
O setor cervejeiro brasileiro manteve crescimento em 2024, registrando 1.949 cervejarias ativas — 102 novas unidades em relação ao ano anterior, o que representa uma alta de 5,5%, segundo o Anuário da Cerveja 2025, elaborado pelo Ministério da Agricultura em parceria com o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv). O estudo também aponta 43.176 rótulos e 55.015 marcas registrados no país, reforçando a força e a diversidade do mercado.
A indústria emprega hoje 43 mil pessoas de forma direta e mais de 1,5 milhão indiretamente. No comércio exterior, o Brasil exportou 332,5 milhões de litros de cerveja em 2024, gerando US$ 204 milhões em receita. A produção nacional totalizou 15,34 bilhões de litros, mantendo estabilidade em relação ao ano anterior, mas com destaque para a fabricação de cervejas sem álcool, que já representam 4,9% do mercado.
Nordeste cresce pouco em número, mas muito em identidade
O crescimento do Nordeste foi mais tímido: em 2024, a região passou de 120 para 122 cervejarias, um avanço de 1,7%, o menor entre todas as regiões brasileiras. Ainda assim, o setor tem mostrado força pela originalidade e pela conexão com a cultura local.
A Bahia lidera o número de estabelecimentos, com 29 unidades, seguida por Ceará (22), Rio Grande do Norte (20) e Pernambuco (14). Em quantidade de rótulos registrados, a liderança também é baiana, com 408 cervejas, seguida por Ceará (278), RN (247) e Alagoas (186). Fortaleza é a única cidade nordestina que aparece entre as que possuem mais de dez cervejarias, somando 11 estabelecimentos.
Alguns estados mantiveram estabilidade, enquanto Bahia e Alagoas apresentaram queda no número de cervejarias, de 3,3% e 14,3%, respectivamente. Apesar disso, a região vem se destacando no cenário nacional com produtos que unem inovação, ingredientes nativos e identidade cultural — um diferencial que conquista consumidores e jurados em competições.
O exemplo de Alagoas: tradição, premiações e estratégia
Em Maceió, a microcervejaria Caatinga Rocks é um exemplo de como a valorização de ingredientes regionais pode gerar reconhecimento internacional. “A Caatinga Rocks nasceu com a ideia de incorporar o nosso DNA nordestino e alagoano nos estilos de cerveja que produzimos, seja nos rótulos ou nos ingredientes”, afirma o sócio-administrador Marcus Leal.
Um dos rótulos mais premiados da casa é a Mandacaru Atômico, sour que utiliza três tipos de cactáceas — mandacaru, palma e xique-xique — e já acumula nove prêmios, incluindo reconhecimento no World Beer Cup, considerado o concurso mais prestigiado do setor.
Outro destaque é a Alagoas Funky Wild, inspirada nos povos originários e fermentada a partir da microflora presente na água de manipueira coletada em Porto Calvo (AL). “O resultado é um produto único, de personalidade selvagem e carregado de identidade”, diz Leal. O rótulo já conquistou oito premiações, entre elas o título de Melhor Cerveja Brasileira de 2024 e um Best of Show.
Após a pandemia de covid-19, a Caatinga Rocks percebeu uma queda na demanda, mas também uma oportunidade. “Criamos o Gastrobar da Fábrica, onde o cliente tem a oportunidade de ter a experiência completa e ampliar a percepção sensorial dos nossos produtos”, explica Marcus Leal. A estratégia fortaleceu as vendas diretas e aproximou a marca de seu público.
Apesar dos avanços, Leal aponta desafios significativos: “Os maiores desafios encontrados são na parte logística e principalmente tributária, onde as microcervejarias continuam pagando a mesma carga de impostos que as grandes indústrias”.
Perspectivas para a região
Para o Sindicerv, o aproveitamento de insumos regionais, aliado à criatividade dos produtores, deve fortalecer a posição do Nordeste no mercado nacional. O setor contribui para a economia local não apenas pela produção e comercialização, mas também pelo impacto no turismo gastronômico, na geração de empregos e na promoção da cultura e diversidade regional.
O cenário, embora ainda com números discretos de crescimento, indica que o futuro da cerveja artesanal nordestina passa menos pela quantidade e mais pela qualidade, autenticidade e identidade que a região imprime em cada rótulo.
