
O Governo do Maranhão abriu recentemente uma nova frente institucional para ampliar sua capacidade de atrair recursos ambientais e destravar investimentos estruturantes em duas agendas cada vez mais conectadas: a governança fundiária e a energia. Em reuniões no Rio de Janeiro com o BNDES e a Petrobras, a gestão de Carlos Brandão tratou, de um lado, do reforço de aportes do Fundo Amazônia para regularização de terras e combate a queimadas; de outro, assinou um acordo de confidencialidade entre a Gasmar e a Petrobras para avançar em estudos e oportunidades no mercado de gás natural. A movimentação sinaliza uma aposta de fortalecer a base socioambiental do estado para melhorar sua capacidade de captar investimentos e, ao mesmo tempo, consolidar o Maranhão como ativo estratégico da transição energética brasileira.
O eixo fundiário ajuda a explicar por que a pauta ambiental deixou de ser apenas tema de preservação e passou a ser tratada também como infraestrutura econômica. Na reunião com o BNDES, o governo buscou ampliar recursos para o programa Paz no Campo, lançado em 2023. Segundo o governo maranhense, o programa já beneficiou mais de 22,7 mil famílias com títulos de terra, incluindo comunidades quilombolas. Em novembro de 2025, o BNDES acolheu a elegibilidade de apoio do Fundo Amazônia ao programa, em proposta de R$ 55,3 milhões voltada à regularização fundiária de 800 mil hectares, com potencial de atender mais de 20 mil famílias e mais de 20 territórios quilombolas.
Segundo nota do banco, a percepção da instituição é de que a regularização fundiária não é só uma política social, mas um vetor de desenvolvimento sustentável. Na interlocução com o governo do estado, a diretora socioambiental do BNDES, Tereza Campello, afirmou que a iniciativa “reconhece direitos, promove inclusão e cria bases sólidas para um desenvolvimento mais justo e sustentável”, além de ampliar a segurança jurídica e reduzir conflitos no campo. Em linguagem de mercado, isso significa diminuir risco territorial, facilitar planejamento produtivo e melhorar as condições para financiamentos, cadeias de valor e investimentos privados em áreas rurais.
Essa conexão entre ordenamento territorial e competitividade ganha peso adicional num estado que ainda enfrenta pressões ambientais relevantes. O Maranhão registrou queda de 63,87% no desmatamento do Cerrado e de 41,08% na Amazônia no primeiro bimestre de 2025, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, e também informou redução dos focos de queimadas entre julho e setembro de 2025 em relação ao mesmo período de 2024. Ainda assim, os incêndios seguem como desafio estrutural. Em 2024, o Corpo de Bombeiros atendeu 4.341 ocorrências ligadas ao tema. Em outras palavras, há melhora de indicadores, mas o passivo ambiental ainda exige escala de investimento e governança contínua.

A ofensiva maranhense ocorre num momento em que o Fundo Amazônia voltou a operar em ritmo mais robusto. O BNDES informou que o fundo quadruplicou aprovações e ampliou sua capilaridade, enquanto o relatório anual de 2024 mostra a retomada da governança e do pipeline de projetos. Também estão em curso linhas federais para prevenção e combate a incêndios na Amazônia Legal, da qual o Maranhão faz parte.
Segundo o especialista em gestão pública Max Cardoso, Isso ajuda a entender por que o estado tenta posicionar seus projetos como políticas estruturantes, e não ações pontuais. “Na disputa por capital climático, propostas com impacto territorial, regularização e redução de emissões tendem a ganhar prioridade. Se na agenda ambiental o foco é reduzir risco e destravar produção, no campo energético o objetivo é ampliar escala”, afirma.
O acordo assinado entre Gasmar e Petrobras permitirá a troca de informações técnicas e comerciais para avaliação de oportunidades no mercado de gás natural. Segundo o presidente da Gasmar, Allan Kardec, a parceria abre possibilidade de investimento conjunto e está relacionada, entre outros fatores, à perspectiva de exploração da margem equatorial, com eventual oferta adicional de gás para o Maranhão e para o país. A diretora executiva de Transição Energética e Sustentabilidade da Petrobras, Angélica Laureano, classificou a assinatura como um novo momento da parceria entre as duas empresas.
Na prática, o estado tenta construir uma ponte entre seu ativo ambiental e sua ambição energética. O Maranhão já dispõe de uma base relevante no gás: a Gasmar inaugurou em 2025 o primeiro sistema de distribuição de gás natural de São Luís, formado por unidade de regaseificação e pelo primeiro gasoduto de distribuição da capital. A companhia também informou que a construção do gasoduto na região metropolitana de São Luís, ligando o Porto do Itaqui à Vale, envolve investimento superior a R$ 70 milhões. Antes disso, a Gasmar já havia firmado contrato para distribuir 250 mil m³/dia de gás natural à usina de pelotização da Vale no Maranhão.
Além da distribuição, o estado já tem uma âncora produtiva importante no Complexo Parnaíba. A Eneva informa que o complexo, em Santo Antônio dos Lopes, tem capacidade instalada total de 1,9 GW em usinas termelétricas a gás natural. A companhia também anunciou em 2025 a ampliação da produção de GNL no Maranhão, com adição prevista de 300 mil m³/dia até 2027, elevando a capacidade total de liquefação para 900 mil m³/dia. O próprio boletim de conjuntura do IMESC destaca a expansão recente da planta e lembra que o segundo trem de liquefação contou com R$ 660 milhões contratados junto ao Banco do Nordeste.
Esse movimento energético acontece num estado cuja economia vem acelerando. O IMESC informou que o PIB do Maranhão cresceu 4,2% no terceiro trimestre de 2025, acima do Brasil, que avançou 1,8%, e do Nordeste, com 2,4%; no acumulado dos trimestres de 2025, a expansão maranhense chegou a 3,9%. O mesmo instituto mostra avanço do volume de serviços, crescimento do setor terciário na arrecadação de ICMS e um ambiente de negócios considerado favorável por causa dos investimentos privados anunciados entre 2023 e 2025. Esse pano de fundo ajuda a explicar por que o governo tenta amarrar a agenda verde a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
O Porto do Itaqui é a peça que costura quase todas essas agendas. O terminal é uma das principais portas de entrada de combustíveis do país, recebeu a renovação da gestão estadual por mais 25 anos e consolidou recordes recentes de movimentação. Em 2025, o porto registrou o melhor primeiro semestre de sua história, com 17,2 milhões de toneladas, e chegou a 34,3 milhões de toneladas até 27 de novembro, superando o total de 2024 antes do fim do ano. A expansão veio puxada por grãos, fertilizantes e derivados de petróleo, confirmando o Itaqui como corredor logístico decisivo do Arco Norte e elo natural entre produção, energia e exportação.
É justamente por isso que a agenda ESG do porto ganhou centralidade. O Plano de Descarbonização do Itaqui projeta ações até 2050, com base em inventário de emissões e cenários de redução. O documento afirma que a descarbonização pode elevar a eficiência operacional e competitividade global do terminal. Em 2022, o total de emissões incluídas no plano foi de 189,2 mil toneladas de CO₂ equivalente, com 72% associados a navios atracados. No cenário otimista, as emissões anuais poderiam cair para cerca de 9 mil toneladas em 2050, redução de 88,8% frente a 2022. O plano também destaca VPL positivo para algumas medidas, inclusive eletrificação de berços de granéis líquidos. Em 2025, o Itaqui ainda recebeu o Selo Pró-Clima Diamante e reforçou sua imagem como referência em sustentabilidade portuária.

Nesse ponto, o gancho climático se impõe. Melhorar a governança ambiental não é apenas uma exigência reputacional, mas uma pré-condição crescente para atrair capital e reduzir custo de oportunidade. O próprio plano do Itaqui associa descarbonização à competitividade; o BNDES, por sua vez, vincula regularização fundiária a desenvolvimento sustentável e segurança jurídica. A inferência é direta: quanto mais o Maranhão conseguir demonstrar controle territorial, capacidade de resposta a queimadas, redução de desmatamento e planejamento de baixo carbono, maior tende a ser sua atratividade para fundos públicos, crédito de desenvolvimento, parceiros industriais e investidores privados com filtros ESG.
A discussão da margem equatorial reforça ainda mais essa ambivalência. A Petrobras já obteve licença para perfuração exploratória no bloco FZA-M-059, na costa do Amapá, marco recente da nova fronteira offshore brasileira. Embora a operação não seja em águas maranhenses, o debate interessa diretamente ao estado porque a Gasmar e o governo local enxergam potencial de integração futura com a oferta de gás e com a infraestrutura logística do Itaqui. Ao mesmo tempo, a margem equatorial carrega elevado escrutínio ambiental e regulatório, o que torna ainda mais decisivo o argumento de que expansão energética e robustez socioambiental terão de caminhar juntas.
No curto prazo, a ofensiva institucional do Maranhão parece mirar dois resultados simultâneos. O primeiro é captar recursos para regularização fundiária, prevenção a incêndios e estruturação de políticas públicas. O segundo é estratégico: vender ao mercado a imagem de um estado capaz de combinar segurança jurídica no campo, infraestrutura logística competitiva, gás natural como vetor de industrialização e uma agenda ambiental mais madura. “Se essa engenharia funcionar, o Maranhão pode se consolidar não apenas como um território promissor para investimentos, mas como um caso relevante de como governança ambiental e transição energética podem ser convertidas em política de desenvolvimento regional”, afirma Cardoso.