
O Nordeste pode ganhar uma companhia aérea própria, criada pelos estados da região para ligar cidades do interior às capitais e destinos turísticos. A ideia é usar uma empresa estatal para melhorar a conectividade aérea, impulsionar o turismo local e promover a integração econômica entre os nove estados nordestinos.
Essa proposta ganhou força recentemente após o ministro do Turismo, Celso Sabino, anunciar que o governo federal está estudando uma parceria com o Consórcio Nordeste — grupo que reúne os governadores da região — para criar ou apoiar uma companhia aérea que atue exclusivamente no Nordeste. Segundo ele, a empresa poderia ser estatal, gerida diretamente pelo consórcio, e teria foco em rotas regionais que hoje são pouco exploradas pelas grandes companhias.
Esse movimento acontece em um momento delicado para a aviação regional no Brasil. A possível fusão entre as gigantes Azul e Gol pode reduzir ainda mais a concorrência, levando ao fechamento de rotas consideradas menos rentáveis, principalmente em cidades de médio porte e destinos turísticos menores do Nordeste. Por isso, a nova companhia teria o papel de preencher essas lacunas, garantindo voos regulares para locais que hoje enfrentam dificuldades de acesso aéreo.
Vale lembrar que o Nordeste já teve uma companhia aérea regional: a Nordeste Linhas Aéreas, fundada em 1976, que operava em cidades como Salvador, Recife e Natal. A empresa encerrou suas atividades em 2003, após ser incorporada pela Varig, mas marcou época na aviação regional.
Para que a nova empresa saia do papel, especialistas apontam alguns desafios: a aviação exige altos investimentos e uma gestão eficiente, além de boa articulação entre os estados envolvidos. No entanto, o Nordeste conta com incentivos fiscais importantes, como a redução de até 75% no Imposto de Renda para empresas que atuam na área da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e alíquotas menores do ICMS sobre o combustível em estados como Pernambuco. Esses benefícios podem tornar o projeto mais viável financeiramente.
Outro ponto favorável é a modernização da infraestrutura aeroportuária da região. O governo federal tem planejado leilões para concessão de aeroportos regionais, com o objetivo de melhorar terminais e atrair mais operadores. Essas melhorias são essenciais para garantir que a malha aérea regional cresça com segurança e qualidade.
A criação de uma companhia aérea regional pode ser uma ferramenta poderosa para o turismo nordestino, que representa uma das principais fontes de renda da região. Além de facilitar a mobilidade dos moradores, uma malha aérea mais robusta atrai turistas nacionais e internacionais, incentivando o desenvolvimento econômico e cultural.
Por enquanto, a ideia ainda está em fase de estudos e negociações. Mas o debate reacende a urgência de alternativas para garantir que o Nordeste tenha voos regulares, acessíveis e que ajudem a integrar melhor essa região tão diversa e rica em destinos.
A estrutura aeroportuária do Nordeste
O Nordeste possui uma rede aeroportuária diversificada, formada por terminais estratégicos para a movimentação de passageiros e o desenvolvimento econômico regional. O Aeroporto Internacional do Recife, Gilberto Freyre (REC), é o principal hub, além de estar entre os mais movimentados do Brasil, funcionando como a porta de entrada e saída mais importante da região.
Além do Recife, destacam-se o Aeroporto Internacional de Salvador – Luís Eduardo Magalhães (SSA), 10º mais movimentado do país, que recebe voos nacionais e internacionais, e o Aeroporto Internacional de Fortaleza – Pinto Martins (FOR), com o maior fluxo internacional do Nordeste. Fortaleza passou por obras recentes de ampliação para aumentar sua capacidade e melhorar a experiência dos passageiros.
Outros aeroportos relevantes são os de Natal (NAT), Maceió – Zumbi dos Palmares (MCZ), João Pessoa – Presidente Castro Pinto (JPA), Juazeiro do Norte – Orlando Bezerra de Menezes (JDO), Campina Grande – Presidente João Suassuna (CPV) e Porto Seguro (BPS). Eles garantem o acesso a polos turísticos e econômicos, especialmente em cidades do interior, que dependem da aviação para integração e desenvolvimento.
A gestão desses terminais está dividida entre empresas privadas, como Aena Brasil, Fraport Brasil e VINCI Airports, que têm investido em melhorias para acompanhar a demanda crescente. Dados da Panrotas mostram que a movimentação nos aeroportos nordestinos já superou os níveis pré-pandemia, reforçando a importância da infraestrutura aérea para a retomada do turismo e o crescimento econômico regional.
Movimentação nos aeroportos do Nordeste em 2025 já ultrapassa os níveis pré-pandemia
Nos primeiros quatro meses de 2025, mais de 12 milhões de passageiros passaram pelos dez principais aeroportos da região, superando em 170 mil o volume do mesmo período de 2019, antes da pandemia. Em relação a 2024, o aumento foi de 5,9%, com 668 mil passageiros a mais. Só em abril, foram 2,8 milhões de embarques e desembarques, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
No âmbito nacional, o transporte aéreo cresceu 4% em relação a 2019 nos quatro primeiros meses do ano. O Ministério de Portos e Aeroportos projeta que o movimento total de passageiros em 2025 deve atingir recorde histórico, ultrapassando 123 milhões até dezembro.
Para o ministro Silvio Costa Filho, esse cenário reforça o Nordeste como hub estratégico no transporte aéreo brasileiro, graças aos investimentos recentes. “Os números mostram que a região segue em expansão, consolidando sua presença no mercado global e fortalecendo suas rotas estratégicas, tanto dentro do Brasil quanto para destinos internacionais”, afirmou.
O secretário Nacional de Aviação Civil, Tomé Franca, destaca que o crescimento da aviação no Nordeste reflete não só o avanço do turismo, mas também o impacto positivo dos investimentos que impulsionam a economia local. “Com mais brasileiros viajando pelo Nordeste, temos um setor fortalecido em uma região que usa o transporte aéreo como catalisador do desenvolvimento, gerando novas oportunidades em diversos setores”, explicou.
O Aeroporto Internacional do Recife manteve-se o mais movimentado, com 3,1 milhões de passageiros entre janeiro e abril, alta de 3,4% sobre 2024. Salvador registrou 2,5 milhões, aumento de 5%. As duas cidades atraem grande fluxo de turistas, especialmente durante o Carnaval.
João Pessoa lidera o crescimento percentual, com 585 mil passageiros, 16,3% acima de 2024 e 16,4% em relação a 2019, impulsionada pela qualidade de vida da capital paraibana, considerada a melhor entre as capitais nordestinas segundo o Índice de Progresso Social.
Maceió também registra expansão, com quase 1 milhão de passageiros, crescimento de 12,2% em relação a 2024 e 30% desde 2019, consolidando-se como hub turístico nacional.
No interior, Porto Seguro cresceu 12,3%, com 821 mil passageiros, atraindo turistas para a Costa do Descobrimento e a Costa das Baleias.
Fortaleza recebeu 1,8 milhão de passageiros (alta de 4,4%), Natal teve 794 mil (5,2% de aumento), São Luís cresceu 6,5% com 488 mil, e Aracaju avançou 6,8%, chegando a 425 mil passageiros.
O único aeroporto com queda foi Teresina, que teve redução de 5,8%, passando de 354 mil passageiros em 2024 para 334 mil em 2025.
Qual a importância da aviação regional para o Brasil e o Nordeste?
A aviação regional é uma peça fundamental para conectar cidades menores e médias, especialmente em um país do tamanho do Brasil, onde as distâncias são grandes e a infraestrutura rodoviária, muitas vezes, ainda é insuficiente. Diferente dos voos internacionais e domésticos entre grandes capitais, o segmento regional opera principalmente em rotas que ligam municípios interioranos a centros urbanos maiores, facilitando o deslocamento rápido para motivos de trabalho, saúde, lazer e negócios.
No Brasil, essa aviação regional enfrenta uma dinâmica complexa: ela é parte de um sistema hierarquizado, onde as grandes companhias aéreas dominam os voos entre as capitais e mercados mais lucrativos, enquanto as pequenas operam em rotas menos densas, muitas vezes servindo como “alimentadoras” dos voos maiores. Por isso, as companhias regionais precisam se adaptar a essa lógica de mercado, que limita suas operações, mas também evidencia sua importância para ampliar a malha aérea e a conectividade territorial.
Apesar de sua relevância, o setor regional vem encolhendo: o número de cidades atendidas caiu drasticamente, e as empresas especializadas diminuíram de 13 em 2006 para apenas três em 2014. Isso impacta diretamente o acesso de moradores de cidades menores a serviços essenciais e a destinos turísticos, principalmente no Nordeste, onde muitos municípios dependem dessa conexão para atrair visitantes e fomentar a economia local.
Por isso, fortalecer a aviação regional é uma estratégia crucial para promover o desenvolvimento econômico, social e turístico do Nordeste. Uma companhia aérea estatal, focada em rotas regionais, poderia suprir essa lacuna, garantindo voos regulares para localidades menos atendidas e ajudando a integrar melhor a região, que hoje sofre com a concentração dos voos nas grandes capitais do Sudeste.
