
A participação do Nordeste no debate nacional sobre desenvolvimento econômico ganhou novo fôlego durante o CB.Debate Os avanços do Nordeste, realizado pelo Correio Braziliense em parceria com o Banco do Nordeste na última semana. Representantes dos setores de energia, infraestrutura, agronegócio, inovação e organismos internacionais convergiram em um diagnóstico comum: a região vive um momento de grande expansão, mas ainda enfrenta entraves que limitam seu potencial de transformação social.
No campo energético, o diretor de Novos Negócios da ABEEólica, Marcello Cabral, afirmou que o Nordeste reúne todas as condições para liderar a implantação de usinas eólicas offshore no Brasil. A qualidade dos ventos e do litoral confere vantagem competitiva clara, e a projeção é que os primeiros projetos ganhem escala dentro de oito a dez anos. Apesar da perspectiva otimista, Cabral alertou para gargalos regulatórios e de transmissão, que ainda inibem investimentos e impedem que o Nordeste deixe de ser exportador e passe a concentrador de riqueza. A qualificação da mão de obra local também foi apontada como determinante para que a nova economia energética gere benefícios diretos à população.
O economista-chefe do BNB, Rogério Sobreira, destacou que o crescimento acima da média nacional deve continuar em 2026, sobretudo em cidades de médio porte e em polos agrícolas da região do Matopiba. A demanda global por grãos, proteínas e biocombustíveis mantém o agronegócio aquecido. Em infraestrutura, projetos de saneamento, portos, ferrovias e logística devem movimentar bilhões e criar ambiente favorável a novos investimentos privados.
A Embrapa reforçou a importância de fortalecer ecossistemas territoriais de inovação. Para o gerente-geral Evandro Holanda, a articulação entre Consórcio Nordeste, governo federal, academia, agricultores familiares e setor privado é essencial para reduzir desigualdades históricas e modernizar a produção rural. Ele defendeu que a própria região defina seus rumos, deixando de depender de modelos externos.
A transição energética também impulsiona iniciativas tecnológicas de grande porte, como o anúncio de um data center de R$ 200 bilhões no Ceará. Segundo o economista da UFPE Ecio Costa, a proximidade geográfica com a Europa e a presença de cabos submarinos elevam o potencial da região como hub digital e logístico. Costa, no entanto, lembrou que o saneamento básico ainda é o maior gargalo estrutural, e que a reforma tributária pode pressionar cadeias produtivas locais diante da concorrência com a Zona Franca de Manaus.
Para o Banco Mundial, os avanços do Nordeste serão decisivos para a redução da pobreza no Brasil. O economista Cornelius Fleischhaker ressaltou que, embora a região tenha reduzido parcialmente a distância em relação ao Sudeste ( hoje seu PIB per capita é 40% do paulista, ante 20% na década de 1960), o ritmo de convergência continua lento. “A produtividade agrícola já se equipara à do Sudeste, mas outros setores permanecem estagnados”, destacou Fleischhaker. Ele acredita que os incentivos tributários não têm gerado ganho de produtividade; e sim um ambiente econômico pouco dinâmico.
O consenso entre os especialistas é que o Nordeste reúne vantagens estratégicas raras — riqueza natural, posição geográfica, crescimento agrícola, matriz energética renovável e novos arranjos institucionais. Mas transformar potencial em desenvolvimento exige superar desafios regulatórios, ampliar investimentos sociais e qualificar a força de trabalho.