Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
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9 de fevereiro de 2026 13:22

Governo federal debate criação de companhia aérea estatal para conectar cidades nordestinas

Governo federal debate criação de companhia aérea estatal para conectar cidades nordestinas

Projeto surge diante da possível fusão entre Azul e Gol e busca fortalecer voos regionais e desenvolvimento econômico
Foto: Reprodução/Internet

O Nordeste pode ganhar uma companhia aérea própria, criada pelos estados da região para ligar cidades do interior às capitais e destinos turísticos. A ideia é usar uma empresa estatal para melhorar a conectividade aérea, impulsionar o turismo local e promover a integração econômica entre os nove estados nordestinos.

Essa proposta ganhou força recentemente após o ministro do Turismo, Celso Sabino, anunciar que o governo federal está estudando uma parceria com o Consórcio Nordeste — grupo que reúne os governadores da região — para criar ou apoiar uma companhia aérea que atue exclusivamente no Nordeste. Segundo ele, a empresa poderia ser estatal, gerida diretamente pelo consórcio, e teria foco em rotas regionais que hoje são pouco exploradas pelas grandes companhias.

Esse movimento acontece em um momento delicado para a aviação regional no Brasil. A possível fusão entre as gigantes Azul e Gol pode reduzir ainda mais a concorrência, levando ao fechamento de rotas consideradas menos rentáveis, principalmente em cidades de médio porte e destinos turísticos menores do Nordeste. Por isso, a nova companhia teria o papel de preencher essas lacunas, garantindo voos regulares para locais que hoje enfrentam dificuldades de acesso aéreo.

Vale lembrar que o Nordeste já teve uma companhia aérea regional: a Nordeste Linhas Aéreas, fundada em 1976, que operava em cidades como Salvador, Recife e Natal. A empresa encerrou suas atividades em 2003, após ser incorporada pela Varig, mas marcou época na aviação regional.

Para que a nova empresa saia do papel, especialistas apontam alguns desafios: a aviação exige altos investimentos e uma gestão eficiente, além de boa articulação entre os estados envolvidos. No entanto, o Nordeste conta com incentivos fiscais importantes, como a redução de até 75% no Imposto de Renda para empresas que atuam na área da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) e alíquotas menores do ICMS sobre o combustível em estados como Pernambuco. Esses benefícios podem tornar o projeto mais viável financeiramente.

Outro ponto favorável é a modernização da infraestrutura aeroportuária da região. O governo federal tem planejado leilões para concessão de aeroportos regionais, com o objetivo de melhorar terminais e atrair mais operadores. Essas melhorias são essenciais para garantir que a malha aérea regional cresça com segurança e qualidade.

A criação de uma companhia aérea regional pode ser uma ferramenta poderosa para o turismo nordestino, que representa uma das principais fontes de renda da região. Além de facilitar a mobilidade dos moradores, uma malha aérea mais robusta atrai turistas nacionais e internacionais, incentivando o desenvolvimento econômico e cultural.

Por enquanto, a ideia ainda está em fase de estudos e negociações. Mas o debate reacende a urgência de alternativas para garantir que o Nordeste tenha voos regulares, acessíveis e que ajudem a integrar melhor essa região tão diversa e rica em destinos.

A estrutura aeroportuária do Nordeste

O Nordeste possui uma rede aeroportuária diversificada, formada por terminais estratégicos para a movimentação de passageiros e o desenvolvimento econômico regional. O Aeroporto Internacional do Recife, Gilberto Freyre (REC), é o principal hub, além de estar entre os mais movimentados do Brasil, funcionando como a porta de entrada e saída mais importante da região.

Além do Recife, destacam-se o Aeroporto Internacional de Salvador – Luís Eduardo Magalhães (SSA), 10º mais movimentado do país, que recebe voos nacionais e internacionais, e o Aeroporto Internacional de Fortaleza – Pinto Martins (FOR), com o maior fluxo internacional do Nordeste. Fortaleza passou por obras recentes de ampliação para aumentar sua capacidade e melhorar a experiência dos passageiros.

Outros aeroportos relevantes são os de Natal (NAT), Maceió – Zumbi dos Palmares (MCZ), João Pessoa – Presidente Castro Pinto (JPA), Juazeiro do Norte – Orlando Bezerra de Menezes (JDO), Campina Grande – Presidente João Suassuna (CPV) e Porto Seguro (BPS). Eles garantem o acesso a polos turísticos e econômicos, especialmente em cidades do interior, que dependem da aviação para integração e desenvolvimento.

A gestão desses terminais está dividida entre empresas privadas, como Aena Brasil, Fraport Brasil e VINCI Airports, que têm investido em melhorias para acompanhar a demanda crescente. Dados da Panrotas mostram que a movimentação nos aeroportos nordestinos já superou os níveis pré-pandemia, reforçando a importância da infraestrutura aérea para a retomada do turismo e o crescimento econômico regional.

Movimentação nos aeroportos do Nordeste em 2025 já ultrapassa os níveis pré-pandemia

Nos primeiros quatro meses de 2025, mais de 12 milhões de passageiros passaram pelos dez principais aeroportos da região, superando em 170 mil o volume do mesmo período de 2019, antes da pandemia. Em relação a 2024, o aumento foi de 5,9%, com 668 mil passageiros a mais. Só em abril, foram 2,8 milhões de embarques e desembarques, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

No âmbito nacional, o transporte aéreo cresceu 4% em relação a 2019 nos quatro primeiros meses do ano. O Ministério de Portos e Aeroportos projeta que o movimento total de passageiros em 2025 deve atingir recorde histórico, ultrapassando 123 milhões até dezembro.

Para o ministro Silvio Costa Filho, esse cenário reforça o Nordeste como hub estratégico no transporte aéreo brasileiro, graças aos investimentos recentes. “Os números mostram que a região segue em expansão, consolidando sua presença no mercado global e fortalecendo suas rotas estratégicas, tanto dentro do Brasil quanto para destinos internacionais”, afirmou.

O secretário Nacional de Aviação Civil, Tomé Franca, destaca que o crescimento da aviação no Nordeste reflete não só o avanço do turismo, mas também o impacto positivo dos investimentos que impulsionam a economia local. “Com mais brasileiros viajando pelo Nordeste, temos um setor fortalecido em uma região que usa o transporte aéreo como catalisador do desenvolvimento, gerando novas oportunidades em diversos setores”, explicou.

O Aeroporto Internacional do Recife manteve-se o mais movimentado, com 3,1 milhões de passageiros entre janeiro e abril, alta de 3,4% sobre 2024. Salvador registrou 2,5 milhões, aumento de 5%. As duas cidades atraem grande fluxo de turistas, especialmente durante o Carnaval.

João Pessoa lidera o crescimento percentual, com 585 mil passageiros, 16,3% acima de 2024 e 16,4% em relação a 2019, impulsionada pela qualidade de vida da capital paraibana, considerada a melhor entre as capitais nordestinas segundo o Índice de Progresso Social.

Maceió também registra expansão, com quase 1 milhão de passageiros, crescimento de 12,2% em relação a 2024 e 30% desde 2019, consolidando-se como hub turístico nacional.

No interior, Porto Seguro cresceu 12,3%, com 821 mil passageiros, atraindo turistas para a Costa do Descobrimento e a Costa das Baleias.

Fortaleza recebeu 1,8 milhão de passageiros (alta de 4,4%), Natal teve 794 mil (5,2% de aumento), São Luís cresceu 6,5% com 488 mil, e Aracaju avançou 6,8%, chegando a 425 mil passageiros.

O único aeroporto com queda foi Teresina, que teve redução de 5,8%, passando de 354 mil passageiros em 2024 para 334 mil em 2025.

Qual a importância da aviação regional para o Brasil e o Nordeste?

A aviação regional é uma peça fundamental para conectar cidades menores e médias, especialmente em um país do tamanho do Brasil, onde as distâncias são grandes e a infraestrutura rodoviária, muitas vezes, ainda é insuficiente. Diferente dos voos internacionais e domésticos entre grandes capitais, o segmento regional opera principalmente em rotas que ligam municípios interioranos a centros urbanos maiores, facilitando o deslocamento rápido para motivos de trabalho, saúde, lazer e negócios.

No Brasil, essa aviação regional enfrenta uma dinâmica complexa: ela é parte de um sistema hierarquizado, onde as grandes companhias aéreas dominam os voos entre as capitais e mercados mais lucrativos, enquanto as pequenas operam em rotas menos densas, muitas vezes servindo como “alimentadoras” dos voos maiores. Por isso, as companhias regionais precisam se adaptar a essa lógica de mercado, que limita suas operações, mas também evidencia sua importância para ampliar a malha aérea e a conectividade territorial.

Apesar de sua relevância, o setor regional vem encolhendo: o número de cidades atendidas caiu drasticamente, e as empresas especializadas diminuíram de 13 em 2006 para apenas três em 2014. Isso impacta diretamente o acesso de moradores de cidades menores a serviços essenciais e a destinos turísticos, principalmente no Nordeste, onde muitos municípios dependem dessa conexão para atrair visitantes e fomentar a economia local.

Por isso, fortalecer a aviação regional é uma estratégia crucial para promover o desenvolvimento econômico, social e turístico do Nordeste. Uma companhia aérea estatal, focada em rotas regionais, poderia suprir essa lacuna, garantindo voos regulares para localidades menos atendidas e ajudando a integrar melhor a região, que hoje sofre com a concentração dos voos nas grandes capitais do Sudeste.

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