Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
Jornalismo econômico para a inovação no Nordeste -
9 de fevereiro de 2026 16:00

Inovação e resiliência refinam o “ouro verde” de Currais Novos

Inovação e resiliência refinam o “ouro verde” de Currais Novos

Entenda como o reuso de esgoto viabilizou a maior mina do Seridó

Após seis décadas de tentativas frustradas, Currais Novos passou a integrar o mapa da produção de ouro no Brasil. O início da operação comercial da Mina Borborema, da canadense Aura Minerals, marca a entrada efetiva do município do interior do Rio Grande do Norte na cadeia global do metal. O empreendimento introduz mudanças econômicas, ambientais e institucionais em uma região historicamente associada à escassez hídrica, à mineração de scheelita e à forte dependência do setor de serviços. Com investimento total de R$ 1,2 bilhão, uso exclusivo de água de reuso e impacto direto sobre emprego, arrecadação e saneamento, o projeto altera a dinâmica produtiva do Seridó.

O depósito de ouro da Borborema é conhecido desde a década de 1940. Ao longo dos anos, diferentes empresas analisaram o potencial da área, mas a exploração não avançou. Dois fatores se repetiam como obstáculos. O primeiro era o teor do minério, considerado baixo para as tecnologias disponíveis em décadas anteriores. O segundo era a limitação de água em uma das regiões mais secas do país. No semiárido, a utilização de água potável para mineração sempre foi um ponto sensível, tanto do ponto de vista técnico quanto social.

A viabilização do projeto ocorreu a partir de avanços em engenharia e gestão de recursos. A Aura Minerals adotou tecnologias de beneficiamento mais eficientes e estruturou um modelo hídrico baseado no reaproveitamento de efluentes urbanos. Em parceria com a CAERN, a empresa passou a utilizar o esgoto da zona urbana de Currais Novos como insumo industrial. O efluente é coletado, tratado em uma Estação de Tratamento de Efluentes e transportado por uma adutora de 27 quilômetros até a planta industrial da mina.

O tratamento inclui três etapas de purificação, entre elas a osmose reversa, para que a água atinja o padrão exigido pelas operações industriais. Dentro da mina, o sistema funciona em circuito fechado, com reaproveitamento de cerca de 90% da água utilizada. Os 10% restantes são repostos com esgoto tratado. Com esse modelo, a Mina Borborema opera sem captar água de rios, açudes ou aquíferos, o que representa um marco para a mineração de ouro no país.

Os efeitos desse arranjo hídrico também se refletem na estrutura urbana. Ao assumir custos operacionais da estação de tratamento, como energia e insumos, a empresa gera uma economia estimada em R$ 10 mil por mês para o município. O investimento privado também acelerou a ampliação da rede de saneamento, aproximando Currais Novos da universalização do tratamento de esgoto, um indicador ainda raro em cidades do semiárido.

No campo econômico, os impactos começaram a ser sentidos ainda na fase de obras. Entre 2023 e 2024, cerca de 2.500 empregos foram gerados durante a construção da mina. Com o início da operação, a estimativa é de aproximadamente 1.000 empregos diretos e entre 4.500 e 5.000 indiretos, envolvendo setores como comércio, transporte, manutenção e serviços técnicos. Em uma economia local de base restrita, a movimentação se espalha rapidamente por diferentes atividades.

A arrecadação da CFEM também ganha relevância nesse novo cenário. No caso do ouro, 60% dos recursos ficam com o município, 15% com o estado e o restante é destinado à União. Para Currais Novos, a compensação representa um aumento significativo de receita, com potencial de reforço nos orçamentos de áreas como saúde, educação e infraestrutura. Especialistas apontam que o principal desafio será garantir que esses recursos sejam aplicados de forma planejada e com foco em longo prazo.

O cronograma do empreendimento reforça a escala do projeto. A construção foi concluída em 19 meses, prazo considerado curto para um projeto greenfield desse porte no Brasil. A primeira barra de ouro foi produzida em julho de 2025, durante a fase de testes. A operação comercial plena teve início entre setembro e outubro, com mais de 80% da capacidade instalada em funcionamento.

Estudos recentes também identificaram a presença de um depósito de ouro sob um trecho da BR-226, rodovia federal que passa nas proximidades da mina. A Aura Minerals iniciou negociações com o DNIT para avaliar um possível desvio da estrada. Caso a alteração seja autorizada, o investimento adicional pode chegar a R$ 645 milhões e ampliar as reservas conhecidas, estendendo a vida útil da mina além dos 11,3 anos inicialmente estimados.

Na operação diária, a Mina Borborema processa cerca de 2 milhões de toneladas de minério por ano. A taxa de recuperação do ouro varia entre 90% e 92%, considerada elevada para o setor. A produção diária gira em torno de 4.500 toneladas, utilizando o método CIL, no qual o ouro é extraído do minério moído por meio de carvão ativado. Toda a produção é destinada à exportação para a Europa, em um contexto de preços elevados no mercado internacional.

Do ponto de vista institucional, o projeto se apoia em uma articulação entre empresa, poder público e concessionária estadual de saneamento. A experiência passou a ser observada como referência de reaproveitamento de recursos e integração entre infraestrutura urbana e atividade industrial.

O principal desafio, a médio e longo prazo, será o uso do ciclo do ouro como indutor de diversificação econômica. A dependência excessiva de uma única atividade é um risco recorrente em regiões mineradoras. A forma como Currais Novos irá direcionar investimentos, qualificar mão de obra e fortalecer fornecedores locais será determinante para os efeitos duradouros do empreendimento.

No Seridó, onde a escassez de água sempre condicionou o desenvolvimento, a Mina Borborema se estabelece a partir de um modelo baseado na reutilização de recursos. A experiência evidencia uma mudança na relação entre mineração, saneamento e planejamento urbano em uma das regiões mais secas do país.

👆

Assine a newsletter
do Investindo por aí!

 

Gostou desse artigo? compartilhe!

Últimas

image (1)
e88191cb33acbe843d70ee6b60f835c9
Água
fruticultura
Prédios em João Pessoa 2
IBS
fiocruz
Sertão cearense
TJ RN
concessão parques

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

div#pf-content img.pf-large-image.pf-primary-img.flex-width.pf-size-full.mediumImage{ display:none !important; }