
O Nordeste brasileiro vive um momento de inflexão no mercado de eventos e no turismo de negócios. Tradicionalmente associado ao turismo de lazer, sol e praia, o território passou a ocupar, a partir do ano passado, um lugar estratégico na economia dos eventos corporativos, congressos, feiras técnicas e viagens de incentivo. Dados recentes indicam que essa transformação não é episódica, mas resultado de uma reorganização estrutural que envolve infraestrutura, conectividade, articulação público-privada e reposicionamento das empresas do setor.
Em 2025, o fluxo turístico no Nordeste cresceu 11,8%, com destaque para o avanço do turismo internacional. Na Bahia, esse crescimento chegou a 61%, impulsionado principalmente pela realização de congressos, eventos corporativos e viagens de incentivo. O desempenho reforça o papel do turismo como um dos principais motores da economia brasileira: até novembro, o setor foi responsável pela criação de mais de 106 mil empregos no país, com forte impacto sobre hotelaria, serviços, transporte, comunicação e economia criativa.
Nesse cenário, o mercado de eventos emerge como uma engrenagem estratégica para o desenvolvimento regional. Segundo dados do setor, apenas em 2025, os eventos realizados no Nordeste geraram impacto econômico estimado em R$ 523,9 milhões, valor que tende a ser ainda maior quando considerados os efeitos indiretos e induzidos sobre a cadeia produtiva local.
“Em geral, esses números refletem principalmente os efeitos diretos, como gastos com hospedagem, alimentação e transporte. Quando se olha para a cadeia de fornecedores e para a renda que retorna à economia local, o impacto total é significativamente ampliado”, explica o economista e professor universitário José Cláudio Rocha.
A capacidade da região de sediar eventos de grande porte, incluindo convenções corporativas com mais de mil participantes, é resultado de investimentos contínuos em centros de convenções, modernização da rede hoteleira e melhoria da conectividade aérea. Estados como Bahia, Pernambuco e Ceará concentram equipamentos capazes de receber eventos nacionais e internacionais, com padrão técnico comparável ao dos grandes centros do Sudeste.
Para José Cláudio Rocha, o avanço do mercado de eventos no Nordeste deve ser compreendido como uma política estruturante. “Não se trata de um movimento pontual. Os dados mostram que o fluxo turístico regional vem crescendo desde 2025, aliado à expansão do turismo internacional e à reorganização estratégica do setor. Isso revela que o Nordeste passou a ocupar um novo lugar na economia dos eventos e do turismo de negócios no Brasil”, afirma.
O economista ressalta, no entanto, que o crescimento traz desafios. Entre eles, a necessidade de maior diálogo entre os diversos atores do setor e a preservação de patrimônios históricos e culturais, como as baianas de receptivo, símbolo identitário da Bahia, cuja presença vem diminuindo em função da falta de articulação institucional.
Camaçari como epicentro econômico e tecnológico
No caso baiano, esse movimento se expressa de forma particularmente clara na Região Metropolitana de Salvador, com destaque para Camaçari. Sede do maior Polo Industrial e Petroquímico do Hemisfério Sul, o município desponta como epicentro do crescimento econômico e tecnológico do estado.
O Polo Industrial de Camaçari vem recebendo mais de 40 novas empresas de base tecnológica, o que fortalece a densidade produtiva local e amplia o potencial de atração de eventos técnicos, científicos e corporativos. “O crescimento do turismo na Bahia está associado não apenas à beleza natural, mas também ao fortalecimento da economia, à proximidade do aeroporto internacional e à combinação rara entre infraestrutura, atratividade ambiental e densidade produtiva”, observa Rocha.
Redução da sazonalidade e geração de empregos
Outro impacto relevante do fortalecimento do mercado de eventos é a redução da sazonalidade turística. Diferentemente do turismo de lazer, concentrado em períodos específicos do ano, os eventos corporativos ocorrem de forma mais distribuída ao longo do calendário.
Isso garante previsibilidade de receita, mantém empregos ativos durante todo o ano e permite que pequenos empreendedores locais, como prestadores de serviço, comerciantes e trabalhadores da economia criativa, planejem melhor seus investimentos e ampliem sua atuação. Esse efeito se reflete também no aumento da arrecadação municipal, especialmente de impostos como ISS e ICMS.
“O mercado de eventos gera impacto direto na hotelaria, movimenta transporte, alimentação, montagem de estruturas, comunicação, economia criativa e serviços especializados. Em cidades com base industrial consolidada, como Camaçari, os eventos agregam valor ao estimular a troca de conhecimento, a inovação e a conexão entre empresas, universidades e trabalhadores locais”, destaca o economista.
O reposicionamento regional começa a se traduzir em iniciativas voltadas à inovação e à internacionalização. Um exemplo é o Camaçari 5.0 Global Innovation Forum, proposta apresentada ao CNPq por centros de pesquisa locais, com o objetivo de reunir atores globais do campo da tecnologia e inovação.
O encontro pretende articular indústria, educação, políticas públicas e economia criativa, reforçando o papel dos eventos como plataformas de conhecimento, inclusão produtiva e desenvolvimento sustentável.
No campo da Economia do Bem-Estar Social, o avanço do turismo de eventos dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente os ODS 4 (educação de qualidade), 8 (trabalho decente e crescimento econômico), 9 (inovação e infraestrutura) e 11 (cidades sustentáveis).
“Mas tudo isso só se consolida com intencionalidade: políticas de contratação local, estímulo à economia solidária e criativa, práticas de eventos sustentáveis e articulação entre poder público, empresas e sociedade civil”, pontua Rocha.
O movimento também se insere em uma agenda mais ampla do Governo Federal, que tem dado atenção especial ao turismo como eixo estratégico das políticas de cidades inteligentes, com uso crescente de tecnologia, digitalização de serviços e geração de dados para subsidiar políticas públicas.
Ao consolidar sua liderança regional em eventos corporativos, turismo de incentivo e segmentos de maior valor agregado, o Nordeste avança para além do turismo tradicional e se afirma como plataforma de negócios, inovação e conhecimento.
Trata-se de um reposicionamento que fortalece a imagem regional no cenário nacional e internacional e aponta para um modelo de desenvolvimento mais integrado, sustentável e inclusivo, no qual o mercado de eventos deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar papel central na estratégia econômica do Nordeste brasileiro.