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18 de fevereiro de 2026 14:17

Luís Eduardo Magalhães pode virar o CEP do etanol de milho no oeste baiano

Luís Eduardo Magalhães pode virar o CEP do etanol de milho no oeste baiano

Nova biorrefinaria financiada combina força do agronegócio local e posição estratégica no MATOPIBA para transformar a Bahia de importadora em produtora relevante de biocombustíveis
Foto: Divulgação

O BNDES aprovou um financiamento de R$ 950 milhões para a Inpasa Agroindustrial erguer, em Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, a primeira biorrefinaria da companhia no estado, e a 6ª no Brasil. Do total, R$ 350 milhões vêm do Fundo Clima e R$ 600 milhões da linha BNDES Finem, combinação que coloca o projeto no centro da agenda de transição energética e industrialização com baixa emissão, ao mesmo tempo em que mira reduzir a dependência baiana da importação de biocombustíveis.

A futura planta foi desenhada para processar até 1 milhão de toneladas por ano de milho e produzir 498 milhões de litros por ano de etanol, além de coprodutos como 248,9 mil toneladas de DDG (insumo proteico para ração), 24.862 toneladas de óleo vegetal e 185 GWh/ano de energia elétrica. A previsão é atingir a capacidade máxima a partir de 2027.

Apesar de ser um grande mercado consumidor de combustíveis, a Bahia não concentra, historicamente, a maior parte da oferta doméstica de etanol do país, que está fortemente ancorada no eixo Centro-Sul. Na prática, isso empurra o estado a comprar etanol de fora para equilibrar a demanda e a obrigatória mistura na gasolina, uma dinâmica que pode ser rastreada em bases oficiais de importação, exportação e comercialização do setor.

É exatamente esse vazio que o projeto tenta preencher. Ao anunciar o financiamento, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, foi explícito ao dizer que a planta deve “contribuir para que a Bahia deixe de ser importadora para se tornar exportadora de biocombustíveis”.

Em termos econômicos, a lógica é de mais produção local, o que reduz a necessidade de trazer etanol de outros estados, encurta rotas, diminui custos logísticos e cria excedente potencial para venda regional, sobretudo quando o etanol vira parte de um complexo industrial, como energia, nutrição animal e óleo vegetal, e não se restringe apenas a um tipo de combustível.

O uso de R$ 350 milhões do Fundo Clima dá uma pista do enquadramento da operação. O fundo é um instrumento federal ligado à política climática, com recursos reembolsáveis administrados pelo BNDES para financiar projetos que contribuam com mitigação/adaptação e inovação tecnológica.

Na prática, isso pode significar custo financeiro mais competitivo do que linhas tradicionais, dependendo das condições aplicadas, sinalização institucional (o projeto entra na vitrine da economia verde) e pressão por métricas ambientais e governança de risco (energia, emissões, insumos, eficiência).

Foto: Divulgação

Por que Luís Eduardo Magalhães

A escolha do município no oeste baiano não é casual, e a própria Inpasa lista dois fatores-chave: a força do agronegócio local e potencial logístico. A usina foi desenhada para moer milho, sorgo, e outros grãos, e o oeste baiano é um polo de produção e expansão agrícola. A Inpasa afirma que a planta deve estimular a rotação de culturas e o avanço do cultivo de milho e sorgo como segunda safra, também conhecida como safrinha, adaptáveis ao clima local e úteis para reduzir risco produtivo.

A cidade conhecida como polo do agronegócio é um nó rodoviário relevante no MATOPIBA e no oeste baiano. Hoje, a BR-242 é apontada por lideranças do agro como via central de escoamento, enquanto projetos como a FIOL – Ferrovia de Integração Oeste-Leste, um grande projeto de infraestrutura ferroviária na Bahia criado para ligar o interior produtor de grãos e minérios aos portos no litoral –  e o corredor portuário no litoral baiano aparecem como sonho logístico para reduzir frete e ampliar competitividade.

“Para uma biorrefinaria, logística é custo estrutural. Entram grãos, saem etanol, DDG, óleo, e eventualmente energia. Estar perto de produção e de corredores de escoamento atuais e planejados melhora a conta, e ajuda a explicar por que a planta foi localizada em área rural do município”, afirma o especialista em energia Gilberto Dias.

Foto: Divulgação

A extensa cadeia da energia

Um dos pontos mais subestimados do etanol de milho é o efeito industrial dos coprodutos. Para o DDG (proteína para ração), a chegada da planta tende a fortalecer cadeias locais de proteína animal ao reduzir a necessidade de comprar esse insumo de outros estados, algo citado como expectativa local no anúncio da empresa. Com a usina, o óleo vegetal gera bioeletricidade, receitas que ajudam a amortecer a volatilidade do combustível. A Inpasa também menciona possibilidade de agregar valor a resíduos agrícolas como biomassa para vapor (palha de milho, bagaço de cana, caroço de algodão).

Pelos dados do BNDES, a obra deve gerar cerca de 300 empregos diretos e mais de 3 mil indiretos. Depois, a operação industrial abre de 450 a 500 empregos diretos. O BNDES informa que a capacidade máxima deve ser alcançada a partir de 2027.

O futuro da energia no Nordeste

O Brasil é um dos maiores produtores mundiais de etanol combustível, com uma produção total que tem excedido 30 bilhões de litros por ano, parte dela visando a mistura obrigatória com a gasolina e o restante para consumo direto em veículos flex e outros usos energéticos, segundo dados consolidados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e estimativas setoriais recentes.

No cenário nacional, a produção está fortemente concentrada no Centro-Sul, com estados como São Paulo respondendo por cerca de 40% do total produzido no país, seguido por regiões como o centro-oeste e o sudeste, responsáveis por mais de 80% da oferta nacional de etanol tradicional de cana.

Por outro lado, estados do Nordeste, incluindo a Bahia, historicamente têm participação muito menor na produção de etanol, o que implica que boa parte do combustível consumido internamente precisa ser trazida de outras regiões produtoras ou importada em períodos de alta demanda.

Esse perfil setorial explica por que iniciativas como a nova biorrefinaria de etanol de milho da Inpasa em Luís Eduardo Magalhães podem ter um impacto estrutural: elas ajudam a criar oferta local significativa, reduzir dependência de suprimentos distantes e, potencialmente, transformar a Bahia de importadora para potência exportadora de biocombustíveis no Brasil.

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