
A indústria do sal do Rio Grande do Norte, responsável por até 98% da produção de sal marinho do Brasil, atravessou em 2025 um dos períodos mais desafiadores de sua história recente. A imposição de tarifas de até 50% pelos Estados Unidos, principal destino internacional do produto potiguar, provocou um choque externo de grandes proporções, colocando em risco exportações, margens de lucro e postos de trabalho em uma cadeia produtiva estratégica para a economia estadual.
O setor salineiro potiguar movimenta cerca de R$ 300 milhões por ano e responde diretamente por aproximadamente 4 mil empregos, além de milhares de vagas indiretas ligadas ao transporte, à logística portuária e aos serviços. Em um estado com forte dependência de algumas atividades-chave, o impacto do tarifaço expôs fragilidades estruturais e reacendeu o debate sobre o modelo de desenvolvimento baseado na alta especialização produtiva.
Por que o sal se concentra no Rio Grande do Norte?
A liderança do Rio Grande do Norte na produção nacional de sal marinho não é casual. Condições naturais como alta incidência solar, ventos constantes, baixos índices pluviométricos e extensas áreas planas no litoral favorecem a evaporação da água do mar e a cristalização do sal em larga escala. Ao longo de décadas, o estado consolidou um parque salineiro altamente especializado, capaz de atender tanto o mercado interno quanto grandes compradores internacionais.
Essa especialização garantiu ganhos de escala e competitividade por muitos anos, mas também criou uma dependência significativa de poucos mercados. Cerca de 47% do resultado da produção salineira potiguar vinha das exportações para os Estados Unidos, segundo dados do setor. Foi justamente essa concentração que amplificou os efeitos das tarifas impostas em 2025.
Para Jorge Ferreira, economista e professor de administração da ESPM, o caso do sal é emblemático para entender os efeitos da hiper especialização econômica. “O Rio Grande do Norte é um estado que se especializou em algumas produções e acabou sendo um dos mais atingidos pela tarifa do Trump ao longo de 2025. O sal é um caso emblemático porque 98% do sal tratado brasileiro é produzido no estado e quase metade desse resultado vinha das exportações para os Estados Unidos”, afirma.
Segundo o economista, a redução das exportações teve efeitos em cascata. Primeiro, houve diminuição de turnos nas salinas; em seguida, demissões. Mas o impacto não se limitou aos empregos diretos. “Os empregos indiretos também são afetados. A quantidade de transportes diminui, os fretes portuários são reduzidos e isso chega ao comércio local, especialmente nas regiões que eram centros consumidores”, explica Ferreira.
Esse efeito multiplicador evidenciou como a interrupção abrupta de uma cadeia de compras internacional pode reverberar por toda a economia local, afetando renda, consumo e arrecadação.
Produto de baixo valor agregado, alta sensibilidade
Outro fator que agravou o cenário foi a própria natureza do produto. O sal marinho é um item de baixíssimo valor agregado e altamente sensível a variações de preço, tarifas e custos logísticos. “Como o nível de processamento é muito baixo, qualquer alteração nas condições de transporte ou nas tarifas internacionais afeta diretamente a competitividade”, destaca o professor da ESPM.
Em comparação com concorrentes internacionais, como o México, o sal potiguar enfrenta custos mais elevados de frete e escoamento, reflexo de gargalos históricos de infraestrutura. Problemas de dragagem portuária, limitações nos terminais e uma matriz de transporte pouco eficiente pesam no custo final do produto.
Apesar das dificuldades, o choque externo acabou se transformando em um ponto de inflexão para o setor. A crise abriu espaço para discutir desafios estruturais antigos, como a defasagem portuária, a necessidade de modernização das salinas e a baixa prioridade dada a produtos de maior valor agregado dentro da própria cadeia do sal.
“A tarifa trouxe à tona a necessidade de diversificação de mercados e de especialização dentro da especialização”, avalia Jorge Ferreira. Segundo ele, mesmo em um cenário adverso, os impactos acabaram sendo parcialmente mitigados ao longo de 2025.
Diversificação de mercados e novos produtos
Com apoio do governo estadual, de canais diplomáticos e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), o setor salineiro potiguar acelerou a busca por novos compradores. Ao longo de 2025, cerca de 14 novos mercados foram abertos, incluindo países da Ásia, da Europa e da África.
Suécia, Ucrânia, Cabo Verde e as Ilhas Canárias passaram a figurar entre os destinos do sal potiguar, reduzindo a dependência dos Estados Unidos. Além disso, parte da produção foi absorvida pelo mercado interno, contribuindo para que o estado mantivesse um resultado superior ao de 2024.
Outro movimento relevante foi a entrada em nichos de maior valor agregado, como o mercado de sais premium, especialmente na Europa. Esses produtos passam por maior nível de processamento e permitem margens mais elevadas, ainda que representem uma fatia menor do volume total exportado.
Apesar dos avanços, um problema estrutural persiste: a infraestrutura. Investimentos em portos, estradas e logística demandam tempo e recursos elevados. “O segmento de infraestrutura reage mais lentamente. Você precisa construir, reformar ou ampliar áreas portuárias, melhorar estradas, e isso não acontece de um ano para o outro”, ressalta Ferreira.
Para 2026, a recuperação do setor salineiro do Rio Grande do Norte passa, portanto, por uma combinação de estratégias: consolidação da diversificação de mercados, estímulo à produção de sal com maior valor agregado, incentivos fiscais e avanços graduais na infraestrutura logística.