
A região Nordeste avança para transformar uma carteira bilionária de projetos industriais em investimentos concretos. Durante reunião do Conselho Deliberativo e do Comitê Regional de Instituições Financeiras Federais (Coriff), realizada na quarta-feira (25) na sede da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, representantes de governos e bancos públicos alinharam estratégias para acelerar a liberação de crédito da chamada Nordeste da Nova Indústria Brasil (NIB).
A iniciativa, considerada a maior mobilização de projetos industriais da história da região, reúne 189 propostas que somam R$ 113 bilhões em investimentos. Lançada em maio de 2025, a chamada abrange os nove estados nordestinos e concentra esforços em cinco áreas estratégicas: transição energética, bioeconomia, hidrogênio verde, data centers verdes e setor automotivo.
A expectativa, segundo as instituições financeiras envolvidas, é que as primeiras contratações sejam efetivadas ainda no primeiro semestre de 2026. O objetivo imediato é garantir ao menos um projeto aprovado por estado até junho, consolidando a transição da fase de seleção para a execução.
O governador de Alagoas, Paulo Dantas, que também preside o Consórcio Nordeste, destacou que o principal desafio histórico da região segue sendo o acesso ao crédito. Segundo ele, a mobilização evidencia o potencial produtivo nordestino, mas exige agilidade na implementação. “Não existe desenvolvimento econômico sem crédito. Precisamos garantir que esses recursos cheguem aos empreendimentos para gerar emprego, renda e prosperidade”, afirmou.
A demanda pelos recursos superou em 11 vezes o volume inicialmente previsto, o que reforça, segundo o superintendente da Sudene, Francisco Alexandre, a necessidade de acelerar a análise e contratação dos projetos. Para dar maior celeridade ao processo, foi definido um modelo de monitoramento contínuo, com acompanhamento quinzenal da tramitação das propostas.
Os projetos foram organizados em dois grupos: 53 iniciativas já estão em estágio avançado de maturidade, enquanto outras 146 ainda demandam ajustes técnicos e estruturais para viabilização. A estratégia envolve atuação coordenada entre instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
Segundo o assessor do BNDES, Caio Ramos, a fase atual é de estruturação das operações financeiras. O banco atua diretamente com empresas na análise documental e na modelagem dos contratos, além de operar de forma indireta por meio de instituições parceiras. O modelo integrado, segundo ele, permite reduzir gargalos históricos e acelerar o acesso ao crédito.
Além da agenda industrial, o encontro também avançou na discussão sobre o fortalecimento do turismo, setor responsável por cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) nordestino. Como encaminhamento, ficou definida a realização de um roadshow em todos os estados da região para apresentar linhas de financiamento disponíveis ao setor.
Entre os recursos previstos para 2026, destacam-se R$ 1,7 bilhão do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) e R$ 850 milhões do Fundo Geral de Turismo (Fungetur). A ampliação do crédito representa um salto em relação aos anos anteriores, quando o volume anual girava em torno de R$ 1 bilhão.
Outro ponto debatido foi a limitação de acesso ao crédito por parte dos municípios. Dados apresentados indicam que, dos 394 projetos selecionados no Nordeste em editais voltados à infraestrutura social, apenas 107 cidades possuem classificação de Capacidade de Pagamento (Capag) A ou B; requisito exigido para contratação de financiamentos. O dado evidencia um entrave estrutural que ainda limita a capilaridade dos investimentos públicos.
A articulação entre governos estaduais, bancos públicos e a Sudene busca justamente mitigar essas barreiras históricas. Para os participantes da reunião, o desafio agora é transformar o volume expressivo de projetos em contratos efetivos, garantindo impacto direto sobre a economia regional.