
O ano de 2025 consolidou o Nordeste como protagonista da transição energética brasileira, com uma combinação de marcos regulatórios inéditos, avanços portuários, expansão de projetos-piloto de Hidrogênio Verde (H2V) e maior coordenação entre estados. Com isso, a região começou a transformar em realidade uma agenda que, até então, era sustentada sobretudo por memorandos de entendimento e projeções de potencial renovável.
Para a professora Sulamita Lopes, coordenadora da Pós-Graduação em Sistemas Elétricos de Potência do Instituto Mauá de Tecnologia, 2025 representou um ponto de virada. “Houve alguns fatores que contribuíram para a transição energética no Nordeste, como o avanço regulatório para offshore, o apoio financeiro a hubs regionais, a infraestrutura em portos e os leilões de transmissão focados na região”, afirma.
O primeiro grande indicador desse avanço foi a Lei nº 15.097/2025, sancionada em janeiro, que regulamentou a exploração de energia eólica em alto-mar. Ao definir regras para o uso do mar territorial e da Zona Econômica Exclusiva, a legislação abriu caminho para que dezenas de projetos offshore, muitos deles na costa do Rio Grande do Norte e do Ceará, saíssem do estágio especulativo.
Segundo Sulamita, essa lei inaugura “um setor com grande potencial no litoral nordestino”, ao trazer segurança jurídica para investidores e acelerar a análise de licenças no Ibama. Ainda assim, o licenciamento continua sendo o principal desafio. A professora lista quatro entraves: “estudos ambientais extensos, conflitos pelo uso do espaço marítimo, limitações de infraestrutura portuária e desafios da transmissão submarina e terrestre”.
O avanço da eólica offshore também reacendeu debates socioambientais. O impacto sobre a pesca artesanal, o turismo e áreas sensíveis como manguezais exige planejamento cuidadoso. “Projetos mal planejados podem provocar externalidades sociais e ambientais significativas, mas iniciativas bem desenhadas reduzem esses riscos”, observa. Nos pilotos já iniciados, há consultas públicas antecipadas, inclusão de comunidades e monitoramento ambiental contínuo.
Hidrogênio Verde: dos memorandos às obras
Entre 2021 e 2024, o Nordeste acumulou mais de 30 memorandos de entendimento com empresas nacionais e estrangeiras para produção e exportação de H2V, com a maioria desses acordos concentrados no Ceará, mas poucos haviam saído do papel. Em 2025, esse cenário começou a mudar.
“Sim, alguns projetos avançaram para obras e pré-contratações”, afirma Sulamita. Os estados mais adiantados são Ceará e Pernambuco, onde os complexos de Pecém e Suape passaram por uma reconfiguração estrutural. No Ceará, o apoio do Banco Mundial à estratégia estadual de H2V foi um divisor de águas, destravando investimentos em dutos, áreas alfandegadas e integração logística com eólica onshore e offshore. Suape, por sua vez, avançou em obras de adaptação para receber plantas eletrolisadoras e terminais de amônia.
A estratégia portuária é considerada um pilar para viabilizar o H2V exportado. “É essencial que os portos da região estejam prontos para atender a essa demanda”, explica Sulamita. Embora existam atrasos, sobretudo por licenciamento e dificuldades na cadeia global de suprimentos, a especialista avalia que “há avanços reais, com pilotagem e obras iniciais dentro do previsto em alguns projetos”.
Além de CE e PE, a Bahia despontou com novos anúncios de plantas de amônia verde e um corredor energético integrado ao Porto de Aratu.

Cooperar ou competir? A disputa silenciosa entre os estados
Com o boom renovável, emergiu a preocupação de que os estados concorreriam entre si por investimentos internacionais. A professora reconhece o risco. “Há risco principalmente no que diz respeito a ofertas fiscais e territoriais e na corrida por investimentos”, diz. No entanto, destaca que a cooperação também ganhou espaço. Projetos de H2V e offshore exigem escala e sinergia logística que aumentam a vantagem de estratégias regionais conjuntas.
Em 2025, essa integração começou a ganhar forma por meio de fóruns setoriais, iniciativas coordenadas em editais e apoios multilaterais estruturados para hubs regionais. Ainda assim, a balança entre competição e cooperação segue instável.
Nenhum avanço energético se sustenta sem uma rede robusta de transmissão, e esse talvez seja o maior desafio do Nordeste. “Sem a infraestrutura de transmissão, o escoamento da geração fica limitado, não fazendo sentido construir novos empreendimentos na região”, alerta Sulamita. Em 2025, o Leilão de Transmissão da ANEEL destinou dois dos sete lotes ao Nordeste, ampliando rotas de escoamento para energia solar, eólica e offshore, mas analistas consideram que os reforços ainda estão aquém da necessidade para a próxima década.
Parcerias público-privadas para linhas dedicadas, redes inteligentes e projetos de transmissão marítima começaram a ser estruturados, mas ainda em estágio embrionário.
Parques offshore: onde avançam os projetos?

De maneira geral, os projetos seguem em tramitação junto ao Ibama, com investidores avaliando áreas prioritárias do litoral e realizando medições de vento e análises de viabilidade. Outros estados da região também iniciaram levantamentos preliminares, mas ainda estão distantes das fases de obra ou implantação efetiva.
Quais lições de 2025 podem orientar políticas públicas para 2030?
A professora Sulamita resume quais lições de 2025 podem orientar políticas públicas mais efetivas para que Nordeste, de fato, lidere a transição energética até 2030:
- Planejamento regional integrado com transmissão, portos, cadeias logísticas e proteção ambiental agregados, em vez de iniciativas isoladas.
- Incentivar projetos-piloto bem estruturados para aprender sobre mitigação e modelos de negócio antes de escalar e assim reduzir riscos.
- Licenciamento mais ágil e padronizado;
- Investimento prioritário em infraestrutura de escoamento, como transmissão e portos
- Governança conjunta entre estados, União e multilaterais, com participação comunitária.
“Esse conjunto de coisas é essencial para transformar o potencial renovável do Nordeste em liderança efetiva até 2030”, conclui.
