
A presença do governador Paulo Dantas em Lisboa, acompanhado por reitores e representantes da área científica, marcou uma etapa da estratégia estadual de inserção internacional das universidades públicas em fevereiro. A missão institucional incluiu agendas acadêmicas no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa) e foi apresentada como parte de um movimento para ampliar cooperação, mobilidade acadêmica e captação de recursos externos. O contexto é favorável: Brasil e Portugal têm intensificado parcerias por meio de editais conjuntos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
O discurso oficial sustenta que a internacionalização pode elevar o padrão das instituições estaduais e ampliar sua inserção em redes científicas globais. Representantes da comitiva destacaram a possibilidade de acordos voltados à produção de conhecimento conjunto, intercâmbio de estudantes e docentes e desenvolvimento de pesquisas aplicadas. O presidente do ISCSP-ULisboa, Ricardo Ramos, mencionou a importância de parcerias que resultem em investigação colaborativa e contribuição para políticas públicas.
Em entrevista concedida ao Investindo Por Aí, a reitora da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal), Pollyanna Almeida, analisou a agenda sob a ótica institucional da universidade. Para ela, o momento representa “uma janela estratégica”, mas exige planejamento técnico e consolidação interna para que produza efeitos duradouros.
Segundo a reitora, a inserção competitiva da Uncisal nesse ambiente não se dará por volume de recursos, mas por especialização temática. A instituição pretende concentrar esforços em áreas nas quais já possui densidade acadêmica e impacto regional consolidado, especialmente saúde pública, formação em saúde e pesquisa aplicada ao Sistema Único de Saúde (SUS). “Competitividade não se constrói apenas com escala, mas com foco e relevância”, afirmou ao Investindo.
Ela explicou que a universidade está estruturando núcleos de apoio à internacionalização e à submissão de projetos, com o objetivo de qualificar pesquisadores para atuar em redes colaborativas e disputar editais internacionais em condições técnicas adequadas. A meta é priorizar parcerias que resultem em coautoria científica, mobilidade estruturada e projetos efetivamente financiados, evitando acordos que se limitem à formalidade institucional.
Gargalos estruturais
Pollyanna reconheceu que transformar cooperação internacional em produção científica consistente exige enfrentar limitações históricas. Do ponto de vista da infraestrutura, citou a necessidade de ampliar e modernizar laboratórios, fortalecer biotérios e consolidar plataformas multiusuárias. A manutenção permanente de equipamentos, segundo ela, é tão estratégica quanto sua aquisição.
No campo da formação de pesquisadores, a reitora defendeu maior inserção da universidade em redes internacionais de pesquisa, estímulo a estágios pós-doutorais no exterior e políticas de atração de jovens doutores. Para ela, a internacionalização deve integrar o percurso formativo de docentes e pesquisadores, e não ocorrer como iniciativa pontual.
Outro ponto enfatizado ao Investindo foi a profissionalização da gestão de projetos. A reitora destacou que a competitividade em editais internacionais depende de equipes capacitadas para prospectar oportunidades, elaborar propostas tecnicamente robustas e cumprir exigências de execução e prestação de contas em padrões internacionais. “Acordos só se traduzem em produção científica quando há estrutura administrativa capaz de sustentá-los”, afirmou.
Saúde pública como eixo estratégico
Na avaliação de Pollyanna, a cooperação com instituições portuguesas pode fortalecer a capacidade da Uncisal de responder às demandas regionais do SUS sem perder de vista padrões internacionais de excelência. Ela apontou três frentes principais: transferência de metodologias e protocolos clínicos baseados em evidências; desenvolvimento conjunto de pesquisas aplicadas, especialmente em atenção primária e vigilância em saúde; e formação avançada de quadros docentes e técnicos.

A reitora observou que Portugal também enfrenta desafios relacionados ao financiamento do sistema público e ao envelhecimento populacional, o que cria terreno comum para intercâmbio de soluções adaptáveis à realidade nordestina. Para ela, excelência internacional não significa distanciamento das demandas locais, mas enfrentá-las com maior rigor metodológico e capacidade analítica.
Plano de longo prazo
Ao tratar da internacionalização como política institucional, Pollyanna afirmou ao Investindo que a agenda não é episódica na Uncisal. Segundo ela, a universidade integra essa estratégia a um plano de desenvolvimento científico de médio e longo prazo, com metas definidas de ampliação de publicações em coautoria internacional, consolidação de programas de mobilidade docente e discente, inserção em redes temáticas consolidadas e captação sistemática de recursos externos.
Missões oficiais, segundo a reitora, têm papel catalisador, mas não substituem políticas estruturadas. A internacionalização precisa estar vinculada ao fortalecimento da pós-graduação, à consolidação de grupos de pesquisa e à melhoria de indicadores institucionais.
Assimetria regional e financiamento
Questionada sobre o impacto das parcerias internacionais em estados com histórico de menor financiamento científico, Pollyanna adotou posição cautelosa. Para ela, a cooperação externa pode ampliar visibilidade e acelerar processos, mas não altera isoladamente o patamar científico de regiões periféricas.
A transformação estrutural, defende, depende de investimentos contínuos dos governos estadual e federal, com financiamento regular, fortalecimento das fundações estaduais de amparo à pesquisa, recomposição orçamentária das universidades e políticas nacionais sensíveis às desigualdades históricas do sistema científico brasileiro.
“Nossa posição é de complementaridade: internacionalizar para ampliar horizontes, mas fortalecer a base local para sustentar o crescimento científico de forma duradoura”, concluiu.