
A confirmação da formação da La Niña, com probabilidade de 71% de persistir até fevereiro de 2026, reacende um alerta antigo do campo brasileiro. Quando o Pacífico esfria, o clima muda de comportamento. No Norte e Nordeste, essa mudança costuma aparecer em forma de nuvens carregadas, vento quente e chuva em excesso. O pacote devolve vida ao solo, mas também ameaça a produtividade.
O agronegócio vive um choque de expectativas para a safra 2025/26. De um lado, a chance de um ciclo favorecido pela melhora na oferta hídrica; de outro, a necessidade de atenção redobrada diante da irregularidade climática, que pode complicar manejo, logística e sanidade das lavouras.
Desde meados de 2023, partes do Nordeste enfrentaram estiagens que prejudicaram culturas estratégicas e limitaram o plantio. A volta da umidade é encarada como um respiro para regiões do Matopiba, agreste e semiárido produtivo.
O fenômeno, porém, também traz riscos. A La Niña costuma produzir precipitações acima da média no Norte, no litoral do Nordeste e em áreas de grãos na Bahia, Maranhão e Piauí. Entre os principais impactos estão alagamentos, encharcamento do solo, compactação em áreas com operações mantidas mesmo sob umidade, aumento de patógenos favorecidos pelo calor, janelas de plantio mais curtas e perda de qualidade caso o pico de chuva avance até março.
O Instituto Nacional de Meteorologia prevê volumes superiores ao padrão histórico no trimestre novembro a janeiro em grande parte do Nordeste. “A tendência é de uma estação mais úmida e com maior variabilidade, o que exige atenção de produtores e gestores locais”, afirma o Inmet. No interior da Bahia e na costa leste, o quadro tende a ser de déficit localizado. A Embrapa reforça o alerta para zonas suscetíveis a doenças fúngicas, como manchas, antracnose e podridões.
A La Niña tende a dividir o Brasil em dois blocos climáticos. As chuvas aumentam no Norte e Nordeste, enquanto o Sul convive com secas prolongadas e irregularidade. Isso já vem sendo observado desde outubro.
No Rio Grande do Sul, produtores de soja ainda lidam com os efeitos da enchente histórica de 2024 e com estiagens recentes. Analistas da Datagro avaliam que a safra 2025/26 pode equilibrar as perdas caso as chuvas sejam suficientes para recompor o potencial produtivo.
No Centro-Oeste, o cenário deve ser mais regular, com precipitações favorecendo soja, milho e a recuperação das pastagens.
Enquanto isso, o Norte e o Nordeste enfrentam intensidades diferentes de chuva, formando um mosaico climático que exige estratégias específicas para cada micro-região.
A partir das projeções do Inmet, Embrapa e consultorias privadas, alguns pontos críticos se destacam:
- Região Norte: Acre, Rondônia, Amapá e o norte do Pará devem ter chuvas abaixo da média e temperaturas até 1 ºC mais altas, cenário que compromete pastagens e culturas anuais. No oeste da Amazônia, o excesso hídrico permanece como risco, especialmente durante a colheita.
- Região Nordeste: Maranhão, Piauí e Ceará têm previsão de chuva acima da média, o que pode atrasar plantio e favorecer doenças. O litoral nordestino enfrenta risco de alagamentos, compactação do solo e dificuldades de acesso às áreas produtivas. No interior da Bahia, o déficit hídrico exige irrigação mais eficiente. No Matopiba, o plantio pode atrasar devido à irregularidade das primeiras chuvas, que deixam o solo endurecido e pouco favorável à germinação.
O que dizem pesquisas e consultorias
Estudos de longo prazo indicam que a La Niña pode reduzir a produtividade de milho, soja e arroz em regiões específicas. Análises baseadas em séries históricas mostram que Bahia e Rio Grande do Sul estão entre os locais mais sensíveis às oscilações do ENOS. Em anos de La Niña, municípios vulneráveis registram perdas expressivas por excesso ou falta de água.
O impacto varia conforme localização, manejo e tipo de solo, mas a tendência de retração de produtividade é recorrente. Consultorias como Pine Agronegócios e Datagro já reduziram previsões para a colheita de soja de 2025/26, citando irregularidade climática e atrasos no plantio no país acima de Minas Gerais.
Manejo, solo e sanidade: como os produtores devem se preparar
A Embrapa e o Ministério da Agricultura apontam três frentes essenciais.
- Manejo do solo: É recomendável evitar operações mecanizadas em solos úmidos, priorizar plantio direto e adotar terraceamento e drenagem quando necessário.
- Monitoramento fitossanitário: É importante intensificar vistorias, ajustar calendários de aplicações preventivas e promover rotação de culturas para reduzir a pressão de patógenos.
- Logística e colheita: Produtores devem revisar acessos e estradas vicinais, ajustar janelas de colheita e planejar armazenamento para evitar perdas de qualidade.
