso à água na zona rural, beneficiando milhares de famílias.

Foto: Divulgação

Logística e atração de investimentos

Na logística de escoamento, Petrolina conta com um aeroporto internacional considerado um dos mais modernos do Nordeste, com capacidade para até um milhão de passageiros por ano. A cidade também está próxima de portos estratégicos, como Suape, no Recife, Pecém, no Ceará, e Salvador, o que amplia as alternativas para exportação.

O apoio a eventos como a Feira Nacional da Agricultura Irrigada (Fenagri) e ao turismo de negócios integra, segundo Almeida, a estratégia de apresentar o potencial econômico regional e atrair novos investidores. Na agricultura familiar irrigada, a gestão municipal atua em parceria com instituições como Incra, Codevasf, Univasf e IF Sertão, com foco em assistência técnica, incentivo à produção, comercialização e acesso a políticas públicas de fomento.

O conjunto dessas ações ajuda a explicar por que Petrolina deixou de ser apenas uma área produtora de frutas para se consolidar como um laboratório de um novo agro nordestino, estruturado em torno de valor agregado, emprego, inovação e integração entre campo, indústria e serviços.

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